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A bem da Nação

A INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ POTUGUESA PODIA TER SIDO DIFERENTE?

 

II
Mas, conforme nos relembra, na tão aguardada comunicação ao país proferida em 12 de Agosto de 1963, Salazar roeu a corda e teve estas palavras, dirigidas aos portugueses, à UNGP e a Senghor, à África e ao mundo: “Que todos o saibam – em nenhum momento e sob que pretexto, jamais parcela alguma do território nacional e nenhuma parte da soberania nacional serão alienadas”. A leitura dos factos narrados induz-nos a pensar que a Missão foi completamente apanhada de surpresa com o discurso de Salazar. No mínimo, é de estranhar que o Presidente do Conselho não tenha alertado previamente a Missão por si enviada com um determinado objectivo politico-diplomático. Provavelmente, não o fez porque a mudança de opinião ocorreu à última hora ou mesmo em cima do seu discurso, conforme deduz o autor. Em todo o caso, se pensarmos que teria bastado um telefonema ou telegrama, parece algo inverosímil que o chefe da Missão, um Secretário de Estado, e o próprio Governador da Colónia, ele também envolvido e apoiante do processo, não tivessem sido prevenidos.
 
António de Oliveira Salazar
(1889 — 1970)
 
O autor não tem explicação para o volte-face havido e não adianta pistas que pudessem ter transpirado dos círculos de decisão mais próximos de Salazar. Apenas hipóteses e, sobre estas, podemos também especular. Salazar foi, à última hora, assaltado por pruridos do absoluto das suas convicções pessoais ou da infalibilidade do seu faro político? O seu sexto sentido veio ao de cima depois de sopesar conselhos e opiniões dos seus colaboradores e, quiçá, dos tubarões do regime? Sobre isto, transcreve-se o que diz o autor: “ O embaixador José Manuel Fragoso (Director Político) não pôde esquivar-se de chamar a atenção do Presidente do Conselho, na derradeira reunião antes da nossa partida para Bissau, para o facto de que, ao partirmos ao encontro de Benjamim Pinto Bull e de Umaro Gano e da delegação da UNGP, estávamos a pôr o pé num escorregadio plano inclinado.” Logo a seguir, o autor também admite que se Salazar apenas tinha em mente consentir uma autonomia de fachada à Guiné, num flash repentino pode ter percebido que tal propósito seria difícil de concretizar com a qualidade das pessoas envolvidas no processo, desde logo o patrono Senghor e depois as personalidades guineenses que dirigiam a UNPG.  
 
Mas, enfim, Salazar pronunciou-se, preto no branco, sem margem para dúvidas. A Missão portuguesa regressou a casa, provavelmente confusa e sem saber o que pensar. Senghor e Pinto Bull perderam definitivamente as suas ilusões sobre uma solução pacífica para a independência da Guiné. E o PAIGC, que havia iniciado a luta armada em Janeiro desse ano de 1963, abria mais uma frente na guerra que só terminaria em 1974.
 
Podemos agora especular sobre até onde poderiam ter levado os ventos e as correntes da História, caso a solução UNGP tivesse vingado. Questiona-se se o sucesso de uma solução pacífica na Guiné iria desarmar a mão do PAIGC, diluindo este movimento na nova sociedade guineense, onde poderia, em princípio, disputar o poder em função da valia cívica dos seus dirigentes e elementos. No entanto, sobre isto algumas dúvidas legitimamente se colocam, atendendo ao prestígio que o PAIGC granjeara no contexto africano e não só, o que certamente lhe daria alento para se opor ao que apontaria como uma “autonomia de fachada”, mesmo que tivesse de lutar contra irmãos guineenses, no país emancipado. Mas também fica por saber se um eventual sucesso do processo guineense poderia ter repercussões positivas em Angola e evitar ainda o início da luta armada que eclodiria, em 1964, em Moçambique.
 
Mas vale a pena ler o livro de Gonzaga Ferreira, o homem que no terreno muito pugnou para uma autonomia pacífica da Guiné. É uma leitura que nos mostra que a diplomacia portuguesa em Dakar, na pessoa deste embaixador, falecido há poucos anos, não deixou os seus créditos por mãos alheias, agindo muitas vezes à revelia do poder oficial, ao deixar a pureza do coração humano invadir os cálculos frios da diplomacia. Ou não fosse este factor, o coração, que fez com que Portugal se misturasse com os mais diferentes povos e construísse um império, do qual resta ainda, e felizmente, uma comunidade de valores culturais e sentimentais que parecem imunes aos vírus da política e da história.
Tomar, 6 de Maio de 2008
 
Adriano Miranda Lima

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