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A bem da Nação

Foi uma pena

 

 
Itabira
Fonte: www.pousadadascores.cm.br
 
 
A ocupação do Brasil Central, mais exactamente do Triangulo Mineiro, ocorreu pela visão política de Pombal, que viu nela a maneira de integrar os grandes espaços “vazios” (dominados pelos índios refractários àculturado conquistador) ao resto do país “civilizado”.
 
Depois de muitas lutas, extermínios, expulsões, dominações, doações e contravenções, o oeste das Minas foi tomado pelos migrantes de outras áreas auríferas, já esgotadas, que vinham em busca de terras para criação de gado. Eram homens ambiciosos e aventureiros que traziam amigos e familiares para povoar as sesmarias que a Coroa doava a quem as fizesse desbravar e produzir. Assim é que surgiu com o tempo uma nova sociedade rural auto-suficiente, longe do poder central, mais ou menos independente, politicamente hierarquizada, baseada no peso dos latifúndios dos coronéis (chefes políticos da comunidade, geralmente fazendeiros com grandes extensões de terra, com muitos agregados e escravos que, submissos e dependentes, lhes garantiam poder político e forte influencia na vida local). 
 
As fazendas das ricas famílias daquelas épocas  (sécs. XVIII, XIX, inícios de XX) eram verdadeiras mini-cidades. Possuíam uma sede robusta, bonita e confortável,  onde reinava o fazendeiro. E ao redor, espalhadas em grandes áreas cultivadas e de pastoreio, as modestíssimas moradias dos trabalhadores da propriedade.
 
No interior das Minas Gerais,  há uns vinte anos atrás, tive a oportunidade de ver, no município de Conquista, uma fazenda antiga, onde havia uma pequena estação ferroviária que passava  dentro dos limites da propriedade. Próxima à sede (casa principal) havia barbearia, botica, terreiro (eira) para secar o café, casas para os agregados, armazéns e capela.
 
 Contam os mais velhos do lugar que no  tempo dos seus avós a casa principal era uma construção que apresentava um porão onde ficavam os escravos.   Periodicamente o padre ia à fazenda rezar a missa, dar a confissão, e às vezes fazer casamentos e baptizados. Pelo trem ou a cavalo, chegavam visitas, convidados e as novidades. Esses eventos eram motivo para grandes festas. As mulheres se juntavam para fazer queijos e quitandas (bolos, biscoitos, roscas), doces de leite e de frutas em calda.  Os licores caseiros de jabuticaba e jenipapo eram a especialidade da casa.
Todos eram convidados, desde as autoridades até os agregados. Era não só uma forma de convívio, como também uma demonstração de prestígio.
                                                                      
Na cidade ou na fazenda para erguer os casarões eram contratados mestres-de-obras portugueses ou italianos, os mais qualificados. Os materiais vinham do próprio local (pedra, cimento, madeira) e até mesmo do exterior, como mármores de Carrara e artísticas barras de ferro da Bélgica para embelezar as varandas e fachadas.  O estilo arquitectónico reportava às antigas construções  portuguesas. Mas a distribuição dos cómodos respeitava o uso e os costumes dos seus moradores.
 
Numa antiga casa da fazenda, ao se entrar na ampla sala de estar, ventilada por altas janelas, via-se no meio do aposento, assoalhado por largas tábuas polidas, um jogo de cadeiras em palhinha entorno de uma mesa pequena.  Encostada a um canto, uma bonita cristaleira com portas de vidro facetado (bisotê), como uma jóia, exibia orgulhosa uma licoreira, copos de cristal e delicadas peças de porcelana chinesa.   Candelabros de alabastro completavam a decoração do ambiente. Ao lado, uma sala de refeições com aparador, encimado por uma rosada pedra de mármore, uma comprida mesa com muitas cadeiras, enfeitada  por um “caminho de croché”.   Os quartos se interligavam, principalmente os das meninas com os dos pais. Maneira de estar com as jovens sob controlo. O mobiliário constava de camas altas, pesadas caixas ou baús, onde guardavam as roupas de cama. Penteadeira com espelho e cadeirinha, guarda-roupa (guarda-fatos), cómoda e sapateira. Junto à cama uma mesinha de cabeceira,  com espaço tampado para o penico (bacio).
 
Na cozinha, a área mais concorrida da casa onde eram preparadas as refeições do dia a dia,   as fofocas ferviam entre as mucamas e as sinhazinhas. O fogão era à lenha com forno e serpentina (tubulação em ferro fundido ou em cobre que levava água quente para o contíguo banheiro). Debaixo da janela uma pia  feita em pó de mármore. No centro do ambiente uma utilitária mesa ladeada por dois compridos bancos de igreja. Em um canto da parede, uma porta estreita se  abria para a despensa, sempre fartamente abastecida. Queijos curados, vidros com pimentas curtidas.   Farinhas de milho e de mandioca mansa, sal, açúcar de cana, mel, arroz, feijão, cachaça, frutas em compota, azeite português, latões com de pães de queijo e quitandas.  Biscoitos de polvilho (farinha muito fina apurada pela decantação da mandioca ralada), vasilhas com carnes "cheias" (recheadas com linguiça, miúdos ou outras carnes moídas), previamente temperadas em vinha d´alhos e fritas, mergulhadas na banha.  Era uma fartura que enchia de orgulho a dona da casa.  As gamelas, cuias, bacias de ágata e tachos de cobre, caçarolas, panelas e chaleiras de ferro,   nas prateleiras ou penduradas na parede, esperavam a hora de serem usadas.
 
Em baixo da escadaria da porta da cozinha, as águas do rego eram desviadas para tanques que abasteciam a casa. No alpendre, o cão e o gato dormitavam sob o mormaço da tarde.  
 
No grande quintal uma variedade de arvores frutíferas atraía as abelhas e os ociosos com seus tentadores cheiros de fruta madura. Bananeiras, jabuticabeiras, pés de mexerica, cajás-manga, vários tipos de laranja, limão China e Siciliano,  manga Carlo, Sabina, Espada, Bourbon, Família.  Araçás, cajus, seriguelas e goiabas chegavam todo o ano, cada qual no seu tempo.
 
Protegida por uma cerca, longe das galinhas, patos e gansos, a horta bem tratada abastecia a cozinha de couves, salsinha, cebolinha, hortelã, abobrinhas d’água, cenouras, roxas beterrabas, almeirão, alface, taioba, moranga, cará, batata-doce, mandioca, quiabo, milho, cambuquira, tomate, jiló, cebolas e alhos.  No chiqueiro os porcos engordavam, garantiam a banha o ano inteiro.  Para o fazendeiro a atenção estava nas plantações e nos pastos, de onde vinha o dinheiro que lhe assegurava o status.
 
Com as solicitações do mundo moderno e o desenvolvimento das cidades, aos poucos os fazendeiros e suas famílias deixaram o campo e foram morar na cidade. Foi uma pena!
 
 
 Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 21/10/09

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