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A bem da Nação

As uvas da nossa vinha

 

 
Quando criança, vivi numa aldeia portuguesa com fruta, que eu arrancava directamente das árvores, subindo às macieiras, cerejeiras, colhendo os abrunhos de um pequeno abrunheiro do nosso quintal, na casa alugada.
 
Mais tarde, em Moçambique, eram bananas, papaias, mangas, laranjas, goiabas, ananases, as frutas da terra, mas tinha saudades da fruta da minha aldeia. Havia também uvas, peras, pêssegos, maçãs, fruta bonita importada da África do Sul, de clima temperado como o nosso aqui. Mas o sabor não era o mesmo do da encantada infância.
 
Recuperei esses sabores quando retornei, porque eram bons ainda os produtos que chegavam do campo aos mercados. Mas a entrada na “Europa” criou entraves à fruta e a tantos produtos da nossa praça. A nossa fruta não tinha tamanho suficiente para ser vendida nos mercados europeus, incluindo o nosso. Pagou-se aos camponeses para abandonarem as hortas, Portugal caiu na modorra produtiva.
 
Houve laranjas e tomates destruídos nas ruas, porque não vendáveis nas praças, Portugal secou nos campos. Preservaram-se, contudo, apesar das destruições impostas, vinhos da nossa lavra, alguns com direito a prémios internacionais. Vinho é sempre algo a preservar e não houve Europa que no-lo fizesse dispensar.
 
As praças abundaram em fruta estrangeira, do tamanho próprio, calibrado, das suas clonagens esterilizadas, sem o sabor do nosso solo não artificial e do nosso sol criador, mas com o tamanho necessário para as nossas importações de povo que se abotoou com a côdea do servilismo, deixando os campos maninhos donde lhes viera antes o proveito, sem saudades das terras verdes de outrora, os velhos cada vez mais velhos, os filhos e netos optando pelas cidades de mais cultura e possibilidades de sobrevivência.
 
Abriu uma loja da fruta aqui perto. E oh surpresa! A proveniência da fruta, tirando as bananas e as papaias, diz “Portugal”. E também os feijões e os nabos e os grelos. Comi uva da nossa! E figos, e pêssegos, retomei os velhos sabores do passado.
 
 Que se passou? Será que já se pode trabalhar a terra para vender ainda que só como produto caseiro? Serão novas as directivas impostas pela União Europeia, envergonhada com a sua política de intrusão anterior na vida económica dos povos da sua esfera política?
 
Mas se se quiser que o nosso povo trabalhe agora, que envelheceu com direito a vencimento e a reforma, o nosso povo dirá, gasto, solitário e indiferente: Vai tu.
 
Porque deve ser muito difícil limpar os campos maninhos, endireitar, de novo, a nossa vinha, para vender as suas uvas, bem mais saborosas do que as de importação.
 
Destruir é imediato, a reconstrução muito mais penosa.
 
Berta Brás
 

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