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A bem da Nação

POR QUE RAZÃO PORTUGAL QUASE NÃO TEM MARINHA – II

 

Apesar disto em 1974 estávamos em plena expansão particularmente a Nacional e a Insulana, tínhamos cerca de 185 navios, mas a revolução de Abril ao fim de poucos anos destruindo as empresas privadas e introduzindo na nossa vida económica preconceitos políticos iniciou a ruína da nossa marinha cujo golpe de misericórdia seria dado na década de 85-95.
 
Hoje temos uma marinha mercante residual, uma marinha de recreio incipiente, uma Armada com enormes dificuldades resultantes desta situação e com que perspectivas?
 
Mas antes de prosseguirmos vejamos num ápice o que é de facto uma Marinha.
 
É o conjunto de frotas de transporte marítimo de todos os tipos, de pesca, de recreio, de formação, de hotelaria, de investigação científica, de defesa e de todas as actividades que se processando no mar, nos rios e nos lagos exigem a colaboração de autoridades públicas, de empresas e de cidadãos quer como tripulantes e colaboradores quer como clientes quer ainda como eleitores que com o seu voto decidem quem nos governa.
 
Ao fim e ao cabo o que na nova moda se chama o cluster do mar e que os portugueses tinham nos finais do século XV, naturalmente adaptado à época.
 
Quando observamos a nossa história podemos afirmar que nunca fomos um país de marinheiros mas sim um país que algumas vezes usou marinheiros para atingir alguns objectivos que implicavam navegar. Mas as nossas populações na sua maioria nunca deram provas de gostar de navegar, excepto as povoações piscatórias que representavam uma percentagem pequena (excepção para os Reis D. Luís e D. Carlos) e agora o gosto pelo mar costuma ser consubstanciado com a construção de restaurantes à beira mar em vez de locais onde se possam ter embarcações e com a compra de motos de água.
Mas além de não termos populações com interesse concreto pela marinha também nos faltam empresários em geral, e em particular como tem sido fatal para as actividades marítimas.
 
Para que haja empresas nesta actividade são indispensáveis dois vectores que se interliguem eficazmente a saber: o Estado principalmente como regulador e estimulador, eventualmente como investidor para cumprir obrigações de carácter público, e empresários privados que naturalmente exigem enquadramentos que lhes permitam ter a competitividade necessária e suficiente para terem êxito perante os concorrentes internacionais, pois esta é uma actividade global sujeita ás leis dos mercados globais.
 
A situação em Portugal é em resumo assim: temos enquadramentos estatais deficientes e ineficazes e embora algumas instituições como esta sociedade [de Geografia de Lisboa] e a Academia de Marinha tenham desde há muitos anos pugnado pela devidas correcções a fazer, nada tem acontecido excepto livros de várias cores, discursos, criação de comissões sem qualquer resultado prático.
 
Os contributos de vários organismos para o desenvolvimento do País, como os da Ordem dos Engenheiros, da CIP, de grupos “revolucionários” de empresários nada adiantam quanto a actividades marítimas. As cadeias hoteleiras de maior porte não entendem a importância que tem a ligação a cadeias de navios de cruzeiros para o seu negócio e continuamos a perder oportunidades como a da Taça da América por não percebermos o peso da navegação de recreio como factor económico além do educativo, que em Valência originou a criação de cerca de 18000 empregos.
 
E porquê, quando em 1974 parecia estarmos a acelerar estas actividades?
 
A explicação que defendo como mais plausível é de ordem cultural e política. Com efeito após a revolução dos cravos gerou-se um movimento de origem esquerdista mas que depressa alastrou a todos os sectores da vida portuguesa: o colonialismo era o vilão máximo e a Marinha tinha sido durante séculos o instrumento dessa desgraça. Portanto tinha que ser reduzida à expressão mínima ainda por cima havendo interesses coincidentes de intermediários com grande influência política que preferiam a fraqueza dos sectores produtivos em favor das facilidades dadas à intermediação tanto na marinha mercante como nas pescas o que explica as políticas seguidas nestes últimos 30 anos.
 
A própria Armada foi atacada por este vírus embora ainda seja o último baluarte desta resistência mas cada vez mais abalada pela falta de apoio da iniciativa privada que tem dado provas de também estar contaminada pela doença do imediatismo.
 
Com efeito, a juntar-se ao preconceito anti marinha veio a surgir como consequência da debilidade da nossa estrutura sócio-política o fenómeno do imediatismo, a que aliás estão sujeitas várias democracias, e que consiste na necessidade dos políticos terem apenas quatro anos como período fértil garantido para tirarem proveito da sua actuação.
Convém notar que a actividade económica numa democracia como a nossa se processa basicamente movida pelo binómio iniciativa do Estado (logo políticos) / iniciativa privada (logo empresários) dominada pela fraqueza empresarial que em vez de influenciar o Estado se encosta a ele para diminuir o risco e aumentar os lucros rapidamente.
 
O que conduz obviamente ao incremento de obras públicas muitas vezes desnecessárias mas sempre caras, de construção de habitações a mais e muito oneradas pelos processos de especulação, de construção de estádios de futebol etc., etc. e ainda por cima com a sobrecarga de uma Administração Pública –Central e Autárquica - a precisar de ser reorganizada em termos de operacionalidade e redução de custos em vez de se andar sempre a repisar a famigerada regionalização pois a maioria das autarquias não tem dimensão crítica para ser eficiente…
 
Tudo isto enfraquece o tecido produtivo reduzindo-lhe drasticamente a competitividade e ainda por cima desmotivando o investimento dos empresários em actividades como as marítimas que de forma alguma poderão dar tais resultados imediatos.
 
Se adicionarmos a tudo isto o facto de já não haver praticamente empresários com conhecimentos de “shipping”, ficamos com um retrato tremendamente pessimista da situação.
 
A menos que…alguma instituição como por exemplo esta sociedade [de Geografia de Lisboa] consiga interessar os media ou pelo menos alguns media dando origem a um movimento que contribua eficazmente, como nunca se conseguiu, para mudar a cultura nacional tal como já está a acontecer em alguns sectores.
 
1 de Outubro de 2007
 
 José Carlos Gonçalves Viana
Sociedade de Geografia de Lisboa
Secção de Transportes
 
Publicado na Revista de Marinha, Outubro de 2007

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