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A bem da Nação

BURRICADAS 60

 

dinheiro, esse desconhecido - III
 
v        A actual crise veio revelar que teoria e prática (esta na Regulação e na Supervisão) vivem ainda na época em que dinheiro era sinónimo de dinheiro/objecto (moedas metálicas, com valor intrínseco) e de MF (passivo à vista do Banco Central).
v        Nesses bons velhos tempos, o volume de dinheiro em circulação podia depender de muita coisa, mas não do risco a que os Bancos se encontrassem expostos. Tudo começou a mudar, porém, a partir do momento em que o ouro foi desmonetizado (1972) – e a realidade, hoje em dia, é já completamente outra:
-        O dinheiro que verdadeiramente alimenta e faz mover a esfera real da economia é a ME (passivo à vista dos Bancos);
-        Só as novas operações de crédito bancário têm a virtualidade de aumentar, de imediato, o volume de dinheiro que circula entre pessoas e empresas – já que as restantes fontes de emissão de dinheiro se encontram, num primeiro momento, circunscritas ao sistema interbancário;
-        As operações de crédito bancário têm, assim, um duplo efeito: (1) exportam” dinheiro do sistema interbancário para a esfera real da economia; (2) “importam” risco da esfera real da economia para o sistema interbancário;
-        Sendo passivo, a ME (na realidade, as diversas ME) só existe enquanto os Bancos que a tenham criado forem solventes;
-        E, para serem solventes, os Bancos devem satisfazer, também eles, uma dupla condição: (1) terem dinheiro (MEBC) bastante, ou poderem obtê-lo de imediato se lhes faltar (isto é, disporem de capacidade de endividamento junto do Banco Central, dos outros Bancos e dos Mercados Financeiros); (2) terem Capitais Próprios positivos e adequados, na opinião do Supervisor (à luz das regras prudenciais que estiverem em vigor) e dos Bancos contrapartes (aqui, é a disciplina do mercado a funcionar);
-        Os riscos que acabam mal constituem, para os Bancos, um duplo abalo: (1) a perda dinheiro (o processo de recuperação da MEBC que perdem sem drama para outros Bancos na sequência das operações de crédito bancário é interrompido); (2) a perda de Capitais Próprios (por força do reconhecimento contabilístico de prejuízos);
-        Um Banco que caia insolvente provoca uma redução brusca (mais ou menos acentuada, consoante a dimensão do Banco em crise) no volume de dinheiro em circulação: (1) quer na esfera real da economia (ME) - onde os Bancos sobreviventes podem não estar na disposição de suprir a falta; (2) quer no sistema interbancário (MEBC) - onde o Banco Central possui, no entanto, meios para reparar o dano;
-        Em suma. Uma perda patrimonial diminui sempre a capacidade do Banco atingido (e, por ricochete, dos restantes Bancos): (1) para renovar a oferta de dinheiro (ME) aos mercados; (2) para tornar possíveis novas trocas monetárias; (3) para permitir que a esfera real da economia prossiga sem grandes sobressaltos, tonificada pelo dinheiro que anda de mão em mão.
v        Facilmente se conclui que injectar MEBC (através de empréstimos vários) em Bancos que, nos últimos tempos, têm vindo a ser atingidos por uma enxurrada de perdas patrimoniais que lhes levam o melhor dos seus Capitais Próprios, é capaz de não adiantar grande coisa. Mas, pelos vistos, é o remédio mais receitado.
v        Os Bancos, para retomarem pacificamente o mister que é só deles (a saber: oferecer ME por contrapartida de riscos que considerem aceitáveis), necessitam tão-somente:
-            De reforçar os seus Capitais Próprios, para poderem acomodar mais risco (não confundir “mais risco” com “maior risco”, ou “risco agravado”) – e isso está ao alcance dos Investidores, do Governo e, em última instância, do Banco Central;
-            De ter uma visão mais clara dos riscos a que se exponham – o que, nem Investidores, nem Governo, nem Banco Central podem proporcionar de um dia para o outro.
v        Com tanto dinheiro (MEBC) a ser injectado continuamente nos sistemas interbancários (cerca de USD 6.5 biliões ao redor do mundo, segundo a última contagem) muitos temem que a inflação dispare, lançando a economia mundial em stagflação (inflação acelerada com crescimento económico nulo ou, mesmo, negativo) de má memória (aconteceu na 2ª metade da década de ’70, logo a seguir à desmonetização de ouro e ao primeiro choque petrolífero – e foi o diabo). Será assim?
v        Sim, não, talvez (pois é, Leitor, no fundo, no fundo, não passo de um economista). Eu explico-me. O dinheiro (MEBC) injectado pelos Bancos Centrais terá de ser reembolsado – e com juros. É certo que muitas destas operações têm prazos que podem ir até 3 anos, eventualmente renováveis. Mas, no final, terão de ser pagas – e a MEBC emitida acabará por ser reabsorvida e extinta pelos Bancos Centrais, com um efeito ligeiramente deflacionista (porque o que os Bancos vão reembolsar é superior aquilo que receberam).
v        Esta MEBC, enquanto tal, não está imediatamente ao alcance de pessoas e empresas (tomara a muitos Bancos Centrais, e a outros tantos Governos, que estivesse). Para chegar à esfera real da economia, só por via de novas operações de crédito bancário – e essas, para acontecerem, exigem: (1) mais Capitais Próprios; (2) menos incertezas sobre a actividade económica. É assim o ciclo de uma recessão com epicentro no sistema interbancário.
v        Estas injecções de MEBC só teriam um efeito inflacionista persistente se nenhum (vá lá, com uma ou duas excepções) dos Bancos que as receberam as restituísse (porque, entretanto, faliam, por exemplo). Mas mesmo num cenário assim tão extremo, os deficits da Balança de Transacções Correntes, com o tempo, encarregar-se-iam de eliminar parte do dinheiro em excesso. E a um surto inflacionista seguir-se-ia maior desemprego e a inevitável desvalorização cambial, para que um novo equilíbrio “macro” fosse encontrado.
v        O problema põe-se com mais acuidade nos subsídios orçamentais não reembolsáveis e, como acontecia nos estímulos monetários oriundos dos Bancos Centrais, nos subsídios orçamentais reembolsáveis, mas jamais reembolsados.
v        A reabsorção da MEBC que financiara os estímulos orçamentais só ocorrerá, e com um efeito ligeiramente deflacionista, a par e passo com o serviço da dívida pública que tinha sido monetizada pelo Banco Central, ainda que por interpostos Bancos. Mas tudo isso exige uma articulação perfeita entre a política orçamental, a gestão da dívida pública e as medidas destinadas a absorver MEBC (sem pôr em causa o equilíbrio externo).
v        Se os deficits da Balança de Transacções Correntes, entretanto, não falarem mais alto, um surto inflacionista? Sim, sem dúvida - se os Governos não tirarem com uma mão (via carga fiscal) aquilo que estão a dar com a outra (os subsídios orçamentais). Mas também a desvalorização da moeda nacional nas economias que ainda não abdicaram do instrumento cambial – e o desemprego massivo nas que integrem Uniões Monetárias sem serem competitivas por aí além nos sectores de bens transaccionáveis.
v        É este, justamente, o perigo que espreita: uma enorme volatilidade entre as moedas de referência no sistema financeiro internacional (USD, Euro, Yuan, Yen) - uma espécie de guerra cambial soft (soft por, em larga medida, escapar à acção dos Governos). Que Deus nos livre e guarde. (FIM)
 
Junho de 2009
 
 A. Palhinha Machado

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