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A bem da Nação

HERÓIS DE CÁ - 15

 FASCISMO NUNCA MAIS - II

 
O ideal do Poder fascista consiste na aceitação pacífica do dogma com base no que o capricho do ditador se evidencia como norma; o banimento do raciocínio crítico é prática fundamental para a manutenção do modelo.
 
Todas as versões de fascismo culminaram na coroação do dogma mesmo que algumas possam ter surgido de bases teóricas tais como o marxismo e o nazismo. Sim, ao contrário de Mussolini, tanto Stalin como Hitler se instalaram no Poder invocando teorias mas logo que puderam libertaram-se desses parâmetros de alguma intelectualidade e passaram a manipular o Poder a seu básico bel-prazer.
 
Tanto o fatalismo marxista como os fantasmas nazis serviram de motivação para a persuasão ao estilo de «o futuro será (de um certo modo) e todos têm a obrigação de contribuir para a sua realização. E não se ponham a pensar em alternativas». Aliás, quem nelas pensasse podia garantidamente contar com «acompanhamento» policial.
 
E mais remotamente do que imaginar alternativas ao futuro sonhado pelo discurso totalitário, cuidasse-se quem pusesse em causa o historicismo oficial que “cientificamente” definira tal futuro ou tivesse visto tais fantasmas.
 
Pensava eu nestes termos quando, parecendo de propósito, deparo a páginas 54 e seguintes do livro de Karl Popper, “Busca inacabada – Autobiografia intelectual”[1], com a seguinte passagem:
 Círculo escéptico: Asociación para la difusión del pensamiento ...
(Viena,1902-Londres,1994)
 
«A teoria marxista exige que a luta de classes seja intensificada com o objectivo de acelerar a vinda do socialismo. As suas teses são que, embora a revolução possa reclamar algumas vítimas, o capitalismo está a reclamar mais vítimas do que a totalidade da revolução socialista.
 
Esta era a teoria marxista – parte do chamado “socialismo científico”. Eu perguntava-me agora se um cálculo desse tipo poderia alguma vez ser apoiado pela “ciência”. Toda a experiência e em especial esta pergunta, produziu em mim uma reviravolta de sentimentos para toda a vida.
 
O comunismo é um credo que promete criar um mundo melhor. Afirma basear-se no conhecimento: conhecimento das leis do desenvolvimento histórico. Eu ainda tinha esperança num mundo melhor, um mundo menos violento e mais justo, mas questionava se realmente sabia – se o que eu tinha pensado que era conhecimento não era, talvez, simulacro. É claro que tinha lido um pouco de Marx e Engels – mas tinha-os realmente compreendido? Tinha-os examinado criticamente, como qualquer pessoa deveria fazer antes de aceitar um credo que justifica os seus meios por um fim de certo modo distante?
 
Fiquei chocado por ter de admitir para comigo mesmo que não só tinha aceite uma teoria complexa de uma maneira um pouco acrítica, mas que tinha também percebido realmente um bom bocado do que estava errado, tanto na teoria como na prática do comunismo. Mas tinha-o reprimido – em parte por lealdade aos meus amigos, em parte por lealdade à “causa” e em parte porque existe um mecanismo pelo qual nos envolvemos mais e mais profundamente: uma vez que tenha sacrificado a sua consciência intelectual em relação a um ponto pouco importante, um indivíduo não quer ceder com demasiada facilidade; o indivíduo deseja justificar o auto-sacrifício convencendo-se da bondade fundamental da causa, que é vista como pesando mais do que qualquer pequeno compromisso moral ou intelectual que possa ser requerido. Com cada um desses sacrifícios morais ou intelectuais, o indivíduo fica cada vez mais profundamente envolvido, fica pronto a apoiar os seus investimentos morais e intelectuais na causa com mais investimentos. É como estar pronto a investir mais dinheiro para cobrir as perdas.
 
Vi como este mecanismo tinha funcionado no meu caso e fiquei horrorizado. Vi-o também a funcionar noutros, em especial nos meus amigos comunistas. E a experiência deu-me a capacidade de compreender mais tarde muitas coisas que, de outro modo, não teria compreendido.
 
Tinha aceite um perigoso credo sem crítica, dogmaticamente. A reacção começou por fazer de mim um céptico; depois levou-me, embora só por um breve período de tempo, a reagir contra todo o racionalismo. (Como descobri mais tarde, está é uma reacção típica de um marxista desapontado).
 
Pelos meus dezassete anos tinha-me tornado antimarxista. Percebi o carácter dogmático do credo e a sua incrível arrogância intelectual. Era uma coisa terrível que um indivíduo se arrogasse um tipo de conhecimento que criava um dever de pôr em risco as vidas de outras pessoas em nome de um dogma aceite acriticamente, ou de um sonho que poderia vir a mostrar-se irrealizável. Era particularmente mau para um intelectual, para alguém capaz de ler e pensar. Era terrivelmente deprimente ter caído em semelhante armadilha.
 
Assim que a olhei criticamente, as brechas e fendas e inconsistências da teoria marxista tornaram-se obvias. Considere-se o seu ponto central respeitante à violência, a ditadura do proletariado: quem era o proletariado? Lenine, Trotsky e outros líderes? (…)
 
Precisei de alguns anos de estudo antes de me sentir confiante em relação a ter captado o núcleo do argumento marxiano. Consiste numa profecia histórica, combinada com um apelo implícito à seguinte lei moral: Ajuda a que ocorra o inevitável! (…)
 
Por tudo isto, também, eu brado novamente: - FASCISMO NUNCA MAIS!
 
Lisboa, Junho de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca


[1]- Esfera do Caos Editores, 1ª edição – Fevereiro de 2008

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