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A bem da Nação

HERÓIS DE CÁ - 1

A RALÉ DOS BISONHOS 

 
 
Em 1910, Portugal tinha uma taxa de analfabetismo adulto (1) que rondava os 90%; os restantes 10% eram maioritariamente constituidos por padres, freiras e militares. Ou seja, eramos um país em que imperava a boçalidade, o pé-descalço; não passávamos de uma ralé de bisonhos tementes da ira divina ou do castigo temporal exercido pelos Padres de aldeia em função de um código que o povo não entendia facilmente (2).
 
Ficava quem se submetesse, emigravam os insubmissos. Por alguma razão, dentre todos os europeus, fomos os primeiros a fazer um Império e os últimos a desfazê-lo. Mas também houve insubmissos que ficaram; a muitos destes se lhes chamou revolucionários.
 

Os insubmissos emigravam

 

Ser-se revolucionário significa possuir um raciocínio especulativo, não aceitar o dogma. E este tanto pode ser de índole religiosa como meramente social: o que se baseia na Fé; o do statu quo. E não há incompatibilidades nem qualquer relação biunívoca entre estes dois tipos de dogmas: pode-se aceitar o dogma religioso e ter um pensamento social crítico; pode-se ser ateu e socialmente enquadrado; pode-se ser totalmente revolucionário. Quem for totalmente acrítico, dogmático, não é revolucionário.
 
Perante a debilíssima rede escolar então existente, quem vivesse fora dos grandes centros urbanos e quisesse estudar para progredir socialmente, tinha que recorrer aos Seminários ou à carreira das armas. Os insubmissos que optassem pela via religiosa não tomavam ordens; os que optassem pela vida militar assumiam ipso factu um estilo de vida com enormes conveniências sociais nomeadamente um enquadramento institucional praticamente ímpar no resto do país. Eis como o Clero se manteve imune a insubmissos; eis como no Exército e na Marinha apareceram muitos revolucionários cuja insubmissão só ia sendo controlada pela rígida disciplina militar.
 
Este, o Portugal dos finais da monarquia: uma elite politicamente dominante encabeçada pelo Rei conjugada com um Clero socialmente dominante, conjugação esta apoiada num Exército destinado à contenção dos revolucionários, estes também manipuladores da ralé dos bisonhos.
 
Entre os finais do séc. XIX e os princípios do séc. XX, os revolucionários portugueses – tanto civis como militares – eram quase todos republicanos e no dia 5 de Outubro de 1910 saiu vencedora com relativa facilidade a República que destronou D. Manuel II, o último Rei de Portugal.
 
Posto o statu quo em causa, abrem-se as portas aos desencontros, ao desequilíbrio, ao tiroteio. Essa a tónica da nossa I República, arena livre dos insubmissos, calvário de muitos portugueses honrados e também ela canhão para a carne de muitos bisonhos.
 
Neste cenário se cruzaram personalidades magníficas aparentemente em posições antagónicas mas, na essência, com um mesmo objectivo: o bem de Portugal.
 
A eles me referirei mais logo…
 
Lisboa, Abril de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca
 


(1) - Analfabetismo estatístico – actualmente, a definição corresponde ao maior de 14 anos de idade que não sabe ler nem escrever; no tempo do Doutor Salazar, se o adulto (maior de 21 anos) soubesse assinar («desenhar» o nome) não era considerado analfabeto; antes do consulado salazarista, maiores de 21 anos de idade que não soubessem ler nem escrever
(2) - Com a vitória do liberalismo, os Senhores locais deixaram de exercer o poder judicial em nome do Rei

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