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A bem da Nação

A EUROPA E O ESPÍRITO EUROPEU

 

 
Nós, os europeus, devemos considerar-nos como
viajantes embarcados num só e mesmo navio
(Comenius, Praefatio ad Europeos, 1645)
 
 

Desde tempos míticos a Europa é um Ideal de beleza e fecundidade. Zeus, o deus dos deuses, por ela se apaixonou e a levou, disfarçado de touro manso, atravessando o mar. Amou-a e deste amor fecundo nasceu eterna descendência. Zeus-Touro está hoje nos céus – um signo que aponta o destino – Europa permanece na Terra, ligada à beleza e ao cumprimento desse Ideal de Amor que nasceu junto ao mar ...
 
A Europa que celebramos a 9 de Maio é velhinha e tem passado por muitas experiências de amor e desamor, de paz e de guerra, de ser e não ser. Muitos foram os autores das várias sensibilidades, das Ciências à Poesia, passando obrigatoriamente pela Filosofia, que pensaram a Europa. Ela é lugar e pensamento, e/ou cultura que se abriu e, abre ainda, a espaços longínquos. Dela não pode deixar de se pensar, também, como sendo o lugar onde se cruzam ideais políticos que, muitas das vezes, ultrapassam o seu limite geográfico e se consubstanciam para além dos continentes. Falemos, pois, da Europa como lugar de pensamento, abstraindo das suas fronteiras ou dos seus múltiplos Tratados, das multiformidades das uniões que se sucederam ao longo da sua velha história. Esta reflexão, breve, parte deste pressuposto.
 
Se a política pode ser entendida como a resposta à necessidade da vida em conjunto, se ela aparece nesse tecido intermediário, nesse espaço mal definido, que é a ponte de uns para os outros, onde cada eu não se quer perder e, simultaneamente, quer encontrar o outro sem prescindir de si, então ela diz respeito a toda a vida humana. A Europa é hoje por excelência, o lugar da política, entendida como organização da vida em comum. Caracterizada pelo alargamento das comunidades, pela manifesta vontade de relação entre elas, pela tendência, não de apagar o papel individual dos Estados, dos governos e das culturas nacionais, mas de encontrar valores comuns de justiça, liberdade, igualdade, solidariedade e respeito, a Europa continua a pensar-se como uma entidade que ultrapassa o sítio geográfico e os limites territoriais. Como “lugar da irrupção do pensamento racional” (Edmund Husserl, A Crise da Humanidade Europeia, 1935), projecta-se como pensamento próprio que se não fecha em si, nem se contenta com esse fechamento. Tal como no mito, é levada para fora de si e dá frutos. É esse o sentido da Filosofia ou da Ciência que são o seu espírito. É essa a característica da sua racionalidade: fonte de normas para a vida, quer individual ou comunitária.
 
 
 
Que é a política, na Europa, senão o intuito de estabelecer normas para a vida? Que é a política europeia senão a consciência da necessidade de estender a razão até aos limites da Paz? Caminho nem sempre plano, nem sempre aberto e muitas vezes aparentado com a negação e o cansaço da razão: quer por defeito quer por excesso. Este cansaço, a “misologia da razão”, como lhe chama Kant (Fundamentação da Metafísica dos Costumes), caracteriza a crise da Humanidade Europeia: faz a Europa descentrar-se de si, ser outra coisa, ser o que não quis nem pensou ser, perder-se em caminhos rectos, curtos, lineares e geométricos que a trazem cega e intolerante, que a tornam seca e sem alma. É o esquecimento da dimensão da racionalidade plena que se abre à vida e a comodidade duma razão geométrica, que matam a possibilidade da própria vida; que matam o que de Humano há no Homem. Isto leva-nos a um lugar sem política, ou a uma política desenraizada da vida em comum, portanto, à crise da política, e daí, também, a uma crise da razão humanizada.   Círculo vicioso entre razão e política? Talvez, mas se a razão pode expressar-se fora dos limites da política, a política não pode exercer-se sem a razão. Ela é, ou deveria ser sempre, uma das expressões da razão enquanto legisladora e prática.   Quando assim não foi, na Europa, a crise chegou ao âmago do seu  espírito, atacou-o com um golpe quase mortal.
 
No final do texto de Husserl (A Crise da Humanidade Europeia) fica-nos a esperança de podermos ser “bons europeus” e, tal como a filosofia, levantar voo na escuridão. Espera-nos, se tivermos coragem e acreditarmos em nós, a missão renovada de uma interior, livre e imortal espiritualidade. Esta coragem e missão renovadas têm que ser postas nas mãos e no coração da juventude e, por isso, faz todo o sentido a celebração na Escola, em especial na página de Filosofia, desta Europa que é a nossa forma de ser humanos e que não sabemos nem queremos perder.
 
Citando Fernando Pessoa: “ A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro! A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro destes Homens Fortes – a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima! A Europa quer Donos! O Mundo precisa da Europa." (Ultimatum, 1917)
 
Esta é a Europa do espírito europeu, pleonasmo necessário para acentuarmos a força do espírito, impulso indispensável numa era de criatividade, mudança e desejo de paz. Celebremos, não a Europa, mas o espírito europeu.

Façamos do dia da Europa uma festa em conjunto, por nós e pelas gerações futuras a quem queremos passar, responsável e solidariamente, este Ideal.
 
Lisboa, 25 de Abril de 2008

 Maria do Carmo Themudo

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