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A bem da Nação

ACADEMIA GALEGA DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

 

 

 

 
DISCURSO NA SESSÃO INTER-ACADÉMICA NA
ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA
 
José Martinho Montero Santalha
Presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa
http://www.aglp.net
info@aglp.net
 
 
 
Em nome da Academia Galega da Língua Portuguesa, que tenho a honra de representar neste acto, queria começar agradecendo à Academia das Ciências de Lisboa o convite a participar nesta sessão inter-académica, e nomeadamente ao Prof. Artur Anselmo, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia.
 
A «Academia Galega da Língua Portuguesa» constituiu-se no passado ano 2008 em Santiago de Compostela. E sente-se altamente honrada de ser acolhida aqui de maneira tão cordial, como uma irmã mais nova que começa a dar os seus primeiros passos, quase sem outros méritos que a esperança que a move e a sua entrega à causa da língua comum.
 
É uma entidade surgida da iniciativa privada e define-se a si mesma como instituição científica e cultural, que tem como fins fundamentais o estudo e a promoção da língua da Galiza, entendida como uma modalidade do idioma que no mundo se conhece como «língua portuguesa»: uma iniciativa que nasce com modéstia mas também com generosa vontade de trabalhar pela nossa cultura e nomeadamente pela nossa língua, e com o propósito de reger-se pela atitude científica e pelo rigoroso amor à verdade.
 
A ideia de criar uma Academia Galega da Língua Portuguesa procede do professor Carvalho Calero, e é oportuno lembrarmos aqui o seu nome, porque ele teve a honra de estar ligado a esta Academia das Ciências que tão generosamente nos acolhe na sua casa. Foi Carvalho Calero o primeiro que, já na década dos oitenta do passado século, formulou a necessidade de constituir uma Academia Galega que, tanto na sua concepção como na sua prática, mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa. A AGLP surge assim com o desejo e com a esperança de ser e aparecer – especialmente perante o resto do mundo lusófono mas também perante o resto do mundo todo – como um estandarte do carácter lusófono da Galiza e da sua pertença à Lusofonia, e isso já desde o seu próprio nome.
 
Doravante a Lusofonia tem na Galiza uma instituição com quem poder contar para a colaboração em todos os assuntos de língua, em representação (que não pretende possuir nenhuma exclusividade) da cultura galega mais genuína.
 
A GALIZA, UM PAÍS LUSÓFONO
 
A Galiza é um país de língua portuguesa, um país lusófono: embora muitos dos demais lusófonos o ignorem, fala uma forma de português que os galegos denominamos por vezes «galego» ou mesmo «língua galega», e este factor linguístico é, ademais, o principal sinal de identidade colectiva da Galiza como povo diferenciado dentro do Estado Espanhol, no qual se integra como comunidade autónoma, dotada de governo próprio e de amplas competências políticas em diversos campos.
 
É verdade que a maioria dos lusófonos nem sequer sabe que a Galiza é um país lusófono. Os próprios meios de comunicação lusófonos, mesmo os de Portugal, não costumam considerar os galegos como irmãos de língua, mas, simplesmente como “espanhóis”. Muitos portugueses que visitam a Galiza, vão ali como se fossem a qualquer outra região da Espanha, e para entenderem-se com os galegos esforçam-se por falar castelhano.
 
Algo similar, de resto, acontece também entre a gente comum da Galiza: embora todos sintam uma certa comunidade afectiva com Portugal, normalmente falarão castelhano tanto quando visitem Portugal como quando na própria Galiza se encontrem com visitantes lusófonos. Ora, esta situação vem provocada pela falta de comunicação ao longo dos séculos e pela escassa informação no tempo presente. E deve-se certamente também a essa falta de informação que não seja mais intenso o interesse e o sentimento de solidariedade dos demais falantes de português para com a Galiza, se exceptuarmos uma minoria de estudiosos – felizmente crescente de ano em ano.
 
O português da Galiza: uma situação paradoxal
 
A situação que apresenta a língua portuguesa na Galiza é paradoxal.
 
Por um lado, a língua portuguesa debate-se ali entre grandes dificuldades, até o ponto de que a sua própria sobrevivência se nos apresenta incerta. Mas, por outro lado, a Galiza encerra ainda uma parte do mais autêntico tesouro do idioma, vivo não só na sua tradição literária e popular mas também na fala habitual de muitos galegos, como consequência do facto de ser a língua «nativa» do território, ou, como diz o nosso Estatuto de Autonomia, «a língua própria».
 
As causas que determinam a situação presente do português da Galiza compendiam-se numa: a nossa história plurissecular de dependência com respeito à Espanha, que teve uma consequência no terreno linguístico - o espanhol, apesar de ser originariamente uma língua estrangeira no território galego, foi a única oficial da Galiza durante séculos e até há poucos anos; agora é co-oficial juntamente com o português da Galiza, mas continua gozando, de facto, com muitas vantagens sobre a língua nativa.
 
Uma história tão longa explica a complexa situação linguística da Galiza e que para muitos lusófonos se torne dificilmente compreensível. Factores concretos de desorientação são fundamentalmente dois: por um lado, o predomínio linguístico espanhol (não só no uso falado mas também no sistema ortográfico que se vem empregando mais comummente), e, por outro lado, nos últimos anos a tentativa, por parte dalguns galegos, de “independizar” do português a língua da Galiza, com a pretensão de fazer dela uma língua distinta.
 
Apesar de todos os condicionalismos históricos que propiciavam o obscurecimento da unidade linguística galaico-portuguesa, na cultura galega existiu sempre uma parte muito qualificada, e até maioritária, que mantinha a consciência da identidade lusófona da Galiza, em consonância aliás com o que afirmavam os grandes mestres da Filologia Românica: desde o Padre Feijoo no século XVIII, passando por grandes vultos da nossa cultura como Manuel Murguia, Castelao, Guerra da Cal ou Carvalho Calero, até aos dias de hoje, em que mantêm essa consciência muitos galegos, de todas as ideologias e de todas as classes sociais.
 
A consciência da Galiza em Portugal
 
Felizmente, também no mundo lusófono não faltaram, nos tempos modernos, testemunhos da consciência de que a Galiza fazia parte da “casa comum” linguística.
 
Primeiramente, nos filólogos. Baste-nos lembrar, entre outros, os nomes de Leite de Vasconcelos, Lindley Cintra ou Celso Cunha (para citarmos só pessoas falecidas), que incluíram, de pleno direito, o território galego na área de língua portuguesa, como uma forma mais de português.
 
Também no terreno literário as produções modernas dos escritores galegos foram consideradas repetidamente como parte das literaturas de língua portuguesa. Já o fez Teófilo Braga em 1877 incluindo vários poetas galegos contemporâneos, ao lado dos portugueses e brasileiros, na sua antologia de poetas em língua portuguesa que intitulou Parnaso Português Moderno.
 
Com alcance geral, Jacinto do Prado Coelho incluiu a literatura galega, em plano de igualdade junto com a portuguesa e a brasileira, no seu grande Dicionário de Literatura, fazendo notar a presença galega até no mesmo título da obra: Dicionário de Literatura: Literatura portuguesa, Literatura brasileira, Literatura galega, Estilística literária.
 
E é bem conhecida a longa entrega de Rodrigues Lapa à causa da cultura galega e à defesa da pertença do território galego ao mundo lusófono. O grande mestre não ficou só em afirmações teóricas, mas procurou reflectir a unidade linguística também na prática. Assim, na sua popular Estilística da língua portuguesa aduziu abundantes exemplos literários de autores galegos, considerando-os membros de pleno direito da literatura em português.
 
O léxico galego
 
O «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)» significou, em certa medida, a acolhida ao português galego por parte da restante comunidade lusófona. Uma delegação galega participou nesse acordo (como também, pouco antes, no Acordo do Rio de 1986), e foi essa a primeira vez em que isso acontecia, dado que, por razões diversas, quase sempre de ordem política, nos acordo ortográficos anteriores da língua portuguesa a voz da Galiza estivera totalmente ausente.
 
No texto do Acordo está prevista, como é sabido, a elaboração do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa.
 
Com o intuito de realizar essa tarefa para a área galega, como um primeiro passo, a Academia Galega da Língua Portuguesa elaborou uma escolha de particularismos lexicais galegos que propõe para serem integrados no Vocabulário Ortográfico Comum (e com a esperança de que, no futuro, se integrem também nos dicionários da língua comum).
 
Em geral, os vocábulos propostos não figuram nos mais comuns dicionários gerais publicados em Portugal e no Brasil. Como referência fundamental tomamos o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea desta Academia das Ciências de Lisboa, coordenado pelo académico João MalacaCasteleiro.
 
Cumpre advertirmos, no entanto, que, dadas as especiais circunstâncias sociais em que a língua se vem desenvolvendo na Galiza, esse contributo lexical não pode deixar de ser provisório: não todos os vocábulos apresentados possuem a mesma legitimidade; no entanto, são vocábulos que, por serem de uso corrente na actualidade quer na fala habitual quer na escrita literária, podem ser considerados característicos da variante nortenha do português europeu e, portanto, com direito a constarem no Vocabulário Ortográfico Comum e nos dicionários gerais.
 
Concluo agradecendo mais uma vez esta acolhida à voz da Galiza. Agora talvez mais que nunca, os galegos que temos como idioma materno o português sentimo-nos acolhidos pelos nossos irmãos de língua no lar comum. E, para o futuro, alimentamos a esperança de que, sejam quais forem as circunstâncias político-culturais em que os nossos países se encontrarem, entre todos saibamos achar caminhos e instrumentos que permitam articular essa irmandade superior que é a língua, o que para a Galiza implicará uma participação plena e permanente na comunidade lusófona.
 
Muito obrigado.
 
Lisboa, 14 de Abril de 2009
 
 José Martinho Montero Santalha
Presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa
http://www.aglp.net
info@aglp.net

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