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A bem da Nação

ÉTICA LUSÓFONA E SENTIDO DE ESTADO – 3

 

 
3. … CHEGÀMOS À FILOSOFIA DO PODER
 
Uma filosofia em que o objectivo mais elevado é o poder e que resulta claramente de um espírito de permanente competição. Como cada vitória tenderá a elevar o nível dessa mesma competição, o final lógico de tal filosofia é o poder ilimitado e absoluto. Aqueles que buscam o poder podem não aceitar as regras éticas definidas pelos costumes, a tradição e, pelo contrário, adoptam outras normas e regem-se por outros critérios que os ajudam a obter o triunfo. Tentam mesmo convencer as outras pessoas de que são éticos no sentido do objectivo supremo por eles definido tentando conciliar o poder e o reconhecimento da moralidade.
 
Assim foi que se sentaram na cadeira do poder muitos daqueles para quem a ética dos costumes virtuosos, das leis naturais, da Fé, do voluntarismo e da disciplina é palavra vã. Daí ao poder absoluto, à ausência de regras consensualmente construídas, à ausência de Direito e à dissolução do Estado de Direito, vulgo o fascismo, não dista muito ou não dista mesmo nada. Ignorados os princípios que definem o bem-comum, instala-se o “salve-se quem puder”, instala-se a razão da força em oposição à força da razão.
 
Globalizado o império da competição e sacralizados os critérios da competitividade, não mais resta qualquer esperança de sobrevivência aos que não sejam campeões. E a alternativa para os não campeões – em que o 2º classificado mais não é do que o 1º vencido – é unicamente a de serem servos. Servos mais ou menos mitigados, mais ou menos engravatados, numa gaiola mais ou menos dourada mas servos e apenas servos.
 
A aculturação das populações a um modelo standard e globalizado corta o acesso às raízes culturais mais endógenas e isso anula a ética étnica, essência da cultura mais endógena dos povos. A etnologia é hoje objecto morto de Museu bolorento e escassamente visitado. Em simultâneo, quando esse desenraizamento conduz as pessoas para o mundo da globalização competitiva, então está-se a enviar populações inteiras para um mundo do «salve-se quem puder» em que tudo vale, incluindo tirar olhos. Se a isto somarmos a atracção que as cidades exercem sobre as populações rurais flageladas pelas guerras, pela inviabilização da ruralidade e pela apologia do urbanismo, compreenderemos por completo a selva urbana em que Luanda se transformou. O mesmo se diga do Rio de Janeiro, de Lisboa, Maputo, etc. quer por causa de guerras bélicas quer por causa de outros conflitos de género menos castrense mas igualmente punitivas das sociedades que se sentem cada vez mais desamparadas, desenraizadas e entregues a um mundo sem rei nem roque. E nem todas as vítimas têm que ter a pele escura, ao estilo africano.
 
 
E como diz Gilles Lipovetsky no seu livro “O crepúsculo do dever”, (...) A sociedade post-moderna ou post-moralista designa a época em que o dever se adocicou e tornou anémico, em que a ideia do sacrifício pessoal se ilegitimou socialmente, em que a moral já não exige que as pessoas se devotem a uma causa superior, em que os direitos subjectivos dominam os mandamentos. Na sociedade post-dever, o mal transformou-se em espectáculo, o ideal pouco engrandecido. Se perdura a crítica do vício, o heroísmo do bem enfraquece. Os valores que reconhecemos são mais tidos como negativos do que como positivos. Por trás de uma falsa revitalização ética, triunfa uma moral indolor, último estádio da cultura individualista democrática. (...)
 
Assim, neutralizadas tanto a moral como a ética, promoveu-se a competição. Tudo vale para subir na ostentação. E subir JÁ! A globalização fez isso aos países chamando-lhe competitividade. O que interessa é alcançar os objectivos. Como? Isso é o que menos interessa desde que eles sejam alcançados e, também nesta dimensão macro, JÁ!
 
Aqui chegados, urge perguntar que solução temos à nossa frente. Adoptarmos a clausura monástica à espera que o perigo passe? Entregarmo-nos, à moda muçulmana, nas mãos do fatalismo indiscutível? Preconizarmos um regresso às origens étnicas, folclóricas?
 
Não me convencem atitudes de medo nem de recuo e não me parece que devamos cegamente obedecer à mão invisível ou à tutela anónima de um qualquer big brother.
 
Pelo contrário, proponho que…
 
(continua)
 
Bragança, 2 de Outubro de 2008 – VII Encontro da Lusofonia
 Henrique Salles da Fonseca

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