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A bem da Nação

À ESPERA DE MÚSICA

 

OS REBELDES
 
Charlotte Corday depois de matar Marat, pintura de Paul Jacques Aimé Baudry
 
 
                                                            Eu amo a luta
E abrigo a paz no coração.
Meu credo é feito d’alma
E feito de perdão.
Vivo de bênçãos,
Como a flor vive da luz,
Pregando na montanha,
Assim como Jesus,
As delícias do amor
E a paz universal.
Baionetas para quê?
Se a baioneta é igual
À faca do assassino!
Em vez d’homens de guerra,
Camponeses lavrando
E semeando a terra…
Que eu não amo o que mata
Ao meio duma rua,
Mas o que cria um filho
Ou guia uma charrua.
E embora admire e louve
Essa mulher que foi
Ao meio de Paris
Executar um herói,
Muito mais louvo e quero
Essa mulher d’aldeia
Que vai à fonte,
Acende o lume
E faz a ceia
E abre o peito
Dando a um filho de mamar.
Corday1] é uma tormenta,
A camponesa um lar.
Criar – eis o preceito;
Amar – eis o dever.
O nosso peito abri-lo
A todo o que o quiser:
Aos que são cegos, luz;
Aos que têm fome, pão.
Por isso é que eu abrigo
A paz no coração.
 
 Tomás da Fonseca (1877-1968)
in Os Deserdados, 1909
 


[1] -Marie-Anne Charlotte Corday d'Armont (Normandia, França, 27 de Julho de 1768 - Paris, França, 17 de Julho de 1793) entrou para a história ao assassinar um dos mais importantes defensores da política do Terror (Jean-Paul Marat) instaurada em França pelos Jacobinos.

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