Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

Aerodinâmica - 1

 

 
 
A época em que tudo aconteceu não é assim tão importante, podemos afirmar retrospectivamente. A temporalidade dos factos, o ângulo histórico, a distância, o desprendimento ou o envolvimento emocional, se arrastados à força para o interior do enredo seriam sempre fantoches pouco credíveis e nem serviriam para desculpar o sucedido. As testemunhas se arroladas não confirmariam os factos, nem se lembrariam de uma forma inequívoca. Perante um tribunal de média instância, não teriam nada a perder ou ganhar e não iriam partilhar a angústia daqueles que tomavam um partido ou reclamassem justiça ou sangue. Por isso o que iam dizendo foi registado por bondade ou condescendência, e até respeito, mas não para benefício da reconstituição das frases. Afinal tinham-se deslocado de distâncias consideráveis para prestar declarações. Tinham vindo de outros capítulos. Residiam noutros parágrafos e nalguns casos tinham emigrado para outros livros para escapar ao inquérito. O dito por uns era escutado com falsa atenção para ser descartado no momento seguinte, mas apenas os próprios tinham conhecimento do truque. O ambiente pesaroso fazia desconfiar dos participantes. Pairava no ar uma segunda natureza apreendida de forma tão perfeita que deixava de o ser. Era uma consciência selvagem, andando por aí à solta tentando convencer os outros da expiação. O bode convocado sumariamente para corroborar os factos, passava a ser uma cabra tosquiada, posta a nu, uma prostituta apalavrada vezes sem conta para ir ao encontro do cliente. Os outros relatores, igualmente hábeis no engano, poderiam até ser considerados simpáticos marginais. Tinham um ar composto mas havia uma certa sugestão de outra coisa qualquer. Não paravam de sorrir como se desejassem dissimular um outro estado sinistro. Uma contractura facial que incomodava. E iam ajuizando, dando bitates, especulando sobre a logística do sucedido dando resposta a perguntas não formuladas, mas isso não era importante para o caso e poderia ser ignorado. A única relação em vias de se agudizar era aquela entre os próprios visados, mas nunca tinham sido formalmente apresentados, para no instantâneo seguinte provavelmente se odiarem raivosamente. As partes interessadas não tinham tido a oportunidade para alcançar um estado irreversível que culminasse em insultos, na promessa de um duelo ou numa imediata troca de tiros. Os danos reais se medidos nunca poderiam ser indemnizados. E a coisa poderia ter ficado feia. Algo tão horrível como esperas e encomendas de porradas e escoriações. Se tudo isto acontecesse num anfiteatro repleto de críticos, teriam surgido comentários clássicos. Mais teria valido se tivessem ficado quietos.
 
Não porque queiramos desculpar os actos praticados, mas um conjunto de circunstâncias ditou o grau de exasperação. O único problema, enfrentado desta forma frouxa, relaciona-se com a ideia de circunstancialidade. A análise deste drama indica que a cadeia de eventos e o seu desfecho, não se deve a uma lista de condições imprescindíveis. Este bilhete, passado sub-repticiamente, funciona como um sério aviso para os perigos que enfrentamos. Assim que o ler, destrua-o de imediato.
 
(continua)
 
 John Wolf

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D