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A bem da Nação

Curiosidades das línguas de Angola

 

 
 
 A moeda que, desde tempos muito antigos, chegou até ao séc. XIX!
Mas... também com grandes desvalorizações!
 
Primeiro esclarecimento: não filólogo, nem conhecedor das línguas nativas de Angola. Mas sempre me interessou muito qualquer assunto que diga respeito áquela terra, e também gosto de lançar para o ar – ZUKUMUNA – alguns problemas que, se discutidos por conhecedores, serão, de certeza, úteis para todos. Sobretudo para mim.
É por demasiado bem sabido que quando os portugueses chegaram onde é hoje Luanda, seja à baía, seja pelo sul, a única área habitada naquela região era a Ilha de Luanda. Além disso só lá para o Bengo, Barra do Quanza, etc. lugares onde havia água, e por óbvio, vida.
A Ilha de Luanda era “propriedade” do rei do Congo (ou Kongo!) de onde este tirava a principal fatia do seu poderio econômico, o “nzimbu”, apesar de a sua mbanza em Mbanza Kongo ficar a cerca de 500 kms. de distância, que naquela época se estimava em tempo de viagem, e que variava muito, conforme a carga que os carregadores tivessem que transportar na cabeça ou nas costas, ou a época do ano, quando por vezes os rios se enchiam e havia que se esperar que as frágeis pontes dessem passagem, etc., mas estava calculado que duraria uma média de 18 dias! Quando havia necessidade de mandar “telegrama urgente” o emissário podia levar somente uns 4 a 5!
Apesar disso a Ilha, a verdadeira “casa da moeda”, era muito bem guardada por pessoal da mais alta confiança do rei.
Ora bem, o rei do Kongo chamava-se Muxikongo.
E Luanda, ou Loanda? Segundo documentos dos primeiros europeus que por ali andaram, o significado desta palavra Loanda era “terra baixa”, ou “terra plana”.
E os habitantes da Ilha chamavam-se Muxi-luando!
Uma das primeiras deduções que se pode tirar destes nomes é que Luanda é um nome de origem Kicongo e não Kimbundo.
Há também referências à Ilha de Luanda como sendo Muzanga, ou Nzanga em kimbundo, ou Sanga em kicongo, mas este é um nome genérico para qualquer ilha.
Todo o restante da região no continente, onde hoje está a cidade de Luanda, chamava-se “Musseque” que significa areal.
À medida que a cidade se foi implantando em frente à Ilha, e não demorou para tomar o nome desta, Luanda, acrescido dos nomes da prática da devoção, São Paulo da Assumpção de Loanda, começou por ser somente São Paulo. Onde se faziam construções e ruas, a “cidade” ficou sempre sendo Luanda. Fora disso continuavam os “Musseques”, os areais! Musseque era o nome de uma das três “províncias” que no século XVI dividiam o reino Ngola: Ilamba, Musseque e Quissama, sendo Musseque a região do Dongo ou Ndongo, dos reis Ngola ou Njinga. O Musseque ou Dongo ocupava a região entre o rio Lucala a Norte, o Quanza a sul, a nascente o reino de Cassanje, pelo poente até ao mar, onde se formou Luanda, razão de se chamar Musseques à área fora da cidade. Até hoje!
Outra curiosidade é a origem da palavra Kimbundo, aliás da raiz Mbundu.
Reza a história que os povos conquistadores da região que hoje se define como sendo de língua kimbundu, ou ambundu, foi, pouco antes da chegada dos portugueses invadida e conquistada pelos “Jagas”, povo aguerrido e que dominava a metalurgia.
Para um povo simples e ainda em estado muito primitivo, tirar ferramentas de ferro dum pedaço de terra, era coisa de “grande feiticeiro”, e quem usava essas ferramentas, ou armas, tinha na mão o poder!
 
A exibição e o domínio dum "nganga", ou "kimbanda"
 
Normalmente esse poder acabou, ou começou, por ficar na mão desses ferreiros, cuja tecnologia, avançada para a época, era guardada em total segredo. Esses homens eram conhecidos como Ngongola ou “Ngola”.
Invadidas e conquistadas áreas em que a tecnologia não havia ainda chegado, logo aos invasores lhe chamaram os “Mbundu”, que os portugueses escreviam “Ambundu”.
O singular de mbundu é, então Kimbundu, e significa o “invasor”, ou o “grande que expulsa”. Ficou assim também até hoje! A parte central daquela região, foi dominada pelos Ngola, e o seu povo e língua conhecidos como Kimbundu.
Voltando à “casa da moeda”, e para se ter uma idéia do quanto os transportadores tinham de levar da Ilha de Luanda para o Muxicongo, basta saber que:
1 galinha valia 3.500 nzimbu = 1 pistole de nzimbu
1 vaca cerca de 300.000 nzimbu = 30 lufuzu
1 lufuku = 10.000 nzimbu
Em 1640 o rendimento dos impostos que recebia o Kongo andava por 1.750.000.000 zimbu, ou 175.000 lifuku! Haja carregadores!
Só mais uma coisa. É incerta a origem da palavra “bolo”, que em português todos sabem o que significa. Talvez venha do latim “bola”, pelo formato arredondado. Talvez. Mas só talvez!
No entanto, não só em kimbundu como em kicongo e em tchokwé, “Mbolo” significa pão! Se foram os portugueses que levaram esta palavra para Angola, porque não usaram logo pão? Ou não terá sido em sentido inverso que a palavra tenha entrado no nosso vocabulário?
Quanto mais controvérsia gerar estes assunto, melhor!
Salve! Uohoko!

Rio de Janeiro, 2 de Julho de 2009
 
  Francisco Gomes de Amorim
 
NOTA: Peço que me desculpem pelo erro de "palmatória" expresso no texto abaixo:

1.- O rei do Kongo não se chamava Muxicongo, mas Manikongo, nome que os portugueses e os missionários capuchinhos lhe deram, possivelmente derivado do kimbundu "muene" - senhor, excelência - chefe.
2.- Muxikongo eram as gentes do Kongo.
3.- Muxiluando, ou Axiluando (no singular), os da Ilha de Luanda.

Prometo que para a próxima tomo mais cuidado!
 

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