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A bem da Nação

HERÓIS DE CÁ - 7

TOMÁS DA FONSECA - III

 

 cm-mortagua.pt

Busto de Tomás da Fonseca

frente à Câmara Municipal de Mortágua

 

 

Recordações de Tomás da Fonseca
 
Caro Henrique
No escorço biográfico sobre a figura de teu avô - Tomás da Fonseca - apontaste a erudição e a afabilidade como aspectos dominantes da sua personalidade. Frisaste assim as facetas que o tornavam imediatamente estimado. Porém, a sua personalidade era tão rica que poderias ter continuado a adjectivação por muito mais tempo. 
 
O que eu sempre admirei nele foi o amor à verdade; a disposição infatigável e heróica de combater sistematicamente a mentira, sob toda e qualquer forma como esta se apresentasse. E fazia-o sozinho. Tal atitude e tamanho zelo chamava-os ele a si e não os impunha como obrigação aos outros. Sabia melhor do que ninguém a que penas e tormentos os cultores da verdade se sujeitam. Lembro, a propósito, que no dia do meu casamento com a sua neta Maria me chamou de parte e indagou:
- Luís, tens uma quinta?  
- Não.
– Então não te esqueças deste meu conselho. Neste país só pode ter opinião quem tem uma quinta que lhe garanta o sustento próprio e dos seus.
E assim pôs-me à vontade.
 
+++
 
O conhecimento que travou com Guerra Junqueiro no último Verão antes de acabar o curso no Seminário teve decisiva influência na sua formação e na orientação que viria a dar à sua vida. O poeta era adepto incondicional do cientismo histórico de Ernesto Renan que incutiu no espírito do seu jovem discípulo. Tudo isto se passou em 1908. Tomás da Fonseca optou por não continuar os estudos no Seminário e dar curso à sua aspiração de acabar o com obscurantismo que “mantinha o povo português, escravo duma cultura exausta, cheio de fome, privado de liberdade, fanatizado, inconsciente e miserável”. Vê-se assim precocemente metido nas andanças do republicanismo e fá-lo sobretudo para levar a educação ao povo dos campos. Começou a dar forma a este seu empenho logo junto dos pastores que apascentavam os rebanhos de seu pai, lá pelos altos do Caramulo. Foi em atenção a eles que escreveu os “Sermões da Montanha”.
 
Cedo, porém, transferiu-se para Lisboa para dar curso a acções de muito maior envergadura, agora em colaboração com os primeiros governos do novo regime republicano. E neste afã empregou o melhor da sua juventude. O 28 de Maio de 1926 viria mais tarde marginalizá-lo na política. Não desistiu porém da luta. Recorreu à palavra: - escrevia livros e assim continuava o seu magistério moral.
 
A resposta calorosa que obteve tanto em Portugal como entre os emigrados portugueses no Brasil mostra que Tomás da Fonseca conhecia bem a pureza e seriedade da alma do povo português.
 
+++
 
Sempre achei curioso que enquanto combatia o obscurantismo confessional, Tomás da Fonseca não se esquecia que a mente humana não dispensa mitos. Um dia, na sua casa-biblioteca, em Mortágua, levou-me a ver a colecção de Bíblias, “provavelmente a maior do país”. Já não me lembro do número de exemplares que tinha reunido mas tenho ainda presente o espectáculo de prateleiras e prateleiras recheadas com edições das sagradas escrituras feitas em todas as épocas e nas mais variadas línguas. Tomás da Fonseca olhava-as com enlevo.
 
+++
 
A par de uma cultura vastíssima, Tomás da Fonseca era praticante e defensor da vida sã e simples. Muito antes de ser moda, já ele se empenhara de alma e coração na luta contra o tabagismo, – outra actividade que, no tempo, lhe granjeou a hostilidade dos poderosos.
 
Sabia também que a liberdade exige frugalidade. Evitava o luxo – e até o conforto – para não cair na armadilha. E assim permaneceu toda a sua vida: - simples, austero e livre. Era trabalhador incansável mas nunca se furtou ao convívio jovial e frequente com os amigos que tinha por toda a parte. E assim nos alegrou a vida.
 
Foi sorte, muita sorte, tê-lo conhecido.
 
24 de Maio de 2009
General Domingos de Oliveira - A bem da Nação Luís Soares de Oliveira
 
 
P.S.
Guardo comigo um exemplar dos “Inéditos de Gusmão”, impresso no Porto, em 1841, que o teu avô me ofereceu. É um documento notável que nos revela El-Rei D. João V visto e descrito pelo seu Escrivão da Puridade, no melhor estilo picaresco. Se um dia tiveres espaço no teu blogue, poder-se-ia nele reproduzir algumas das melhores passagens do livro.
 

 

 

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