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A bem da Nação

PÁSCOA PORTUGUESA NAS CELEBES

Rituais

 

 

Na Ilha das Flores
Indonésia
Uma Páscoa Muito Antiga




Em Larantuca, na ponta oeste da ilha das Flores, Indonésia, as celebrações pascais assemelham-se às nossas. Perpetuam a tradição, luso-descendentes que a diáspora levou de Malaca a Macassar e que nas Flores se radicaram no século XVI. Com eles trouxeram a língua, um tesouro e o culto a Nossa Senhora do Rosário. A Tuan Ma, como lhe chamam em dialecto local.

Hilarius Benediktu César da Silva descende directamente de Alfredo da Silva, representante dos reis de Portugal na ilha das Flores. Um dos sersan buran (sargentos brancos) que acompanhavam e protegiam os padres que lideravam a comunidade reino residente em Macassar, nas Celebes, e que, perseguida pelo poder islâmico, viria a estabelecer-se definitivamente nas Flores.
Consta que Hilarius está a escrever a história dos seus antepassados. Não o podemos confirmar, mas ele tem todo o gosto em mostrar-nos os retratos de família, e permite que o fotografemos com a sua senhora e um dos filhos. As feições de Hilarius são claramente caucasianas. Tão pouco enganam os olhos verde-oliva do seu vizinho, o senhor Da Gomes, cuja casa faz paredes-meias com a capela Trewa (Treva), um dos inúmeros nichos de religiosidade local.
Famílias de Larantuca - Da Gomes, Cesar da Silva, Monteiro - todas elas ligadas as sersan buran de outrora.
Aconselham-nos a procurar a estirpe do DVG - ou seja, Dom Dias Vieira Godinho, rei de Larantuca - a quem cabe a honra de abrir as portas da capela de Tuan Ma, Virgem do Rosário, padroeira local. Tuan Ma é exibida em público uma só vez por ano. Precisamente na Sexta-Feira Santa.

Linhagens e Mordomos Pascais
A capela Maria, ou de Tuan Ma, situa-se em frente à antiga praia onde - diz a lenda - terá sido encontrada a estátua da Virgem. Documentos históricos fidedignos, porém, asseguram que ela foi trazida de Malaca, juntamente com outros ícones de matriz religiosa, que hoje são encarados pela comunidade local como um tesouro sem preço.
Xavier da Costa, tesoureiro da Confreria Reinha Rozari, autêntica guardiã da divindade, não esconde o seu desagrado pelo aspecto mais vistoso do templo.
Preferia a capela antiga, era mais autêntica. O senhor Costa abre-nos as portas, mas as relíquias não as pode mostrar antes de sexta-feira. Sesta Vera, como dizem em Larantuca.
A Reinha Rozari tem ali o seu secretariado. Em tudo se assemelha às confrarias portuguesas. Para além do cargo de tesoreiro, conta ainda com o de prokurador, tjamador e ouvedor. Mas a função que mais nos interessa neste período pascal é a de mordomo - entidade encarregue de alimentar os homens que erguem estacas de bambú nas ruas pequenas e apertadas por onde progredirão milhares de pessoas na procissão das velas de sexta-feira à noite, ponto alto da festividade pascal.
Em Abril, esta povoação plantada no sopé do Ili Mandari, um vulcão inactivo, acolhe dezenas de milhar de pessoas. Larantuca é - pode dizer-se - o mais relevante local de peregrinação para os católicos da Indonésia e países limítrofes.
O almoço tem lugar em casa dos Fernandes, a quem este ano coube o título (e a honra) de mordomo. Carne de cão (sinal de distinção) é um dos pratos servidos. O peixe, reservam-no para os da casa, acompanhado com banana, inhame e coco ralado.
De forma natural, com a ajuda do arak de palma, aguardente local de forte teor alcoólico, entramos no jogo de palavras. Admiram-se, alguns, de muitos dos termos e expressões do seu dialecto local (e do bahasa) terem origem no português. Outros sabem disso e até acham normal. Surpreendidos ficam ao saber que em Portugal é idêntica a tradição dos mordomos pascais.
As famílias católicas raramente casam fora da comunidade. Os Fernandes, por exemplo, estão cruzados com os Ribeiros.

As Mães da Música
À entrada da capela de Tuan Ma amontoam-se sandálias e chinelos. No interior só é permitido andar descalço.
Depois de lavada, no maior dos segredos, por elementos escolhidos da Confraria, a estátua de Tuan Ma está à vista de todos. Aos pés dela prostram-se os mordomos da capela para este ano - chineses endinheirados de Jacarta. Seguem-se alguns dos notáveis, os membros da Confraria, e só depois os devotos em geral. O ritual prolonga-se durante todo o dia e pela noite dentro.
Em redor, mulheres vestidas de preto acendem constantemente velas e círios. E quando não cantam, rezam. Outras mulheres, também de preto, as Mama Mudji (mães da música) apenas rezam. Avé-marias, pai-nossos, salvé-rainhas. Sempre em língua portuguesa, socorrendo-se de pequenos cadernos onde as ladaínhas foram passando de punho em punho, de geração em geração. É óbvio que não entendem o que dizem, embora o digam correctamente.
Uma celebração litúrgica marca a noite, na catedral do Postoh (posto). A Lamentação de Jeremias é, sobretudo, feita de música, a cargo dos coristas da Confraria, e do som das matracas e do gongo chinês, que substituem a tradicional sineta nos momentos mais sagrados da cerimónia.
À entrada, a polícia controla as bagagens. Larantuca pode muito bem ser alvo de um atentado. É reconfortante ver, contudo, que muitos dos que fazem segurança são elementos da comunidade islâmica local.
Cristãos e muçulmanos, ao contrário do que se passa noutras províncias indonésias, vivem aqui em perfeita harmonia. Muitos deles partilham até laços familiares.

A Procissão Marítima
São traiçoeiras as águas do Estreito de Gonçalo, que divide as Flores das ilhas de Solor e Adonara. Em linha com a praia de Kota, onde se situa a capela do Tuan Meninu, assiste-se a um verdadeiro ajuntamento de barcos de pesca a transbordar de pessoas. Sentadas à proa, à popa, a bombordo, a estibordo, no convés.
Todos se preparam para acompanhar o Deus-menino, numa procissão marítima que tem origem numa tradição similar ainda hoje praticada em certas povoações costeiras de Portugal continental e insular.
Na margem, transferem agora a estatueta da capela para uma barcaça movida por dois homens com varas de bambu.
O percurso é de cerca de mil metros, sempre a escassos metros da margem onde uma multidão de crentes assiste ao cortejo. Indivíduos com motos de água funcionam como controladores de tráfego, assegurando que nenhuma das embarcações ultrapasse aquela que leva a estátua.
A entrega do Meninu dá-se num local que já foi praia, em frente à igreja de Santo António.
Enquanto isso, outros participantes preparam-se para a marcha que conduzirá Tuan Ma à catedral. O ritmo é marcado por um tambor de caixilho (de origem portuguesa) e os ornamentos pascais são transportados por crianças trajadas a rigor.
A catedral, essa noite, é pequena para tanta gente. Sentada, de pé. Dentro e fora de portas. Gente de diferentes comunidades. Destacam-se os irmãos da Confraria, na nave principal. Atrás deles, as carpideiras, Mulheres de Jerusalém, camufladas sob um pano negro. Entre os mais bizarros, os nikodemus, encapuçados que transportam o andor do Cristo morto, e Verónica, portadora do lenço com o rosto ensanguentado de Cristo.
Todos eles integram a gigantesca procissão que em passo lento percorre as ruas de Larantuca transformadas em Via Sacra. A entrada das ermidas e de muitas das casas estão alumiadas com centenas de velas. Apenas o som das matracas e o rufar do tambor interrompem o murmurar das ladainhas. No final, todos confluem para a catedral, numa manifestação de fé impressionante. A maioria logo regressa a casa. Muitos outros, integram a fila dos que vão beijar os pés da Senhora que na igreja permanece toda a noite.
Sábado de manhã cedo Tuan Ma regressa à capela. As velas são retiradas das estruturas de bambu. Resta no chão a cera derretida, com a qual muitos aproveitaram para escrever mensagens ou simplesmente os seus nomes.
Está lá o do Figo, quiçá a única referência que estes nossos patrícios longínquos têm do Portugal de hoje.
Joaquim Magalhães de Castro [texto e fotos]

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