MEMÓRIAS DO PORTUGAL ATLÂNTICO
D. João V
(1689 - 1750)
Em meados do século XVIII, desejava D. Luís da Cunha, então Ministro de Portugal em Paris, que Alexandre de Gusmão, secretário privado de El-Rei D. João V, obtivesse a anuência real para o seu projecto de reunir em Lisboa a Conferência da Paz que poria fim à Guerra da Sucessão de Áustria – na qual intervinham a França e a Prússia, de um lado e, do outro, a Áustria e a Inglaterra - o que permitiria atribuir a D. João V o papel de árbitro da paz – papel que, se assumido, dilataria a visibilidade europeia da coroa portuguesa e consequentemente a sua ponderabilidade no concerto das nações.
D. Luís da Cunha
(1662 - 1749)
Gusmão cuidou do assunto e deu conta das suas diligências em carta a D. Luís reproduzida no livro "Inéditos de Gusmão", editado por Tipografia Guimarães, no Porto, em 1841, donde se transcreve.
Exmº Sr.
“Ainda que eu já sabia, quando recebi a carta de V. Ex.ª, que não havia de vencer o negócio em que V. Ex.ª se empenhou, com tudo por obedecer e servir V. Ex.ª, falei a S. Majestade, e aos ministros actuais do Governo.
Primeiramente o Cardeal da Mota ([1]) E me respondeu: - que a proposição de V.x.ª era inadmissível, em razão de poder resultar della ficar El-Rei obrigado ao cumprimento do tratado; o que não era conveniente. Em quanto fallamos na matéria se entreteve o Secretário de Estado, seu Irmão, na mesma casa em alporcar uns craveiros; que até isto fasem ali fora do lugar, e tempo próprio.
Procurei falar a S. Reverendíssima mais de três veses primeiro que me ouvisse; e o achei contando a aparição de Sancho a seu amo, que traz o padre Causino na sua Corte Santa; cuja historia ouvião com grande atenção o Duque de Lafões, o Marquez de Valença, Fernão Martins Freire, e outros. Respondeu-me: Que Deus nos tinha conservado em paz, e que V. Ex.ª queria metter-nos em arengas; o que era tentar a Deus.
Finalmente, falei a El-Rei [seja por amor de Deus]. Estava perguntando ao Prior da Freguesia o quanto rendiam as esmolas das Almas, e pelas Missas que se disião por elas! Disse-me que a proposição de V. Ex.ª era muito própria das máximas Francesas com as quais V. Ex.ª se tinha connaturalisado; e que não prosseguisse mais.
Se V. Ex.ª caísse na materialidade [do que está muito livre] de querer instituir algumas Irmandades, e me mandasse falar nellas, haviamos de conseguir o empenho e ainda merecer-lhes alguns prémios”
A pessoa de V. Ex.ª ª guarde Deus como desejo, para defensa e crédito de Portugal.
Lisboa a 2 de Fevereiro de 1747.![Alexandre de Gusmão, em óleo de Oswaldo Teixeira, acervo do Museu Paulista, em São Paulo]()

Alexandre de Gusmão
(1695 - 1753)
João da Mota e Silva
Cardeal da Mota
(1685 - 1747)
"O tempora, o mores", diria Cícero. Como as coisas mudam! Pouco mais de dois séculos e meio depois, reuniam-se em Lisboa os chefes de Governo europeus para ratificarem o instrumento diplomático que estabelece a nova Constituição Europeia e leva o nome de Tratado de Lisboa. Os sonhos e desejos de D. Luís da Cunha (discretamente partilhados por Gusmão) realizaram-se mas para isso foi preciso primeiro acabar com "as arengas" europeias. E isso levou o seu tempo.
Estoril, 5 de Dezembro de 2009
