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A bem da Nação

Aerodinâmica – 3

 

 
A folha de papel esvoaçou, engolida pelo autismo do remoinho. O texto escrito, mas por assinar, encontrava esta forma de publicação natural, directa e crua. As palavras editadas por uma sucessão de pequenos tornados. A centrifugação imposta pelo vendaval impunha outros significados às ideias abatanadas no caldeirão. A mensagem contorcida na folha resistia porque tinha alguma qualidade. A unidade de massa do papel conferia o peso aerodinâmico adequado. O voo da folha não foi suficientemente prolongado para dissolver a impressão e a aterragem do papel acabou por acontecer num terraço de um prédio construído nos anos quarenta. A folha pousou ao lado de um guarda-chuva partido. Se a folha tivesse olhos poderia observar o interior do apartamento. A sala de estar que dava acesso ao terraço estava recheada de livros e manuscritos. Um cesto de papéis com algumas folhas amarrotadas e outras tantas rasgadas, vítimas do controlo de qualidade. Ao canto da sala descansava uma bengala gasta, porventura cansada de tanto andar sem o amparo de uma bengala. Cinzeiros transbordavam de beatas, um claro indicador de múltiplas pausas para pensar ou sofrer a sós. Um isqueiro incendiara os cigarros mas não estava à vista. A dedução era gratuíta – não se vislumbravam fósforos queimados. O isqueiro, longe de olhares indiscretos estaria no bolso do incendiário e não tinha sido utilizado para exterminar os papéis contorcidos no cesto. Se tal acto incendiário tresloucado tivesse acontecido correriamos perigo. As folhas violentadas residiam num purgatório literário, numa espécie de semi-vida com pequenas chances de hospitalização, reabilitação e integração na sociedade das letras. O autor das ideias atiradas ao cesto não se tinha dado ao trabalho de fazer desaparecer todas as incongruências postas em papel. Era um profissional e já estava muito batido, sabia que para chegar lá era preciso pedalar muito e deitar alguma coisa a perder. Não se vislumbravam grémios de montanha. As etapas vencidas aconteciam na solidão do acto. As frases escritas e desprezadas faziam parte da encomenda para ocupar a coluna do semanário literário. Era assim há anos e ninguém questionava os procedimentos. Para falar honestamente e não escrever mentiras, ninguém tinha ido à fábrica ver onde e como a coisa escorria. O semanário tinha pedido um fornecimento de colunas por atacado e o resto era conversa.
 
Lá fora na varanda a folha de papel extraviada estava expectante, mas face ao exposto, o medo lentamente invadia-lhe o espírito. A visão daquele cesto de papéis estropiados perturbava e violentava. Sem dúvida tinha havido um holocausto de letras. As palavras amputadas já não fazim sentido, e deixavam de ser corpos de ideias. Era uma colecção macabra de letras, sem voz ou sentido. Uma nação inteira de consoantes e uma minoria de vogais esmagadas por uma força opressora. Uma tortura de dislexia aplicada sem misericórdia. As folhas toldadas dissimulavam a sua identidade, continham linhas impensáveis, dizeres inaudíveis e anunciavam a sua morte precoce. Se um orador versátil ensaiasse a leitura do desastre contido no cesto de papéis, decerto escutaríamos urros próximos da animalidade ou o uivar pesaroso do lobo. De certeza que por detrás do engendrado tinha havido uma sucessão de actos de desespero. A partir do terraço a perspectiva poderia levar a enganos, mas não estariamos longe da verdade se se ajuizasse que quem fez aquilo era capaz de violências maiores. O dono do apartamento está ausente mas há-de voltar para me matar – pensou a folha extraviada, algo aterrorizada. A página imaculada, prisioneira do terraço, tornava-se neurótica e no seu íntimo já sabia que o autor do paginacídio viria para a descobrir indefesa e à mercê quem sabe de uma tortura maior. Era uma questão de tempo.
 
(continua)
 
 John Wolf

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