As crises dos outros – II
A crise financeira asiática de 1997 foi mais fácil e prontamente debelada em Hong Kong, na Coreia do Sul e na Tailândia do que nas restantes economias nacionais. No primeiro apontamento sobre o assunto (A Bem da Nação, 5 de Fevereiro de 2009, http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/335324.html) indicou-se a razão que determinou esta celeridade de recuperação no caso de Hong-Kong. Ali tinha havido uma mudança de regime e o novo Governo não teve a menor dúvida em deixar cair os bancos e as empresas em dificuldades. “As autoridades nada fizeram para salvar as empresas e bancos; deixaram-nos falir. Os accionistas, empregados e credores destas empresas pagaram o preço da crise e esta passou”. O odioso ficou como o antigo regime colonial que não soube a tempo evitar o desastre.
A Tailândia e a Coreia do Sul recorreram a um processo que tem algo de parecido com a prática dos nossos reis medievos: o recurso a «juízes de fora». Na Tailândia, os gestores bancários que levaram os bancos à falência foram prontamente dispensados e substituídos por funcionários públicos. O crédito foi direccionado para as empresas com maior capacidade de enfrentar a crise e gradualmente a economia voltou à normalidade. Na Coreia do Sul, a economia estava na sua quase totalidade nas mãos das “Chaebol», conglomerados financeiro-industriais fechados, quase todos propriedade familiar, que se regem por normas e processos específicos, sem interferência ou com mínima interferência das autoridades. Eram quase soberanas. Segundo o depoimento Simon Johnson, professor do MIT, School of Management – reproduzido pelo IHT, de 21 do corrente – em 1997, perante a derrocada da moeda local, as autoridades coreanas não tiveram a menor dúvida: passaram a intervir deliberadamente onde até aí não intervinham. Não se deixaram intimidar pela complexidade e segredo dos processos das «Chaebol»; dispensaram imediatamente os respectivos gestores financeiros e substituíram-nos por gestores não conotados com o grupo, incluindo estrangeiros. A venda de participações no capital de bancos das «Chaebol» a grupos estrangeiros foi encorajada com o duplo objectivo de substituir gestores e dar maior solidez à estrutura financeira própria. No processo, algumas «Chaebol» faliram, mas as que ultrapassaram a crise estão hoje mais fortes do que nunca. A crise regrediu rapidamente e o crescimento económico continuou.
Enquanto isto, na Indonésia, os grandes bancos, a nata financeira - os "só nós" - foram constantemente socorridos e os gestores mantidos, a título de que só eles sabiam lidar com a situação. Só os pequenos bancos e pequenas empresas foram deixados ao seu destino. Como resultado, o descrédito interno e externo foi total e a economia local ainda hoje não se recompôs.
Daqui conclui Simon Johnson: "o remédio mais directo para consertar uma instituição financeira consiste em afastar imediatamente os que a levaram à ruína".
21 de Março
