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A bem da Nação

“MINHA SENHORA”, “EXCELENTÍSSIMO SENHOR”

 

Sua Excelência

 
Conheço pessoas  de muita gravidade quando olham as outras pessoas ou se lhes dirigem. Geralmente estas sentem~se inferiorizadas, supondo terem incorrido nalgum erro grave que originou a gravidade do olhar daquelas. Era o Conselheiro Acácio que também assim procedia, embora se mostrasse afável e respeitador com aqueles que pertenciam à sua esfera sentimental e social. Descobriu-se mais tarde que tinha aconchegos com a criada, que mal quadravam com a sua personalidade altiva e trabalhadamente eloquente. Mas se os próprios deuses se fartam de ter fraquezas, e nesse campo,  por estranho que pareça, mais até que os próprios humanos e com muitos mais recursos, como não admitir as fraquezas do Conselheiro Acácio e dos seus pequenos recursos? Mas intimidam, não há dúvida, quando lançam o seu olhar sobranceiro e vasto sobre os tímidos.
 
Supor-se-ia que só os homens de idade, tendo atingido determinada craveira no plano intelectual, ou social, ou financeiro, se podem permitir tais poses, mas tive há pouco a confirmação de que não são só os de idade.
 
Foi o caso que estava eu comprando uma cautela a um paralítico, para que o mérito da boa acção me alcançasse os favores divinos numa substancial recompensa, quando uma jovem priminha, acompanhada do noivo jovem, me interrompeu nas minhas caridades e mo apresentou graciosamente. Estendi uma mão afável num “muito prazer” afectuoso, mas imediatamente me imobilizei numa expressão onde o riso esmorecia, ante o “minha senhora” polido, distante, circunspecto, do noivo. Quase me senti na obrigação de retribuir com uma vénia funda, mas lembrei-me de que me faltava o vestido de balão do tempo das vénias fundas e disfarcei com pormenores de tempo e de saúde. Voltei a ouvir à despedida o mesmo “minha senhora” esmerado que ainda agora repito de vez em quando a meia voz e a meia vénia, para saborear na totalidade o prazer dela.
 
Mas não foi a única vez que a ouvi, não decerto. É uma expressão natural na boca dos superiores, quando cruzam connosco curvando lateralmente a cabeça para não olharem de frente, durante a saudação régia “Minha Senhora...” É claro que o possessivo neste caso é perfeitamente falso, pois ao contrário do que aparenta, não exprime aproximação, mas um afastamento intimidante.
 
Para os homens não há possessivos. Às vezes o “Senhor” é precedido de um “Excelentíssimo” tão irónico quanto o “Minha”. Outras vezes emprega-se “cavalheiro”, “tout court”.
 
Temos pois que, para marcar a educação refinada, ou o desprezo também refinado dos superiores para os inferiores, aqueles usam delicadas expressões do tempo das fidalguias, enfileirando assim na classe nobre que, segundo a História, a Revolução Francesa veio eliminar, mas que permanece ainda nestas coisas elegantes do trato social.
 
Não, não se trata, de nenhuma maneira, de pretender que a grosseria venha impor-se aos costumes... ainda mais. O “minha senhora” natural e simples não é para aqui chamado. Apenas aponto a afectação, a falsa elegância e a falsa superioridade.
 
Porque nem sempre os “punhos de renda” encobrem umas mãos bem cuidadas. Os cavalheiros primorosamente bem vestidos e bem falantes que seduziram as “Preciosas Ridículas”, não passavam, afinal, de criados hábeis, desempenhando junto delas, por ordem dos amos repudiados e vingadores, um falso papel de pretendentes, para as castigar da sua presunção, como as desoladas Magdelon e Cathos viriam a descobrir um pouco tarde. 
 
Berta Brás

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