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A bem da Nação

PARTILHANDO O TEMA “O POLVO E A TENAZ”

 

 
O artigo do Doutor Salles da Fonseca intitulado “O Polvo e a Tenaz” trata a génese e a evolução do problema que subjaz à visão de Oliveira Salazar sobre a sua política externa e a manutenção e defesa intransigente das colónias africanas. É com real propósito que este tema vem à colação, quando, hoje, visitamos as ruínas do castelo de ilusões em que se entrincheiraram até mesmo inteligências lúcidas do pensamento ocidental.  
 
Indo então à questão.
 
Se Stalin acabou por adoptar o que Trotsky preconizava sobre o expansionismo revolucionário além-fronteiras, só o fez, no entanto, de forma mais decisiva, ao surfar a onda favorável da vitória dos Aliados sobre o Nazismo. Era oportuno colher dividendos e aproveitar as debilidades de um mundo esfrangalhado por uma guerra demencial. Cabe é questionar se os efeitos da exportação ideológica teriam sido os mesmos caso tivesse vingado a prematuridade defendida por Trotsky. O mesmo é perguntar se a tese deste não teria morrido à nascença uma vez a semente lançada na terra em tempo talvez menos propício à sua germinação. Tudo tem a sua estação recomendável, até mesmo as ideias.
 
Ironicamente, isto leva-nos então a concluir que o instinto de um Stalin de pensamento granítico, aliado a uma calculada paciência estratégica, acabou por triunfar sobre um Trotsky de inteligência mais teórica e mais burilada.
 
Seria interessante especular sobre o rumo que o mundo teria tomado se tivesse acontecido uma falência prematura do expansionismo comunista, o qual, sem uma necessária consolidação doutrinária, poderia, de facto, consumir-se no próprio fogo da exaltação revolucionária e das paixões incontroladas ateado noutras geografias. Aliás, basta ver o caso da Espanha, citado pelo Doutor Fonseca no seu artigo.
 
É de especular também se a guerra-fria teria, assim, revestido outros contornos ou se uma forçada “contracção” da ambição soviética teria originado no pós-guerra um diferente ordenamento político na Europa e no mundo, uma vez que só a emergência das duas grandes potências mundiais impediu o retorno a uma situação multi-polar.
Mas hoje sabemos que espécie de seara produziu a semente revolucionária, na Europa do Leste como no resto do mundo. Hoje sabemos, reconhecendo justeza e validade ao pensamento estratégico de Salazar, que os soviéticos, os cubanos e os chineses apenas aguardavam ambiciosamente que os portugueses saíssem das colónias para, de forma mais ou menos sub-reptícia, lhes ocuparem os lugares de influência. Embora, com a evolução da maturidade política dos novos países de expressão portuguesa, associada à posterior implosão soviética, tenha, em devido tempo, mudado o tabuleiro em que aqueles passaram a jogar os seus interesses, não sendo descabido considerar que, esconjurados certos fantasmas, estão hoje reanimados os laços de afecto com Portugal forjados ao longo de séculos, mau grado erros, desacertos, desvios e adiamentos estratégicos cometidos quer pela administração central quer pelos governos coloniais. Neste momento, dentro do mundo lusófono, podemos, infelizmente, apontar a Guiné-Bissau como um dos mais trágicos exemplos de uma emancipação sob a égide da estratégia comunista. Timor é um caso mais singular. Noutras partes da África onde a experiência comunista foi ensaiada ou onde ela ainda subsiste, as consequências directas ou indirectas das “libertações” apressadas ou mal aconselhadas tornam porventura ainda mais negativo o saldo do insucesso, dado o imparável cortejo de desgraça, miséria e infortúnio que assola e mata a esperança daqueles povos.
 
Virá o tempo em que todas as contas da história serão feitas sem paixões nem preconceitos ideológicos. Nessa altura, poderá acontecer que o Homem de Santa Comba venha a ser olhado com olhos bem diferentes daqueles que lhe lançavam chispas mortais nos areópagos mundiais. Rendida a certas evidências, a história universal não deixará de lhe fazer justiça. Ou não fosse também o despeito e a inveja pela ousadia de um pequeno país a razão casuística do repúdio a que era votada a sua política externa.
 
Pode parecer que quem escreve este comentário é um confesso salazarista ou anticomunista primário. Nem uma coisa nem outra. Trata-se apenas de acompanhar o Doutor Salles da Fonseca neste seu propósito de meter um pouco de fria racionalidade na análise dos factos da história, sem sujeição gratuita a ideologias políticas que, como todos os fenómenos sociais, também brilham ou bruxuleiam consoante os tempos e as modas.
 
 
Tomar, 10 de Junho de 2009
 Adriano Lima
 

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