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A bem da Nação

Francisco Gomes de Amorim

 

 
 
Nasceu em Averomar (nome mais lindo não há!), freguesia de Amorim, Concelho da Póvoa de Varzim, Portugal, em 13 de Agosto de 1827. Faleceu em Lisboa em 4 de Novembro de 1891.
 
É dele mesmo este auto-retrato:
II
“Advertência”
(da 1ª Edição de “Cantos Matutinos” de 1858. Ortografia original) – continuação
“Ao completar os meus doze annos, comecei a envergonhar-me de não saber ler, e appliquei-me voluntariamente, e com tanta dedicação, que aprendi em poucos mezes. O primeiro livro que me foi ás mãos, e que hade ter um dia em outra parte um capítulo especial, foi a História de Carlos Magno. Eu não lia só para mim, queria auditório, e era bem pouco escrupuloso na escolha delle! A quantos pretos, tapuyos e mulatos apanhava, nos momentos em meu patrão sahia de casa, lia a morte de Roldão, e elles desatavam num berreiro de choro, tão feio e temeroso que vexaria o próprio Adamastor.
O meu segundo livro foram os Lusíadas de Camões.
Não escrevo estes apontamentos para a posteridade me fazer a biographia; faço-os para os leitores dos Cantos Matutinos. Do rapaz endiabrado e picaresco, que eu confesso ter sido, pode-se esperar tudo, menos um bom poeta. Aos que, depois de saberem os pontos capitaes de arrevesado começo de vida, não acharem toleráveis os meus versos, responderei: que os façam melhores; lastimando que o censor não passasse pelas mesmas provas que eu passei.
No Pará era raro, n´aquelle tempo, o patrão que permittia aos seus caixeiros accuparem na leittura as horas vagas; mas o fructo prohibido aguça o apetite; a tyrannia inspira naturalmente o desejo de resistência, e por isso era também raro o caixeiro que não se entregava com avidez a leituras clandestinas. E a isso talvez deve aquella cidade o grande numero de mancebos illustrados, que hoje dirigem o seu commercio. Entre elles é vulgar o conhecimento dos nossos melhores clássicos, e tanto se tem desenvolvido nos ultimos annos o gosto do estudo, que o mais humilde caixeiro de taberna não ignora nenhuma das modernas publicações portuguezas.
Brigando com a má vontade e opposição que encontram por vezes as minhas tentativas estudiosas, decorei em poucos mezes todas as estancias dos Lusiadas, e foram ellas as primeiras lições que eu tive de poesia e de historia. A brutalidade de alguns patrões, e o meu indócil carácter, que repelia a servidão, fizeram-me tomar ódio eterno à vida de caixeiro.
Meu irmão, e um primo de quem eu era hospede, fizeram esforços desesperados para me domar. Depois de se convencerem de que eu me não sujeitava ao commercio, perguntaram-me se queria seguir outra qualquer carreira; se me sentia com vocação para artista, militar, padre, médico, ou advogado; deram-me a escolher todas as profissões compromettendo-se a mandarem educar-me convenientemente; porém eu não me decidi por nenhuma. E uma vez que me apoquentaram mais do que de ordinário, à cerca do meu destino, respondi ao acaso -  que me fizessem calafate.
Meu irmão, que apesar de toda a sua gravidade e bom senso, tinha apenas mais anno e meio do que eu, achou-me muita graça; porém meu primo que era homem sério e que estava cansado das minhas extravagancias, (segundo elle dizia), avançou uma mão para me pegar na orelha, que eu tive a prudência de a pôr fora do seu alcance – fugindo de casa.
As grandes florestas estavam perto; havia muito tempo que eu aspirava com delícias o perfume que trazia dos sertões a brisa nocturna. A causa da minha repugnância a todas as occupações era o desejo e a curiosidade, que me mordiam noite e dia, de correr para essas eternas solidões que me chamavam de longe. Sentia-me como atacado de nostalgia das selvas, que eram a pátria do meu pensamento.
Um dia de madrugada, tendo-me despedido somente do meu sempre bom irmão, embarquei n’uma canoa que se destinava ao fabrico de gomma elástica, e parti para o rio Xingú. Logo que me vi no meio das florestas virgens conheci que tinha achado o meu reino, o paiz da fantazia. Habituei-me à presença quotidiana da onça, do tigre, e do tamanduá; ás mil variedades de serpentes, aos jacarés, aos gentios de todas as raças, e à sua existência, costumes e festins bárbaros. Pareceu-me que a vida errante da tribo fôra de propósito creada para a minha organização; dentro em pouco tempo, a côr da minha pele era egual á dos tapuyos. Deixei a espingarda pela frecha; a língua portugueza pelo dialecto gutural dos jurunas, ou pela língua dos tupis; preferi, enfim, o selvagem ao homem civilizado, e comecei a vagabundear pelos bosques, como o tinha feito nas campinas do Minho.
Não sei se tive razão; mas o certo é que seguia meu caminho para auxiliar e desenvolver a primeira tentativa que fizera na leitura.
Tornei a perder os livros de vista, e ainda com menos saudade do que no momento de embarcar para o Brazil, e talvez que também com menos vontade de me volver a elles. É verdade que o gérmen tinha ficado de algum modo enredado no meu cérebro. Eu sabia os Lusíadas, e não os deixava esquecer, repetindo mentalmente uma ou outra estancia, quando esperava, com a corda do arco retezada e a tacoára em punho, a passagem da anta ou do veado.
Depois de vagar um anno pelas matas e cachoeiras do Xingú, subi o Amazonas, e fui completar meu décimo terceiro anniversario na villa de Alenquer, situada no braço do mesmo rio, entre dois grande lagos – Curumú, e Surubiú.
N´essa povoaçãosinha, de que não posso lembrar-me sem uma doce melancolia, encontrei um dia, em casa d´uma família indígena, e dentro de cesto forrado de folhas de bananeira brava, quatro ou cinco livros velhos. Um destes era o poema Camões, de Almeida Garrett, edição do Rio de Janeiro.
Li-o, e a essa leitura, repetidas vezes depois, se devem não só  os Cantos Matutinos, porém todos os meus modestos opúsculos.
Aquelle poema transformou-me repentinamente, e sem eu saber como; principiei a ver debaixo de outra aspecto os rios, os lagos, as florestas, e as montanhas. Pareceu-me que as flores derramavam maior perfume, e se vestiam de mais vivas cores; que o céu e os astros brilhavam pela primeira vez aos meus olhos, e que toda a natureza tomava formas novas e sublimes. Julguei entender o canto das aves, o murmúrio das águas, e o gemer da brisa entre as assucenas bravas e as mimosas gigantes. As harmonias do verso vibravam na minha alma; ouvi dentro em mim outra voz que balbuciava, traduzindo as minhas sensações por meio de palavras cortadas, vagas, encoherentes, e inintelligiveis para o mundo, e que eu não como nem onde as aprendia! Cuidei-as inspiradas por Deus, e sei que me foram reveladas por essa elegia sublime do grande poeta, que já não vive!
Ousei dirigir uma carta a Almeida Garrett em que lhe contava, com a mesma simplicidade e singeleza com que agora o faço, tudo o que deixo escrito; e concluía perguntando-lhe se o que eu sentia então seriam indícios que revelassem em mim a ave que pretende voar antes de lhe nascerem as azas. A carta gastou muito tempo em descer da beira dos Andes, e atravessar o Atlântico. Depois della partir, eu sorria-me da louca tentativa que fizera, e deixei de esperar uma resposta que já me parecia impossível de obter. Mas no fim de dois annos e meio, a resposta chegou ás minhas mãos. Era uma consolação, um estimulo, um impulso.
Encontrei-a no Pará em 1844,tendo eu já dezassete annos. Divulguei a noticia, e toda a gente quis ver a carta do poeta, que alli é e foi sempre adorado. Duvidou-se que fosse delle; mas entre os curiosos appareceu um que reconheceu a lettra. Era negociante honrado, e os incrédulos não tiveram remédio senão curvarem-se diante da sua palavra. Já ninguém se ria das minhas passadas criancices; olhavam-me quasi com respeito; e os caixeiros que haviam sido meus contemporâneos estalavam com desejos de me proclamar poeta, visto que eu me correspondia com o que era para elles, e para mim, quase um semi-Deus.
Resolvi então voltar a Portugal, com a firme vontade de vir para Lisboa estudar, e decidido a morrer na lucta, se tanto fosse preciso. No momento da minha partida, fui bastante temerário para consentir que se publicasse um soneto de despedida aos meus amigos, do qual aproveitei doze linhas para zurzir os maledicentes. Era a primeira vez que o meu nome ousava ir desacommodar os typos, e Deus sabe se não teria sido melhor o deixal-os dormir sem me tornar jamais seu conhecido!
 
Ninguém, que tenha o hábito de ler jornaes, pode ignorar as minhas relações com o fallecido visconde de Almeida Garrett. Desde o momento em que nos encontrámos pela primeira vez, até áquelle em que o vi expirar-me nos braços, proferindo o meu nome, e dizendo-me estas derradeiras palavras: “já o não vejo!” Devi-lhe sempre a maior affeição e os melhores conselhos que um filho pode receber de seu pae. Foi elle o meu mestre; porém, apesar de todos se dizerem seus discípulos depois da sua morte, elle não deixou ninguém que o represente na terra. Segundo a expressão de Theofilo Gauthier “cada poeta célebre leva consigo o seu segredo quando desce à sepultura.”
 
Rio de Janeiro, 22 de Março de 2009
Francisco Gomes de Amorim (Neto)
 

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