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A bem da Nação

O NICHO

 

         
                                                Torta de Amoras
 
A propósito de uma crónica da minha amiga Margarida Mascarenhas, respondi-lhe que uns comem poeticamente amoras e outros entram em cheio na presente quadra das cerejas, como ora acontece, com grande delícia minha e da Idalina, minha mulher. Mas amoras temo-las também num vasto quintal anexado a uma antiga casa sita nas traseiras do nosso prédio, complexo que foi posto à venda mas ainda resistindo heroicamente ao betão mais moderno e edificador. Esse quintal é um precioso nicho ecológico onde os melros predominam por entre outros seres alados que ali habitam. Coisa rara e preciosa, um repouso restaurador dos olhos e da mente ao fim de um dia de canseira ou de ócio inexplicavelmente desgastante. O dono, um velhote de cabelo branco como a neve, tinha nesse espaço um universo concentracionário, onde fazia a contabilidade diária das suas predilecções, dos seus devaneios e dos seus sonhos antigos. A idade já avançada não o tolhia de modo algum, cavava, semeava, regava, podava, quando não ficava horas seguidas a olhar, embevecido, para os pássaros, os seus e outros que ali pousam e trazem alvíssaras de outras terras. Apercebi-me de que esses animais não se intimidavam com aquela presença humana, antes pelo contrário pareciam cada vez mais atraídos para o lugar, certamente descobrindo encantamentos que escapam aos nossos sentidos. Os melros e outros pássaros passaram a ser tantos que uma verdadeira orquestra ali se instalou com todos os aparatos, dando um espectáculo de sonho todas as primaveras.
 
MELRO PRETO"MACHO"(Turdus merula)
 
Estacionava o meu carro ali perto, e sempre que calhava dava dois dedos de conversa ao senhor Pina, também um apaixonado pela caça e pela pesca fluvial, pelo que os seus cães eram outros companheiros inseparáveis e amistosamente rodopiantes à sua volta. Ninguém lhe dava a idade que tinha, tal a agilidade com que subia às árvores ou manejava a ferramenta agrícola. Mas ele tanto se punha em trajos de circunstância para aquele lugar de reencontro consigo próprio, como se aperaltava com requintes burgueses para frequentar o Café Paraíso. Mas um dia verifiquei que o senhor Pina pareceu não me reconhecer quando lhe falei. Porém, os dias continuaram a fluir naquela rotina do homem feliz no seu recolhimento ecológico. Noutra ocasião, voltou a ter para comigo mais um procedimento incoerente, mostrando-se alheio ao fiozinho pessoal que eu também queria tecer naquele lugar com o meu espanto de citadino e o meu preito ao homem e à natureza. Depois desapareceu e não mais o voltei a ver.
 
Viria então a saber que lhe fora diagnosticada doença de Alzheimer e por isso internado num lar. Compreendi a razão por que me parecera que um qualquer invisível interruptor cortara a luz humana que iluminava aquele lugar. Não durou muito o seu internamento, pois a morte abreviou a injusta escuridão sentenciada a quem tanto amara a luz, a terra e os pássaros. Depois li no jornal da terra um poema em que uma neta recordava e homenageava a natureza solar do avô, a sua simplicidade, a sua bondade e a sua ternura para com todos os seres do planeta. Nessa altura, conhecendo eu a razão e o sentido das palavras ditas, perguntei-me se uma das nossas grandes angústias não é uma fugaz ilusão da intemporalidade em que a ambivalência das nossas sensações nos faz cair.
 
Contudo, os melros devem sentir uma qualquer convergência entre o princípio e o fim do tempo, o desperdício de inúteis contagens de nascentes e poentes que se sucedem. Continuam a embevecer-nos todos os anos com o seu canto pletórico, num palco já não enfeitado à maneira do senhor Pina, mas entregue à entropia a que pertencem os bichos e as plantas. Não posso dizer ao certo, mas é possível que eles sintam a falta do olhar manso e apaziguador daquele ser que se comportava com a mesma solícita naturalidade das oliveiras em que pousavam o seu cansaço. E vem a propósito recordar as seguintes palavras de Proust: “Quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício da recordação”.
 
Quanto às amoras, todos os anos, na época própria, pendem sobranceiras e carregadas de viço sobre a vedação que envolve o nicho. Antigamente, a Idalina colhia uma mancheia delas quando ali passava entre o estacionamento do carro e a casa. Mas mais quando o senhor Pina reinava no lugar. Contudo, a sua presença física ou a sua ausência definitiva na nossa memória pertencerá àquela dimensão incapturável do inconsciente, onde as lacunas só são transferíveis para a poesia. Resta-me rezar pela sua alma e também para que não nos roubem este cantinho ecológico.
                    
                             
                                
 Tomar, Maio de 2009
 
                             
     Adriano Miranda Lima
 

 

 
 
 
 
 

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