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A bem da Nação

BREVE CRÓNICA DE UMA VIAGEM TURÍSTICA

 

 
 
    Só no ano passado consegui, pela primeira vez, ir de visita à terra do tio Sam, realizando um anseio que estava guardado no meu peito desde há muitos anos. O meu cronograma turístico começou por contemplar a Europa e um pouco de África. Antes de me abalançar a este tipo de aventura, outras prioridades (a educação das filhas) haviam marcado a minha agenda familiar, de maneira que só há alguns anos comecei a dispor de suficiente folga orçamental para começar a espraiar o corpo e o espírito além fronteira.
 
    No entanto, viajar até à América do Norte e aí permanecer um tempo prolongado (com os respectivos custos), como foi o caso e sempre ambicionei, nunca teria constituído para mim um problema deveras insolúvel, já que tenho nesse país uma irmã que sempre pôs a casa à minha disposição. Mas, realista e prudente, preferi sempre aguardar pela conveniente oportunidade que caucionaria as minhas próprias iniciativas e decisões.
 
    Foi assim que, acompanhado da mulher e da neta, estive em Boston todo o mês de Julho do ano passado, numa visita que até agora foi a mais cativante, a mais deliciosa e a mais saudosa.  
 
    Posso afirmar que, ao primeiro olhar, o país em si não me causou grande surpresa do ponto de vista humano-geográfico. As paisagens, o povo, os seus usos e costumes, os comportamentos, as modas e as tendências, tudo isso começamos a conhecer um pouco desde a infância, primeiro com o cinema e mais tarde com a televisão. À primeira impressão, o europeu que desembarca no país não deixa de notar os traços marcantes da cultura calvinista em toda a sociedade norte-americana. São indisfarçáveis as diferenças de estilo, de intervenção e de dinâmica social em relação à Europa. Já em 1835, na sua viagem aos EUA, Alexis de Tocqueville percebeu que despontava naquele país uma nova configuração social e política. Diferentemente da Europa, não foi o Estado que forjou a sociedade e definiu os seus elos e contornos. Na América foi o contrário. O associativismo cívico nasceu com e nos alicerces da fundação do novo país e foi o motor principal da resolução dos problemas vitais de resposta imediata. De par com o voluntariado, que é, aliás, a alma do associativismo, este serviu, e serve, para a resolução dos mais diversos problemas da agenda comunitária, desde a construção de escolas, hospitais e igrejas, à criação de organizações cívicas, assistenciais, morais, etc.
 
    As associações comerciais, industriais, religiosas e outras foram e são, com efeito, a base sólida que sustenta a pirâmide do Estado. Razão teve John Kenedy quando disse, porventura invocando e relembrando uma filosofia de ser: “pergunta o que podes fazer pelo teu país e não o que este pode fazer por ti”. De resto, os que nunca esqueceram o filme Shane, um verdadeiro clássico do Western, têm aí um fidedigno exemplo do espírito associativo americano nos primeiros alvores da expansão no território. Hoje o associativismo no país reveste outros cambiantes de afirmação cívica, virando-se para problemas mais actuais, mas o espírito que o enforma é ainda o pioneiro. A sua vitalidade é imperecível e oxalá assim continue para exemplo de um mundo em crise de valores cívicos.
 
    Em Portugal há um défice notório de empenhamento cívico. As nossas associações comerciais ainda há pouco tempo defenderam a apregoaram que o Estado devia, na actual crise, distribuir dinheiro às famílias para estimular a procura e, deste modo, reanimar os seus negócios. Fiquei boquiaberto com semelhante despautério e muito pessimista quanto à nossa capacidade una e solidária de enfrentar as vicissitudes desta e outras crises. Na mesma altura, tive conhecimento da atitude inversa tomada por alguns comerciantes, alfaiates e barbeiros, novaiorquinos. Baixaram os preços dos seus produtos, a par de outras acções solidárias, visando os clientes mais atingidos pela crise.
 
    Se o associativismo é gerado pela mais ampla afirmação da liberdade individual, não surpreende que esta seja uma presença molecular na cidadania americana. Notei que o cidadão americano respira um sentimento de independência e liberdade interior de que não abre mão nem na esfera pública nem na privada. Não têm o hábito da curiosidade mesquinha ou mórbida que é típica dos europeus do Sul, não se escandalizam com qualquer excentricidade alheia, não se metem na vida de ninguém. E contudo cultivam um saudável espírito de proximidade e entreajuda entre vizinhos. E, contrariamente ao que esperava, notei que são dum modo geral cordiais e correctos no trato público, mesmo com desconhecidos. Neste particular, não me parece que alguns filmes retratem fielmente o fundo verdadeiro do povo americano, quando, muitas vezes, exploram exageradamente o insólito, a agressividade gratuita e os comportamentos aberrantes, levando-nos a erradas exegeses e generalizações. Claro que os há, mas estamos a falar de um país de 300 milhões de almas, nem todas elas puras e angélicas, pois claro.
 
    E contudo a América é também de grandes contrastes, o que é natural num país tão extenso e tão diferente na sua geografia física e humana. Espanta ver mendigos, cidadãos “sem-abrigo” e andrajosos numa terra rica de recursos e de associações cívicas. Nunca me passou pela cabeça que haveria de dar uma esmola a um cidadão americano. Mas compreende-se que a liberdade individual pode ser correia de transmissão de impulsos contraditórios, os positivas e os negativos. Por exemplo, tive conhecimento de que há veteranos do Vietname que preferem a rua ao ambiente protector de lares de acolhimento.
 
    Claro que o mês inteirinho que foi a minha permanência no país permitiu-me conhecer várias cidades e locais de interesse. E até o meio rural, em Vermont, onde passei um dia quase completo num rancho turístico com cavalos, vacas e cow-boys. Sublinho que gostei particularmente de Boston e adorei visitar com minúcia a universidade de Havard, guiado pela mão carinhosa de uma sobrinha que ali trabalha nos serviços administrativos.
 
    Sem dúvida que é viagem para repetir mais vezes, agora que sei que a expectativa não só foi de todo correspondida como despertadora de um novo encantamento. 
 
Tomar, 17 de Junho de 2009
 
Adriano Miranda Lima

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