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A bem da Nação

“Faz medo a um susto”

 

 
Nunca tinha ouvido esta. Foi na sequência da conversa sobre as questões da Educação. Tinham tido reunião, longa reunião, em que o discurso de auto-elogio da coordenadora, só equiparado ao seu portefólio volumoso, meteu nojo. Trata-se da prática usual nas escolas, não é trabalho sério.
 
 Antigamente, quando se podia estudar mais, porque os professores eram respeitados na sua condição de docentes, de veiculadores do ensino, ninguém se lembrava de ir para uma reunião geral – ou mesmo particular – de escola gabar-se das suas realizações pessoais. Quando muito, no caso de conselhos de turma, em que se julgavam os alunos mal comportados de quem um professor participara, havia sempre um ou outro professor – dos camaradas e conhecedores das pedagogias da doçura – que faziam auto-elogios, de reconhecimento da extrema má educação do infractor, mas nunca para consigo, note-se, que não “tinha razões de queixa”. “Reconheço que é um aluno difícil, mas eu não tenho razões de queixa”. Claro que nunca acreditei nisso, e disse-o um dia, pois um aluno mal comportado com um professor é-o com os outros todos, mau grado os Sebastiões da Gama inventores do elixir de bem gerir uma aula, sem a preocupação de obedecer a programas, porque “o que faz falta é animar a malta”, como eu também cuido que sim...
 
Mas voltando ao grosso portefólio de papéis do Ministério, de avaliação dos docentes segundo os papéis do Ministério, que complicam o tipo de informações que exigem para a avaliação – tanto dos professores como dos alunos – para melhor os reduzir à condição de robôs de comando a distância – ele define o preciosismo de excesso e vanidade em que se transformaram as regras exigidas para fabricar as personalidades dos discentes e criar a nova personalidade do professor ideal, segundo uma nova ordem social criada por uma estranha figura de Primeiro Ministro que se não importa de continuar a ser um aprendiz de feiticeiro, sem receio de que a inundação subverta o seu país.
 
Mas as coordenadoras sentem-se felizes com os seus portefólios monstruosos contentores das monstruosidades da papelada ministerial para avaliação dos portefólios dos professores.
 
E eu só me pergunto como é nas escolas de música, de artes, de ciências para o progresso de uma nação. Será que ao professor que ensina a música de Beethoven também são exigidas reuniões de horas e horas massacrantes de um vazio absurdo, que lhe não permitirá o estudo aturado para as suas funções?
 
Não, o professor das artes está noutra dimensão, o Ministério da Educação não intervém. Mas os professores de História, de Matemática, de Português, etc., também precisam de tempo. Já não digo para a família, que sempre tiveram pouco – os que amavam o seu trabalho.
 
Mas para estudar, seja o que for, é necessário tempo, incompatível com tais portefólios, balões de ar que uma picada de agulha esvazia e nada deixa a não ser o auto-elogio inane de quem se contenta com esse pouco da nova ordem.
 
Pobres Portugueses que alguém já chamou “poucos quanto fortes!” Mas também garantiu, é certo, “que um fraco rei faz fraca a forte gente” – em que, de resto, a maioria não acredita, complexados como somos.
 
Mas realmente fortes, são, agora, os fazedores de portefólios. E a gente deixa, que nos convém a nulidade alheia, que estamos a criar, com que justificamos a nossa, já bem criada, mesmo em termos de instituição nacional.
 
                                                                Berta Brás

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