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A bem da Nação

burricadas 62

 

Much ado about nothinG. or NOT?
 
v        Começo por esclarecer que a vida sexual dos outros não me interessa absolutamente nada. Nem nas capas das revistas “cor-de-rosa” reparo.
v        Por outro lado, não deixam de me fazer alguma espécie situações como aquelas que (não) se vêem no centro de Luanda: raríssimas foram as vezes em que me cruzei com um parzinho a namorar.
v        Mas, confesso, toda esta polémica em torno do casamento entre duas pessoas do mesmo género (ah! língua portuguesa, como és rebuscada) não cessa de me surpreender. [Só o pudor me levou à redundância de juntar “duas” e “casamento”; reconheço, porém, que não tenho argumento que se aguente contra a poligamia de uns tantos adultos conscientes, capazes e apetentes]
v        Surpreende-me, primeiro, que tenham sido as vozes mais canoras contra o “casamento”, essa bafienta instituição burguesa, a virem propugnar agora (com invejável pertinácia, reconheço) pelo casamento homossexual.
v        Porque, uma de duas: (1) ou o casamento, enquanto instituição, já não está conforme os cânones da modernidade – e isso nada tem a ver, obviamente, com o género de cada um dos cônjuges; (2) ou está – e não haverá nenhuma razão para, no plano da ideologia, arrumar o casamento heterossexual no sótão dos trapos démodés.
v        Em boa verdade, deveria eu ter escrito “uma de três”. E a terceira possibilidade é justamente a mais rotunda incoerência no pensamento dos quadrantes que apareceram a advogar o casamento homossexual. Apenas isto: querem levar a deles avante, sem se dar sequer ao incómodo de honrar os adversários com argumentos, se não convincentes, pelo menos lógicos.
v        Uma vez que a convivência democrática assenta, também, na lógica dos argumentos trocados e no respeito mútuo entre todos os que nela participem, este “quero porque quero” deixa-me esclarecido sobre o que posso esperar de uns quantos dos meus concidadãos.
v        Surpreende-me, depois, que haja quem, nos dias de hoje, queira por força estar casado, quando nada obriga a tal. Ou seja, ao stress dos afectos junta-se, alegremente, a sujeição voluntária a um emaranhado de vínculos jurídicos que não é nada fácil desatar.
v        Ou talvez não me surpreenda, se o que se pretende é estender ao parceiro todas as regalias (nomeadamente, nos planos fiscal e assistencial) que o Estado Providência reservava, até agora, aos cônjuges heterossexuais. E, convenhamos, não é isso a igualdade perante a Lei?
v        Mas porquê, então, pôr como condição (a qual só poderá ser uma condição para ornamentar, que se presume sempre verificada – a menos que se regresse à presença de testemunhas independentes na câmara nupcial, ou à prova do lençol) a prática sexual? Não será isto, ainda, discriminar sob novas formas?
v        E fica no ar a pergunta incómoda: porque é que o Estado Providência tratava com tamanho desvelo o casamento heterossexual? Alguém cuidou de averiguar porquê?
v        E menos me surpreenderá se o que se quer é usar subtilmente a Lei para calar o escárnio com que a nossa cultura, cruel, sempre mimoseou a homossexualidade – apesar de esta não ser tão rara assim ao longo da História Pátria.
v        Com a devida vénia, penso que: (1) assumir livremente obrigações cujo cumprimento pode ser imposto por via judicial é coisa que só aos próprios deverá interessar; (2) acolher sob o manto protector do Estado Providência novas situações é matéria de contas e de governação, não de ideologia (e, ou me engano muito, ou mal se sentirão o acréscimo de despesa e a quebra de receita que tudo isto vai implicar).
v        Contudo, o que me surpreende deveras é que o problema de fundo continua ignorado, como se não existisse. E qual é esse problema?
v        É este, tem um sabor algo darwiniano e passa cada vez menos pelo casamento “de lei”: Como evitar o colapso demográfico? Como evitar que o número de indivíduos que nascem e crescem portugueses diminua progressivamente até à extinção?
v        Dito de outro modo: como é que a Nação (enquanto grupo social com uma língua e uma cultura próprias, e ainda capaz de exercer uns vestígios de soberania) vai perdurar por uns tempos mais?
v        Ou a geração actual, num alarde de egotismo extremo, não quer gerações vindouras, consumindo e desbaratando, hoje, num ambiente de fim de festa tudo o que foi sendo acumulado ao longo de quase 9 séculos?
v        Eis um problema político por excelência, que se prende com o modo como a comunidade se pensa e se organiza em Estado. Ou, numa expressão tão em voga, se auto-estima.
 
Janeiro de 2010
 
 A. Palhinha Machado
 

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