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A bem da Nação

O PREÇO DA MIOPÍA

 

“This is the first pass by an economist who, until recently, thought of financial intermediation as an issue of relatively little importance to economic fluctuations…” (O. Blanchard, FMI, Abril de 2009)
 
Há a ideia de que, se não fosse a ganância de uns quantos, nada disto teria acontecido. Erro grave, que Blanchard, um “nobelizável”, veio, há dias, corrigir. Ganâncias, incompetências várias, negligências mil - de tudo isso se fez a crise. Mas foram os preconceitos de longa data sobre o dinheiro, e sobre o modo como o dinheiro vai moldando as sociedades modernas, que criaram o clima propício para que ela se desencadeasse: uns, pensavam que bastava pôr o dinheiro barato para que os dias de abundância chegassem – e não faziam mais que premiar o endividamento; outros, imaginavam que o risco desaparecia pelo só simples facto de mudar de mãos – sem perceberem que, afinal, eram as regras contabilísticas que falhavam redondamente; outros ainda fingiam não ver como o risco se infiltrava nos sistemas de pagamentos – convictos de que a palavra “Banco” bastava para esconjurar a sombra da insolvência.
O dinheiro que hoje faz mover a economia real é, em larguíssima medida, passivo dos Bancos Comerciais. E estes, ao “exportarem” para a economia real, por meio de empréstimos, o dinheiro que criam, de lá “importam” riscos vários que se vão acumulando no interior do sistema bancário até desencadearem, de quando em vez, perdas enormes - perdas tais que os seus capitais próprios nem sempre comportam. Ao sobre-endividamento de Empresas e Famílias corresponde invariavelmente o excessivo endividamento dos Bancos – em particular, junto de outros Bancos (estes, quantas vezes, Bancos estrangeiros).
Não surpreende, pois, que uns não possam continuar a emprestar, por não terem capitais próprios que aguentem mais risco; que outros, ainda com folga, se reservem para as boas oportunidades que as crises sempre proporcionam; e que uns tantos, à beira do colapso, vendam ao desbarato na ânsia de sobreviver. E quem, do outro lado do balcão, esteja endividado, terá de ir pensando em como pagar o que deve, antes de recomeçar a pedir novos empréstimos.
Nesta conjuntura em que os passivos dos Bancos (et pour cause, o dinheiro em circulação) se contraem a olhos vistos, esperar que mais empréstimos obrem o prodígio de relançar a actividade económica não parece ser sinal de sensatez. Tanto mais que, hoje em dia, muito do emprego (na construção civil, na indústria automóvel, na electrónica, no turismo) depende, quase por inteiro, do contínuo endividamento de consumidores finais que hoje andam às voltas para pagar aquilo que devem. Tudo o que falta é: reforçar os capitais próprios dos Bancos - mas com critério, para não dar alento a Bancos zombies; sageza na política económica, para reduzir o risco latente na esfera real da economia; e paciência – porque estas coisas levam o seu tempo.
 
Por cá, a crise apanhou-nos a todos (Estado, Bancos, Empresas e Famílias) cheios de dívidas. Bem se pode dizer que, com o anúncio da entrada na UEM, mergulhámos alegremente num mar de dívidas, com os Bancos a endividarem-se sem rebuço (junto de uns, poucos, Bancos estrangeiros) para lutarem por maior quinhão no modesto mercado interno. Ser-se apanhado por um crise internacional causada pelo sobre-endividamento quando já se está endividado para lá do razoável não pode ter bom prognóstico. Até porque reagir à crise: passa pela mobilidade geográfica - mas aí está a lei das rendas a tolher-nos; exige empresas financeiramente sãs - mas o regime fiscal empurra-as para o endividamento; precisa de soluções que dêem pronto reaproveitamento aos patrimónios das empresas inviáveis - mas a lei da insolvência parece pensada para que fiquem ao Deus-dará. E não há como reagir à crise sem Bancos bem capitalizados (um caminho demasiado longo para muitos dos nossos Bancos) e sem segurança jurídica (com os nossos supervisores apostados em abalar a pouca confiança que ainda nos resta). Por isso, ficamos assim.
 
 A. Palhinha MachadO
Junho 2009

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