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A bem da Nação

UM PORTUGUÊS NA ANTÁRCTICA - 2

 

A  caminho  do  muito  frio
 
Estávamos a voar de Pelotas para Punta Arenas no Chile, cruzando a Patagónia e deixado o Uruguai para trás, cheio de sol!
Seis horas de vôo, no “conforto” dum cargueiro, mais de metade do tempo com os pés gelados – preparação para o que estava para vir – serviço de bordo impecável, dadas as circunstâncias, e sempre sob a responsabilidade da “tia” Alice (só faltou um ou dois copitos de vinho!), visita à cabine de comando do avião, boa parte do tempo circulando em pouco mais de meio metro quadrado, para aliviar o frio e aproveitar para ir conhecendo, aos gritos, os parceiros da viagem, finalmente chegámos.
Desembarque no aeroporto, que é base militar muito bem estruturada – parece estar à espera dum ataque “inimigo” – onde a alfândega só se preocupou em saber se levávamos frutas ou quaisquer outros vegetais ou comestíveis. Proibidíssimo!
Temperatura: 1° C, vento forte, e sensação de freezer!
O programa previa, e cumpriu-se, pernoita em Punta Arenas, e no regresso da Antárctica mais duas noites, com um dia livre, de modo que, antes do gelo (quase) absoluto vamos falar de Punta Arenas.
Fica ali mesmo! No Estreito de Magalhães! Antes da abertura do Canal do Panamá, passagem obrigatória entre os oceanos, hoje uma cidade com cerca de 150 mil habitantes. Praticamente plana, muito ordenada e limpíssima – não se vê no chão um único pedacinho de papel, cigarro ou qualquer lixo – ninguém atravessa a rua sem ser nas passarelas para pedestres, e assim mesmo quando tiver o sinal verde e, para vergonha de muita terra que todos nós conhecemos, tem quatro museus. Interessantes.
Hotel – ficámos no Rey Don Filipe, simpático e confortável, um café da manhã miserável e uma cozinha de primeira! Contradições incompreensíveis! – e  por toda a cidade uma razoável variedade de bons restaurantes, com preços sem exploração.
Não vai a Punta Arenas quem não experimentar a “santoja” (santola) de que há diversos criaderos, deliciosas, a merluza negra ou o congro! Peixes daqueles frios mares, de primeira ordem! Como na Argentina, hay también muy buenas carnes, como el cordero, magnifico. Tudo isto, mesmo parecendo pleonasmo há que referir, acompanhado do vinho chileno, que o tem de todos os tipos e gran calidad!
Com o decorrer da viagem e várias refeições em conjunto, iam-se conhecendo melhor aqueles com quem se criaram vínculos mais fortes, seja pelo tipo de interesses gerais e, opiniões durante as conversas, talvez uma ligeira identidade na gourmandise ou na apreciação dum bom copo. Mas novas personalidades se conheciam, algumas que ajudaram a marcar esta aventura Antárctica com um ambiente, não gelado do frio, mas caloroso entre muitos participantes. Seria uma tremenda vergonha referir só alguns e arriscar a hipótese de esquecer outros. De qualquer forma fica aqui um abraço para os que mais marcaram estas novas amizades. Eles, se lerem isto saberão bem a quem me refiro.
Punta Arenas tem uma zona franca, e aí se encontram, sobretudo electrónicos, por preços incríveis, e muitos aproveitaram para dar um up-grade nos seus televisores, máquinas fotográficas, e outros. Vinhos, em qualquer supermercado, com preços demasiado apetecíveis! A vida no Chile é mais barata que no Brasil.
Uma tarde entrou no hotel um dos mais jovens membros da nossa expedição, radiante porque tinha comprado uma mala muito barata. Aproximei-me, ouvi a explicação e perguntei quanto lhe tinha custado: US$ 16. Barato.
- Onde comprou? Lá me explicou em qual loja, e se ofereceu de imediato para voltar lá e comprar uma para mim!
- Mas eu não tenho dinheiro. Vim só com o cartão de crédito porque nem sabia que teríamos tempos livres durante as etapas.
- Não tem problema. Eu compro e depois o senhor manda-me o dinheiro.
Sumiu. Talvez nem uma hora depois voltava com a minha mala! Tomei nota do seu nome e conta bancária, e depois de lhe agradecer, disse para com os meus botões: Isto só mesmo brasileiro é que faz! Obrigado mais uma vez, Ramoncito Ferreira Marques Júnior, nome de sabor castelhano, mas simpatia brasileira! Motorista do Almirante!
Na véspera do regresso ao Brasil fomos visitar um Parque Nacional, La Pinguinera Seno Otways, a cerca de 70 kms a NW de Punta Arenas. Trilhas bem definidas para os visitantes, das quais não podem sair para não perturbar a vida selvagem, e maravilhosa. Infelizmente o dia estava frio e chuvoso. Mas ver os pinguins, estar com eles ali mesmo ao lado, sem sequer se preocuparem a perder tempo a olhar para os visitantes, é uma graça. E creio que não há animal mais gracioso do que o pinguim com aquele seu ar de milionário arruinado, andar desengonçado, e casamento para toda a vida. Mesmo quando perde a parceira, “enviúva”, o pinguim não procura outra companheira! Nem vai para as boates atrás das gatas/os, não discute se o aborto é bom ou criminoso, não usa preservativo nem outros anti concepcionais! Mesmo estando arriscado a ser comido por uma foca ou uma orca, talvez fosse bom ser um pinguim! Porque não?
Os pinguins gostam de emigrar, se aventurar pelos mares a caminho de lugares mais quentes! Sobem pelas correntes frias, em parte do ano pela corrente das Malvinas que atinge a costa do Brasil, e pela de Benguela, pelo menos até ao sul de Angola.
Quem se lembra desta maravilha
Em, talvez, 1964, trabalhava eu em Angola, na Cuca, responsável comercial da Companhia que tinha duas fábricas de cervejas: Luanda e Nova Lisboa. Um belo dia o director da fábrica de Nova Lisboa, o meu querido amigo Alfredo Duarte Figueiredo, telefona-me: – Acabei de receber aqui um presente que te mandaram. – Para mim??? Eu não recebo presentes de ninguém! Quem mandou? – O nosso agente de Moçâmedes. – - - Um presente? O que é? – Um pinguim!
De facto receber um pinguim de presente, até àquela data eu não sabia de alguém a quem tal tivesse acontecido. Um pinguim!?!?
- Bem... guarda-o bem, vai-lhe dando uns peixes, que não tarda vou aí!
Passados poucos dias lá fui ver o “meu” presente. Tinha sido enviado numa grade de madeira. Assim que cheguei abri a tampa para ver bem o “presente” e logo fui acarinhado com uma bicada!
Resolvemos fazer, no terreno da fábrica, um pequeno lago, com uma cerca à volta, e lá deixar o bichinho que virou atracção! A notícia correu e passado um ano ou dois foram chegando mais presentes à fábrica: um leopardo, um leão, alguns antílopes e assim se criou um mini zoo!
Mas nós estávamos em La Pinguinera. Além dos simpáticos pinguins, tomando banho de mar, regressando da pesca, ou caminhando entre a praia e as suas tocas, algumas lebres, bonitas, grandes, passaram, também sem grande pressa, uma delas muito fotogénica deixando-se fotografar e seguindo depois o fotógrafo!
A região é uma espécie de tundra, mas a visita a parques naturais é sempre um “must”, e este está muito bem organizado, como aliás tudo quanto vimos no Chile.
A praça principal da cidade tem de um lado um belo edifício apalaçado, hoje monumento nacional, que foi mandado construir em 1890 por um emigrante português que ali chegara 30 anos antes. Marinheiro o típico colonizador português, segundo a história que dele conta, juntou imensa fortuna e construiu a sua bela mansão, onde hoje está um hotel de luxo, um bar demasiado fumegante, e um óptimo restaurante, muito bem decorado, onde se come também por preço aceitável, e onde a tal santoja estava óptima, mais ainda na companhia dos amigos e dum “Chardonnay 2005”! Huummm... No centro da praça uma bela estátua a Fernão de Magalhães – Fernando de Magallanes – que tem na base, além duma sereia, um índio, tudo em bronze. Dizem por lá que aqueles que apertarem o dedão do pé do índio, um dia voltarão. Está polido o tal dedão de tanto ser esfregado, e pode-se ver na foto.
 
 
Como é de calcular eu fui dos que não perdeu essa hipótese e esperança!
Até à próxima, na Antárctica!
 
Rio de Janeiro, 19 de Novembro de 2009
  Francisco Gomes de Amorim

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