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A bem da Nação

MENINA E MOÇA!

 

Luanda

 

Nada de confusões com o fado de Coimbra! Estamos a falar de Luanda. Já não era tão menina, mas ainda era moça a Luanda dos anos cinquenta! Menos de dez por cento dos habitantes que terá hoje!

Diz o fado que “Coimbra...  era o rouxinol de Bernardim...”. Era! E Luanda, no Bairro que se chamou da CAOP, que ainda hoje tem uma rua com o nome do nosso grande poeta e escritor do século XVI? Nosso, por todas as razões e porque era em português que se expressava, tal como o angolano de hoje.

“Menina e Moça” é o nome do poema mais conhecido de Bernardim que foi publicado com o título “Saudades”!

Que título mais apropriado para quem lembra aquela terra bonita e, pior ainda para quem morou naquela rua!

Por isso, peço desculpa à grande maioria dos leitores deste blog, saudosos de Angola, mas este texto tem que ser dedicado aos vizinhos. Aos daquela rua e duma outra, cuja porta de entrada não ficava a mais de 20 metros da nossa! A Ana e o António Ravara Belo e a Madalena e António Nuno Melícias! Todos, jovens, claro, viram filhas e filhos ali nascerem!

Na foto abaixo vê-se a rua e as três casas assinaladas com o nome de cada família! Distância máxima de uma a outra... sessenta metros!

 

Como era bonita e simples aquela vida! E lembram tantas histórias que ali se passaram. Aqui vão algumas. Com os vizinhos.

Todos fazíamos o nosso café, depois das refeições, com o velho e melhor sistema do mundo: a “máquina do balão e da tulipa”. Vai aqui uma foto para a lembrar a quem conheceu e mostrar a quem não conhece. Balão e tulipa de vidro, volta e meia, por muito cuidado que se tivesse... lá quebrava. Ou a parte de cima, ou de baixo. E como só se encontravam acessórios em Portugal, e era uma tarefa delicada pedir alguém para trazer de Lisboa uma peça assim frágil, a solução era recorrer ao vizinho. E lá vai o criadito. “Vai lá pedir à dona Ana se pode emprestar o balão para quatro xícaras”! Ou então “a dona Madalena manda pedir emprestada a tulipa! Outras vezes facilitava-se o assunto ou indo tomar o café com os vizinhos ou levando até a “máquina” para o preparar em casa dos outros. E andavam os “balões” e as “tulipas” passeando, horas mortas pelo calor do meio dia ou pela suposta frescura da noite, pela Bernardim Ribeiro!

 

A melhor maneira de se preparar o melhor café!

 

Mesmo em frente da casa onde nós, os Amorim, morávamos, foi instalado um poste de iluminação pública. Óptimo, progresso, mais segurança, apesar de normalmente as portas jamais se fecharem à chave, e durante o dia e até à hora de ir para a cama ficavam bem abertas para ventilar. Ar condicionado não existia!

O poste era alto e a lâmpada potente. Acontece que o ângulo do reflector é que estava errado e a luz, forte, acertava em cheio na minha cara quando me deitava! Ensaiou-se um varal com algo pendurado, mas o resultado era insignificante, e a aversão àquela lâmpada foi crescendo, crescendo... até que uma bela noite, espingardinha de pressão de ar, sem que alguém visse ou ouvisse... puff... lá se foi a lâmpada! E nessas noites, bem escurinhas, uma teórica aragem permitindo não suar muito, e os menos de trinta anos de idade, dormia-se bem, sono profundo e tranquilo.

A nossa casa, o "velho" Simca Aronde, e... quem sabe se o lençol não tentava esconder a agressiva luz!
 

Passados uns dias vinha o serviço de manutenção da Câmara Municipal e colocava lâmpada nova. Recomeçava a má disposição a crescer e não tardava saía mais um tirinho e voltava a tranquila escuridão.

Não havia como torcer o reflector para apontar a luz para baixo... a solução foi ir atirando ao alvo! Os homens que trocavam a lâmpada nunca entenderam o que se passava porque era a única que aparecia quebrada em toda aquela rua!

Coisas da juventude e de Bernardim!

Sobretudo aos sábados à noite, porque naquele tempo a semana “inglesa”, de trabalho, só terminava ao meio dia de sábado, havia em casa de uns ou de outros, mesmo em muitas outras ruas, reuniões de parceiros para jogar cartas. Uma das vezes foi em casa dos Belo, à noite, fresquinho bom, na varanda. O quarto parceiro o Xico d’Água, Francisco Rebelo de Andrade, nosso primeiro medalhista Olímpico na vela, 1952 em Helsínquia! Ele, com os homens, para a mesa de Bridge e a Gracinha com as senhoras para a Canasta.

Rua calma, noite tranquila, ninguém fala muito alto para não perturbar a grande concentração que o jogo exigia – jogava-se a dinheiro, mas pouco mais que tostões – iam-se bebendo umas Cucas, e o tempo corria com os filhos a crescer.

De repente surge da única rua que ali desaguava um garoto experimentando uma motorizada cujo escapamento fazia um barulho horrível a violentar a tranquilidade do bairro. Abrandava na curva e logo a seguir aquela maquineta infernal seguia rua fora deixando todos incomodados. Não tardava muito voltava o “corredor” e repetia a cena, e assim mais algumas vezes deixando todos com os nervos estimulados. À quarta ou quinta volta o artista, possivelmente mais confiado no treino que fazia, entrou na curva mais depressa, derrapa, cai da motoreta que foi bater num muro passando ao lado do meu carro, e fica esparramado no chão. Todos largámos as cartas e corremos em socorro daquele chato que nos estava a perturbar.

O cara no chão ainda, perguntámos-lhe: “Você está ferido? Machucado"? O garotão ainda meio zonzo sentou-se, conferiu a própria anatomia e respondeu: “Não! Felizmente não foi nada. Estou bem”! Nessa altura o Xico d’Água, com vontade de lhe torcer o pescoço, dentes cerrados: “QUE  PEEENA!”

O “corredor” levantou-se, pegou na motoca toda torcida e foi embora a pé. Nós, depois de termos rido bastante, voltámos ainda um pouco ao nosso joguinho até a dona da casa trazer uns bolinhos e mais umas bebidas, quando a reunião terminava.

Naquele tempo as mamãs tinham os filhos em casa. Estava para nascer a Helena, nossa filha, já a número quatro, e a Avó Zé tinha ido de Lisboa para estar presente ao acontecimento. Esta Senhora tinha tal fobia de cobras que só de ouvir esta palavra já ficava a levantar os pés do chão. Grande parte da cidade não tinha ainda saneamento, esgotos, mas todas as casas tinham fossas que sempre funcionaram perfeitamente. Final de Março, tempo de chuva grossa, uma noite caiu um toró respeitável, e de manhã, nas traseiras da casa as águas tinham aberto uma “cratera” talvez com um metro de diâmetro. Vovó Zé, logo de manhã quis ver os estragos! Naquele momento saía do buraco uma distraída cobra a quem também apeteceu um pouco do belo sol da manhã! Quando a minha Mãe viu aquele horrível monstro apanhou um susto de tal ordem que correu para dentro de casa, subiu em lapsos de segundos para o andar dos quartos e foi pôr-se em cima duma cama com as saias levantadas! Foi um problema convencê-la a descer novamente, mesmo com a garantia dada pelo heróico filho de que já tinha matado a fera e levado os despojos para longe de casa!

Poucos dias depois as dores do parto chegaram. Chama-se a parteira da Cuca, a grande parteira Adriana, eficientíssima, bem disposta e alegre, e no dia cinco de Abril a Helena viu a luz do dia!

Pela mesma época as outras duas casas foram igualmente presenteadas com duas garotinhas, lindas como seria de esperar: a Ana Melícias e a Leonor Belo!

Alegria, muitos cuidados de todos os amigos de Luanda, sobretudo dos geograficamente mais chegados, incansáveis a querer ajudar!

Depois eu conto mais enquanto não vamos para a rua Cabral Moncada!

Rio de Janeiro, 13 de Novembro de 2009

  Francisco Gomes de Amorim

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