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A bem da Nação

HERÓIS DE CÁ - 25

 

 

ELES MATARAM O FUTURO
 
 
 
Foi antigamente, no passado, que o futuro existiu. Os modernistas foram os últimos que o tiveram; os pós-modernistas mataram-no.
 
Ultrapassadas as hierocracias[1] tipicamente medievais e vitoriosa a Revolução Francesa, sentiu-se que a noção de Deus abafava o mundo e que o raciocínio tinha que ser dirigido com base em parâmetros modernos, nomeadamente reinventando a arte e mesmo a metodologia científica.
 
Assim nasceu na segunda metade do séc. XIX o romantismo centrado na experiência individual subjectiva, na supremacia da Natureza e sempre tendo como valor essencial a liberdade da pessoa. Se até então cada um se enquadrava na classe em que nascera e fazia o que a sociedade considerava que ele devia fazer, a partir de então a cada um passava a caber a responsabilidade de fazer jus à liberdade de que dispunha procurando uma posição profissional, familiar e política sem dependência de classe ou sequer de grupo.
 
Em paralelo, o primado da Ciência conduziu a um claro afastamento da Ética clássica tudo valorizando em função da eficácia. Contudo, terá sido por causa deste mesmo cientifismo militante que simultaneamente surgiram nesta época grandes iniciativas para a construção de uma Ética secular.
 
Mas se a Moral e a Ética clássicas definiam bem e mal segundo padrões de origem divina, haveria que buscar outro enquadramento que não dependesse da vontade de Deus. Assim, sem abdicarem por completo do Cristianismo, os modernistas foram buscar normas científicas da física clássica e doutrinas que pregavam a percepção da realidade básica externa através de um ponto de vista objectivo.
 
E porquê? Porque, «malgré tout», entenderam necessário definir padrões de harmonia social que lhes permitissem viver o presente e assegurar o futuro.
 
Sim, os modernistas tinham futuro e este iria sobreviver até à segunda metade do século XX.
 
Mas depois da II Guerra Mundial assistiu-se a um processo sem precedentes de mudanças na história do pensamento e da técnica. Ao lado da aceleração avassaladora nas tecnologias de comunicação, das artes, dos materiais e da genética, houve mudanças fundamentais no modo de pensar a sociedade.
 
A Modernidade foi criticada nos seus parâmetros fundamentais:
·         A crença na Verdade alcançável pela Razão;
·         A linearidade histórica rumo ao progresso.
 
Para substituir estes “dogmas” surgiram novos valores, menos precisos, tanto na teoria do pensamento como na ciência e na tecnologia.
 
Assim, na década de 1980, desenvolveu-se uma cultura globalizada geográfica e etnicamente: a multiplicidade, a fragmentação, a desparametrização e a aceitação de todos os estilos e estéticas, pretendendo a inclusão de todas as culturas como mercados consumidores; a Comunicação e a Indústria Cultural assumindo abertamente a orientação da opinião globalizada com o apoio dos «opinion makers» em total reverência ao «Deus» Nível de Audiência. E para que este seja devidamente venerado, tudo lhe é devido.
 
 
Altar ao «Deus» Nível de Audiência
 
Hoje, tudo! Amanhã, se o houver, será outro dia a viver como hoje em veneração ao mesmo «Deus». E se este se mostrar caprichoso, inventem-se todos os pretextos que se mostrem necessários à satisfação dos seus caprichos: não há que olhar aos meios desde que se alcancem os objectivos.
 
Sim, foi deste modo que eles mataram o futuro e por isso não precisam de Ética.
 
Tavira, Agosto de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca


[1] - Domínio clerical da sociedade à semelhança do actual Irão

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