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A bem da Nação

HERÓIS DE CÁ - 2

 

 A PRAÇA DOS INSUBMISSOS
 
 
Quando decidi alinhavar algumas ideias sobre a I República portuguesa (5 de Outubro de 1910 – 28 de Maio de 1926), pensei intitular o escrito de “A nave dos loucos” numa referência quase directa ao livro de Katherine Anne Porter mas depois lembrei-me de que “Um eléctrico chamado desejo”, plagiando Tennessee Williams, também não ficaria mal. Optei finalmente pela solução que ali está em cima por me parecer mais justa: dá cabimento a muita loucura e a muito desejo de todos aqueles insurgentes que já não suportavam o modelo tradicional da sociedade portuguesa, o da imóvel estratificação com uma mole de analfabetos ao serviço de relativamente pequena elite tão ociosa quanto possível.
 
Quebrado o statu quo por alguns fuzis barricados na Rotunda e por meia dúzia de tiros do meio do Tejo com mira assestada para as Necessidades e eis que do lado dos insubmissos há quem nem queira acreditar que a revolução triunfara com tão fraca resistência: o Almirante Cândido dos Reis suicida-se mas o Dr. Miguel Bombarda é assassinado; o suicídio do maníaco-depressivo (?) e o assassinato do psiquiatra.
 
E então, é assim: As revoluções são feitas pelos revolucionários – Monsieur de La Palisse não seria mais óbvio.
 
Insubmissos vangloriando a implantação da República
Lisboa, 5 de Outubro de 1910
 
O problema está em que nem todos os revolucionários pretendem revolucionar no mesmo sentido. A partir do momento que se quebra o padrão contra que lutaram conjuntamente, todos hão-de querer levar a sua ideia até ao fim para que um novo padrão se defina. E esse novo padrão tem que ser «o seu», pensa cada revolucionário.
 
É do confronto que sempre há entre os revolucionários que surge a velha expressão que afirma “as revoluções comem os seus próprios autores”. Sim, os que são «comidos» são os revolucionários que não conseguem impor o seu padrão aos demais companheiros no golpe de Estado que executaram em conjunto. Uma vez conquistado o Poder logo começa cada um a querer impor a sua vontade. Surgem as dissensões, as lutas, os golpes, os contra-golpes, o tiroteio, as mortes, o caos.
 
Um saco cheio de gatos não é um ambiente sereno e quem não queira ser arranhado mais vale que lá não meta a mão.
 
Então, vendo-os agora à distância de quase um século, percebe-se facilmente que esses revolucionários tentavam tudo para se tornarem na elite dominante que eles próprios tinham banido com a revolução que haviam feito. Não eram Duques nem Marqueses; nem sequer Condes, Viscondes ou Barões de título comprado ao Rei mas eram Doutores e assim esperavam ser tratados pelos circundantes. Sim, já nessa época o que valia era o título e quem o tinha não prescindia do respectivo tratamento. Afinal, ambição de destaque exactamente igual à que criticavam nos do tempo da Monarquia.
 
Mas o modelo agora era diferente pois não havia um Vértice (antes, o Rei) que definisse a escala dos valores; na República, o novo padrão (a nova escala dos valores) tinha que ser construído. E essa era uma luta que todos travavam contra todos apoiando-se em sociedades mais ou menos secretas (p.ex. a Maçonaria), em organizações mais ou menos revolucionárias (p. ex. a Carbonária), com maior ou menor solidariedade intrínseca, com mais ou menos vingança pistoleira pelas confianças traídas.
 
E afinal, nem mesmo à custa de alguns assassinatos (bastaria um para que fosse demais) a I República portuguesa conseguiu definir um padrão. Os gatos assanhavam-se por tudo e por nada, mais com o objectivo de denegrirem o próximo do que para tratarem das questões nacionais para que eram eleitos. Todos tinham como objectivo permanente o derrube do Governo, fosse ele qual fosse. Para quê? Para se porem nos bicos dos pés, darem nas vistas, receberem ovações dos correligionários e babarem-se de vaidade.
 
Em tudo igual às Cortes antes da revolução apenas mudando alguns intervenientes.
 
Mas houve republicanos convictos que não se deixaram envolver nesta teatralidade balofa e que, afastando-se, se dedicaram ao que consideravam imprescindível. Foi o caso do meu Avô, Tomás da Fonseca, que deixou os tribunos a insultarem-se mutuamente e se empenhou no combate ao analfabetismo.
 
Sobre ele escreverei mais logo...
 
Lisboa, Abril de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca

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