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A bem da Nação

Aerodinâmica – 2

 

 
 
Para não levantar suspeitas ou apontar o dedo, não indicaremos nomes nem moradas. Iremos mais longe até anulando a genealogia ou a educação recebida pelos agentes. Não iremos referir cumplicidades, e entendendo esta abordagem no seu limite, teremos de aceitar que a explicação aqui dada acontece porque uma organização secreta forneceu a matéria considerada essencial a troco de algum dinheiro e que fechava definitivamente uma dívida antiga. Para tornar mais credível as razões indicadas ou as justificações, apenas podemos avançar que um sem número de senhas foi necessário para nos aproximarmos dos factos ou bem entendido, a verdade. Um labirinto descreve com precisão, a distância entre o ponto de partida e o pranto na leitura do texto, que permite entender este acontecimento terrível. Alertamos os mais sensíveis para a violência desta reportagem. E oferecemos a possibilidade de não envolvimento do leitor a partir de agora. Esta é a altura para decidir categoricamente o que se pretende entender. Mais tarde não valerá a pena bradar que não estava a par do que estava a suceder.
 
Quando acordou naquela manhã tinha tido um sonho maravilhoso. Era raro ter aquela clarividência mesmo desperto e a olhar-se ao espelho. De uma assentada a noite tinha plantado no seu espírito a totalidade das imagens. A magia residia na realização total e irrefutável do seu desígnio. Tinha de se mexer com um certo sentido de urgência para não desperdiçar a colheita de frases feitas. Era raro uma rede lançada na consciência, ou até para além da explicação, capturar tanto de uma só faina. A concretização do seu objectivo seria facilmente exequível com algumas ideias e umas resmas de papel. Sentia a emergência para expelir e salvar uma pluralidade de imagens, mas sabia que ao partilhar com os outros o tesouro iria vulgarizar o conceito, e a mensagem passaria a ser um travesti vulgar. A sua maturidade apenas agora lhe servia plenamente; oferecia-lhe a ferramenta do discernimento, muito útil para saber da essência da vida e explicá-la em forma de narrativa. A experiência desbastava passes desnecessários e eliminava intermediários oportunistas. Este sujeito tinha atravessado todos os estilos literários e deambulado por quase todas as filosofias pragmáticas. Para muitos era entendido como um alíbi perfeito para justificar dúvidas, mas a culpa não era dele. A responsabilidade do pensamento insalúbre era de uma parte substancial do seu ser. Era um escritor. Tinha começado a rabiscar como qualquer criança incapaz de soletrar, para mais tarde adestrar a escrita e caligrafar as ideias importantes que chegavam. Este sujeito deveria ser considerado um metroliterário – dedicado de forma irrepreensível à limpeza e perfeição do estilo, à afinação concedida pela largueza de espírito, deixando em aberto o desfecho das ideias, roçando com elegância a poesia mas permitindo a saída fácil daqueles leitores com problemas ligeiros de atenção, provocados pelo consumo de alcoól ou pela ausência de hábitos de leitura. Ao fim de anos de exercício, a máquina de escrever escravizada e barulhenta, deu lugar a um processador de textos, algo aceitável no seu entender. O aparelho dotado de tecnologia fazia trabalhar mais os dígitos e bastante menos os braços e ante-braços. A escrita ida e vinda no vaivém melancólico dos autores, voltava a ser silenciosa e era uma pena se o resto do mundo não percebesse os seus sonhos ou o seu pior pesadelo. À medida que o tempo passava, tinhamos ouvido falar que as sua ideias estavam a ser engolidas pelo dogma e pela intransigência, e a deglutição sem mascar das verdades inconvenientes provocava-lhe problemas digestivos. Havia alguém que confessara que uma úlcera maior tinha-lhe arrebentado o juízo. Outros porém não davam importância a essas considerações menos favoráveis. E podiamos acusá-los de imparcialidade, contudo importará referir que nos encontramos ainda no plano das percepções e dos juízos formados a partir de fragmentos transmitidos pela via oral. De facto, ninguém tinha sido o seu confidente ou tinha tido a ocasião flagrante de ver um texto seu compilado sobre a folha, para poder ulteriormente reflectir e formar uma outra opinião, favorável quem sabe. E depois aconteceu o que tinha de acontecer para despoletar reacções mais intensas. Pensa-se que terá sido num Domingo, e esse facto tem a sua importância relativa porque invulgarmente ele decidira escrever numa esplanada junto a um rio, cujo nome não vamos revelar por razões de segurança. E soprava algum vento que produzia um silvo, uma quase palavra ou a sugestão de que algo tinha de ser dito naquele momento.
 
(continua)
 
 John Wolf

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