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A bem da Nação

TEXTO ANTIGO

Do livro “Prosas Alegres e Não”, publicado em 1973, pediu-me Henrique Salles da Fonseca o texto que segue, achando-o ainda actual.

Não é a minha opinião e sei que arrisco ser criticada, pelo sediço da questionação pedagógica. Além de que o livro que se lia a ocultas nas aulas foi substituído pelo telemóvel.
 Texto escrito no início dos anos setenta, em África, já nessa altura polémico, mas corajoso, ao expender teorias – de solução – mais inaceitáveis, naturalmente, hoje, em que a sociedade se encontra moldada segundo os parâmetros da igualdade e do bem-estar, que considera a escola não um lugar de valores cívicos e culturais, mas um jardim de infância permanente.  
Trata-se, pois, de uma curiosidade de museu, como “aviso à navegação” que não impediu o naufrágio do nosso ensino estilhaçado.
 
«Liceu Salazar», Lourenço Marques
 
«OH! AS CRIANÇAS!
Muito se tem escrito sobre métodos de orientação pedagógica, e geralmente exprobrando os antigos processos educacionais de castigos físicos mais ou menos violentos. Como reacção contra esse mito “pai ou professor fera” – e dizemos mito pois não acreditamos na realidade de tal ferocidade, salvo as excepções de ontem como de hoje, como sempre confirmativas da regra – surgiu o mito “criança vítima”, o que se tornou sinónimo de “criança a quem tudo é permitido”.
Quem lida de perto com a massa estudantil tem constantes ocasiões de observar a falta de compostura de raparigas e rapazes – a par da correspondente falta de nível intelectual.
O mascar chewing-gum é tão frequente que os próprios alunos da noite se não coíbem de o fazer – na convicção de que tudo se lhes permite, pois possuem o alto mérito de perder as suas noites frequentando aulas, após terem perdido o dia ganhando a vida nos seus empregos. Os professores deverão reconhecer o extraordinário esforço por eles despendido, e por consequência aceitar-lhes essas particularidades.
Também as conversas ruidosas se estenderam aos alunos adultos da noite, tantas vezes mais mal comportados que os de dia, a quem os castigos disciplinares controlam um pouco mais.
Outro processo de distracção acintosa é o do entretenimento nas aulas em leitura amena de alguma novela sentimental – possivelmente único sítio onde gastam o tempo em leituras dessas, talvez mais para chamar a atenção para a intelectualidade demonstrada nessa concentração espiritual do que por real interesse cultural. E quando o professor explica qualquer assunto, acompanhado com exemplos transcritos no quadro, é frequente o aluno cruzar os braços em atitude inteligentemente superior, de quem reconhece a inutilidade da lição ministrada e não precisa, por isso, de enfadar-se copiando notas.
As mais das vezes o professor abstém-se de utilizar, com os alunos da noite, os processos disciplinares usados com os de dia, limitando-se a uma descompostura, aliás de nenhum efeito sobre o aluno já adulto que assim se comporta deselegantemente, decerto por falta dos estímulos educacionais da infância.
O mesmo não sucede com o aluno de dia, a quem o professor considera como filho e, como tal, o repreende ou castiga, num interesse formativo não só do seu carácter como do seu espírito.
O recurso às faltas disciplinares não é, as mais das vezes, suficiente, pois as raparigas e os rapazes, assim expulsos da sala, saem com o mesmo sorriso desdenhoso com que se mantiveram durante a intervenção do professor.
Mas qualquer puxão de orelhas ou bofetada oportuna – e quantas vezes resultante do enervamento provocado pela falta de educação estudantil – hoje em dia levanta protestos dos próprios progenitores, armados de arrogante autoridade, intervindo mesmo superiormente, esquecidos de que o professor, ao punir o seu filho, tal como ele próprio, como pai, o faz, age no interesse fundamental da criança, cujo carácter e espírito estão em formação.
Perde mais, supomos, o aluno que apanhou a falta disciplinar e por isso deixou de assistir a uma lição, do que aquele a quem um castigo corporal não excessivo mas a propósito, envergonhou talvez – por vezes há casos perdidos.
Mas o papá zeloso não pensa em tal. Conhece, por ouvir dizer, dos “novos métodos pedagógicos” que baniram os puxões de orelhas ou as bofetadas oportunas do ensino secundário, e se o professor se atreve a utilizar justamente o processo, revolve terra, mar e céu, movendo as suas influências e mostrando as suas importâncias para o professor do filhinho receber também o respectivo puxão de orelhas.
Geralmente os filhos desses pais desde sempre se habituaram a desdenhar dos professores, porque sempre ouviram em casa criticá-los desprezativamente. Mas pobres desses pais que incutem nos filhos a ideia de desrespeito pelos seus mestres! Não tardarão a receber o reverso da medalha, pois os seus “rebentos” os não pouparão a eles também.
Porque o aluno que não respeita os seus professores não tem educação. Responde malcriadamente em casa, fuma desenvoltamente e frequenta os cafés, senta-se incorrectamente na carteira, tem risinhos provocantemente trocistas ou adopta uma seriedade manhosa, só prejudicando, em suma, os colegas que o aceitam e escutam.
Quanto mais belo e eficiente seria o tal pai inculcar antes no espírito do seu filho que o professor é um amigo que cumpre respeitar, pois tem os seus próprios problemas e canseiras familiares e cuja missão, difícil e extraordinariamente cansativa, explica tantas vezes uma menor paciência para aturar dislates ou ruídos, e, enfim, bom ou mau, mais ou menos cumpridor, vai contribuindo para a sua formação espiritual e moral.
“Professores feras” os que castigam? Oh! as crianças dos tempos actuais que, com excepções certamente, tanto merecem ser castigadas! »
Berta Brás
 

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