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A bem da Nação

CRÓNICA DE MOÇAMBIQUE

 

HADZABE
O povo que a Humanidade ignorou
 
 
 
A pré-história começou pela recolecção e caça
 
A humanidade evoluiu. O progresso apagou as marcas do tempo. A inteligência humana reinventou o mundo. Mundo novo. Mas o progresso não matou os traços da ancestralidade. Bosquímanos, Sun do Kalahari e Pigmeus da África Central. Com maior ou menor propensão mantêm seus hábitos. Fazem da natureza seu único e ideal habitat. Nomadismo. Caça e recolecção.
 
Muito poucas pessoas terão ouvido falar do grupo étnico Hadzabe, eventualmente, a tribo mais primitiva do planeta. Mais desconhecida. Em 1978 eram pouco menos de 1000. Vivem como a humanidade os fez há milhões de anos. Pré-história.
Desconhecidos pelo mundo e até pouco conhecidos no seu país. Como foi que o mundo os renegou?
 
Os Hadzabe constituem um dos vários grupos étnicos da Tanzânia, país irmão, berço de lutas de libertação no sul do continente africano. Vivem no nordeste da Tanzânia, província de Manyara. A região é famosa pela abundante fauna selvagem. Pelos parques nacionais Taranguire, Manyara e a zona de conservação de Ngorongoro (cratera) e ainda as planícies do Serengueti.
 
Mas é próximo do lago Eyasi que as últimas bolsas dos Hadzabe podem, ainda, ser encontradas. Bem próximo deste local, antropólogos britânicos, nos anos 60, descobriram fósseis de hominídeos que, de alguma maneira, comprovam as teorias sobre a África como berço da humanidade.
 
Ouvi falar nos Hazabe, pela primeira vez, em 2004. Estudantes do Colégio de Mweka falaram neles com misto de angústia, frustração e honra. Falaram da ancestralidade e pré-história que os tipificava. Um povo que se recusara à civilização, uma tribo que poderia sucumbir.
 
Caçadores e recolectores natos, os Hadzabe sobrevivem de frutos silvestres, de mel e de carne de caça. Para eles o mundo foi criado pelo Sol e pela Lua. O Sol permite que eles localizem suas presas. A Lua, que os ajuda a sonhar e a dar-lhes sorte na
caçada.
 
A caça é uma actividade essencialmente masculina. Caçam de tudo, mamíferos de grande, médio e pequeno porte. Caçam, sem piedade, outros predadores. Nada escapa! Tamanha ferocidade daria para entender como o ser humano se transformou no maior e mais temível predador do planeta. A par da caça colectam mel. Os Hadzabe sobem árvores para tirar mel ou caçar com a mesma mestria e facilidade com que qualquer primata o faria. As mulheres, para além de cuidarem dos filhos, são exímias a escavar raízes. Destas escavações retiram as calorias que os homens não conseguem trazer. Qualquer roedor teria inveja de as ver escavar e retirar das entranhas da terra as raízes do sustento. Todas as relações giram à volta da comida. Quando esta abunda, eles passam horas devorando, sem qualquer outra preocupação, tudo que a mãe natureza generosamente oferece.
 
Vida feita de comes e comes
 
Pessoas de invejável e tremendo apetite. Pessoas de estatura baixa se comparados com a média, pele escurecida pelos banhos forçados de sol, corpos franzinos. É impossível descortinar, por entre poupada roupa, reservas calóricas ou banha. Nómadas, sobrevivem no meio da selva, sem casas, tendas ou abrigos. Apenas a sombra das árvores. Em épocas de chuva refugiam-se em cavernas. Sem pertences, seus parcos haveres viajam com eles o tempo inteiro. Restos de ferro, uma pedra para afiar lanças e muitos tendões de girafa para fazer os arcos. Flechas e arcos são o cartão de identidade.
 
Com a ajuda de estudantes e professores do Mweka College, Tanzânia, travei contacto com os Hadzabe. Conversa longa e sofrida. Por vezes com tradução directa para Kishwaili. Outras só do Kidzabe, sua língua, para nenhuma outra. Falamos de como o falecido presidente Nyerere teria ordenado a construção de casas para os Hadzabe. Vã tentativa de os persuadir a mudar de vida e hábitos.
 
Mwalimo Nyerere, sem nunca os ter forçado, quis trazê-los, a qualquer preço, de volta ao mundo. Permaneceram nessas casas tão somente enquanto houve comida no seu interior. Assim que esta terminou, eles seguiram seu caminho e nunca mais regressaram. A Tanzânia falhara na missão.
 
Com os Masai, tribo conhecidíssima pelo semi-nomadismo, pastorícia e habilidade com a qual criam milhares de cabeças de gado, a história havia sido diferente.
Kidzabe é sua língua e, diga-se, dificílima de falar. Kidzabe é feita à base de clicks e estalidos, mímica e assobios. Tudo associado à sua sobrevivência e economia.
 
 
 
Caça
 
Assume-se que o ser humano tem a possibilidade de reproduzir aproximadamente 153 diferentes sons, em praticamente todas as línguas conhecidas. Os Hadzabe, por si sós, possuem até cerca de 145 sons distintos.
 
Kidzabe imita sons de animais, de pássaros. Tudo para confundir e não espantar a presa. A mímica é ordem de comando. Existem semelhanças entre as línguas dos
Bosquímanos e dos Sun. Aliás, os testes de DNA comprovam similaridades genéticas. Não admira, pois, uma intrínseca relação entre estas tribos. Nem admira que a caça tenha determinado a linguagem humana.
 
Aos irmãos Djequera e Sariboco Dufu perguntei como lidavam com a morte. Onde enterravam seus cadáveres. Os Hadzabe não acreditam que exista algo para lá da morte. A vida termina. Os cadáveres são cobertos com folhas. Depois é feita uma caçada. O animal morto é colocado junto ao cadáver. Não tardará que as hienas se sintam atraídas pelo cheiro. Estes vorazes predadores se encarregam, então, de finalizar o animal e o cadáver humano. Morte gerando e mantendo a vida. Por esta razão a hiena é o único animal que não é caçado pelos Hadzabe.
 
Conversamos sobre as técnicas de caça. Dos venenos colocados nas extremidades de suas lanças. Veneno extraído de plantas. Basta, então, explicavam, que a lança atinja a presa. Não importa a gravidade. O animal morrerá passados alguns minutos. O grupo de caçadores subsequentemente segue os rastos. Contam com a orientação dos abutres. A carne envenenada não constituía perigo para seu próprio consumo. O fogo, feito à mão e na hora, reduz a vitalidade do veneno. Satisfaz o apetite do caçador.
 
Os Hadzabe são exímios conhecedores de plantas. As plantas são farmácias a céu aberto. Curam todo e mais algum sintoma. Na verdade, não consomem vegetais. Djequera Dufu, ele próprio, foi atacado de surpresa por um búfalo. De fractura exposta na perna direita, garante que as plantas o curaram. Mesmo a malária, que dizima milhões em sociedades civilizadas, parece não fazer vítimas entre os
Hadzabe.
 
Amantes incondicionais da liberdade, os Hadzabe partilham tudo dentro do seu grupo. Viajam em grupos de quatro a cinco famílias. Nem parece. Para além de parentes consanguíneos, os grupos hospedam jovens caçadores de outras famílias.
Acreditam em amuletos. Absolutamente todos usam colares e são vacinados para se prevenirem das mordeduras de cobras e de outros animais. Não existem, porém, doutrinas ou religiões no seu seio.
 
Sol e Lua. Vento
 
Quando venta não se pode caçar. Os cheiros e odores são perceptíveis pela presa. Nem mesmo as relações matrimoniais são efémeras. Os Hadzabe respeitam suas famílias mas não se prendem à mesma mulher quando acham que atingiram níveis de saturação.
Quando a primeira mulher envelhece é substituída por uma mais nova. Duas mulheres em simultâneo é raro. Difícil de gerir. Mas acontece. O contacto ocasional com outros grupos étnicos colocou-os próximo do álcool e tabaco comercial. Álcool e cigarro converteram-se em presentes de luxo. Assim são feitas as aproximações.
 
Novas amizades
 
Hadzabe, como família, alucinados tentam compreender o dito mundo. Consomem o quanto seus corpos toleram. Por que razão os Hadzabe terão sido, aparentemente, esquecidos pela humanidade? Porque seu desenvolvimento não acompanhou a civilização e outras etnias? Não deve existir resposta. Não foi vontade divina. Assume-se que, pelo facto de viverem em zonas infestadas pela mosca tsé-tsé, próximo dos parques nacionais, foi evitado o estabelecimento de comunidades sedentárias, de pastores ou agricultores. A abundância de carne de caça, nesses parques bem preservados, manteve níveis de dieta e conforto razoáveis.
 
O sentido de liberdade e independência de sistemas também pode ser equacionado. A política de tolerância ilimitada dos tanzanianos, nas relações inter-tribais, também facilitou a permanência na selva.
 
O ideal de qualquer Hadzabe é a caça. Virar caçador. Aprender todas as técnicas de seus progenitores. Isso só se aprende na selva.
 
O presidente Kikwete, à semelhança de Nyerere, quer alterar a situação. Sabe-se de antemão que o recurso à força não surtirá efeito. Terão que ser usados incentivos diferentes. Algumas crianças Hadzabe estão sendo levadas para a escola.
Pode ser um primeiro passo. Afinal esta mudança terá de ocorrer. Os cenários mudaram. Com o aumento da população aumenta a pressão sobre o espaço vital dos Hadzabe. Interagem, mesmo sem querer, mais frequentemente com outras tribos.
 
Mas o mundo precisa de fazer muito mais pelos Hadzabe. Seus números reduzem-se a olhos vistos. Podem mesmo estar em vias de extinção. Os paradoxos do mundo e da civilização encontram nos Hadzabe campo fértil para os questionamentos. Como pode a humanidade ir para Marte e para Lua, fazer cirurgias laser, viver na luxúria e esquecer-se, bem do seu lado, que outro ser humano é pré-histórico?
 
 Jorge Ferrão
Reitor da Universidade Lúrio, Nampula, Moçambique

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