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A bem da Nação

António José Arroyo

 

 
Nasceu no Porto em 1856, filho de José Francisco Arroyo y Rezola e Rita Norberta Xaviera de Rezola y Gastañaga, primos direitos, nascidos em Oyarzun e Usurbil, naquele tempo arredores de San Sebastian, na Guipuscoa. Espanhóis bascos.
Seu pai foi notável compositor e director do Teatro de São João no Porto, que se chamou Ópera do Porto.
António Arroyo, de grande cultura e inteligência, formou-se em engenharia civil e além do seu trabalho profissional foi um exigente crítico de arte e música, escreveu alguns livros – infelizmente poucos – e notabilizou-se sobre temas literários e artísticos.
Assim que se formou trabalhou na construção dos caminhos-de-ferro das Beiras e depois do Sul e Sueste e em 1881 ingressou no Ministério das Obras Públicas.  
Quando Portugal encomendou à empresa belga Sociéte de Willebroeck, com projecto do engenheiro Seyrig, ex sócio de Eiffel, a continuamente famosa Ponte Dom Luis sobre o rio Douro, no Porto, mandou para Bruxelas um engenheiro português para acompanhar os trabalhos de execução daquela magnífica obra de engenharia. O escolhido foi o jovem António Arroyo, que com regularidade dava ao seu ministro notícias do andamento da obra e comentava a sua admiração pela excelente mão-de-obra belga, com operários oriundos de escolas especializadas.
Logo o ministro de Obras Públicas, a quem estava subordinado também o ensino profissional, muito deficiente, se interessou, mandou-o visitar essas escolas e que recolhesse o máximo de informação possível para que em Portugal se pudesse seguir esse exemplo.
De regresso a Portugal, sem deixar o seu posto no Ministério de Obras Públicas, foi nomeado para uma comissão, de que fazia parte o escritor e professor Adolfo Coelho, para a criação de escolas industriais e de desenho industrial.
Há em Lisboa uma Escola, que se chamou, ao ser criada em 1934, ano em que este meu bisavô morreu, Escola Industrial António Arroyo (Artes Aplicadas), por onde passou boa parte dos grandes pintores e escultores portugueses, alguns dos quais seguiram depois para a Escola Superior de Belas Artes.
Hoje chama-se Escola Secundária Artística António Arroyo, em edifício próprio, também em Lisboa, que fica na rua Coronel Ferreira do Amaral, no bairro das Olaias. É bom que se saiba, porque será nessa Escola que mais informações se podem obter sobre o nosso vovôzinho.
Antes da actual sede própria, a Escola funcionou muitos anos num prédio que tinha sobre a porta da entrada do edifício, protegido por um nicho sui generis, o busto de alguém e sobre este os dizeres Escola IndustrialAntónio Arroyo. Como é de imaginar as pessoas relacionavam o busto ao Senhor Arroyo. Pequena cabeça meio inclinada para a frente, ar triste, carequíssima, cara rapada.
O bisavô podia ter pouco cabelo, carecão só no alto da cabeça, mas uma bela barba, feições cheias de personalidade e cara levantada.
O busto não era dele, claro. Pouca gente sabia de quem era aquela careta e lembro-me de ter ouvido dizer que seria, ou do arquitecto que projectou o prédio ou do dono do dito. Ambos desconhecidos.
Xerêta daqui, pergunta dali, obtive a resposta ao mistério: o busto era do antigo dono daquela casa, um homem que se chamou António Augusto Gonçalves, que possivelmente terá pensado assim se imortalizar, sem que para isso contasse no seu curriculum referência a obras valerosas que da lei da morte o libertassem.
Porque não tiraram o busto dali? Não sei. Talvez a casa fosse alugada e isso fizesse parte do contrato de arrendamento!
Em 1956, no centenário do nascimento do bisavô houve uma sessão solene lá na antiga Escola, sendo orador o pintor Abel Manta, pai, que abordou o assunto, achando, já nessa altura, que, ou identificavam o busto explicando o que ele ali fazia, ou o dissociavam claramente do nome de António Arroyo. Mas o cabeça rapada permaneceu no seu nicho, olhando de esguelha para baixo, dando risada nas vetustas e escondidas barbas do nosso antepassado. Admite-se isto? Negligência! Só terminou a confusão quando a Escola mudou para edifício próprio, deixando o busto careca na sua propriedade.
Mais outra história interessante com este antepassado.
Profundamente ligado às artes, escreveu sobre música, teatro, pintura e escultura, correspondeu-se largamente com a viúva do grande compositor alemão Richard Wagner, Cósima, filha de Franz Liszt, correspondência essa que não está, nem nunca esteve comigo e certamente merecia novos estudos e talvez divulgação e quando Richard Strauss esteve em Portugal foi António Arroyo quem o acompanhou.
Profundo conhecedor e crítico musical, dizia-se que antes do início dos concertos o maestro avisava os seus músicos:
- Cuidado! O António Arroyo vai estar presente!
O episódio que se segue foi contado também pelo mesmo pintor Abel Manta que, ainda estudante de Belas Artes, ao sair um dia das aulas, no fim da manhã, estranhou ver abertas as portas do Teatro de São Carlos, em Lisboa e desusado movimento de gente entrando e saindo! Foi ver o que se passava.
No palco, Strauss ensaiava ao piano. O vai vem de gente atraída pela curiosidade da porta aberta, fazia barulho, perturbava, enquanto uns interessados somente em bisbilhotar, outros encantados por terem descoberto o grande mestre e terem possibilidade de o ouvir, e de graça!
Sem silêncio para que o músico se concentrasse e trabalhasse, António Arroyo decidiu intervir.
No palco, ao lado do pianista, um indivíduo de aspecto austero, barba comprida, assistia àquele entrar e sair que perturbava o ensaio do grande músico. De repente pede a este que pare por um instante e, voz grossa e firme dirigiu-se ao público: - Nem esse Senhor e muito menos eu, temos necessidade da vossa presença aqui. Quem quiser assistir, pode ficar, quem quiser sair que saia, mas não perturbe.”
O ensaio dali para a frente correu em profundo silêncio, só quebrado pelos aplausos dos que tiveram o privilégio de ficar a ouvir o criador das grandes valsas vienenses.
(a continuar, mais algumas histórias deste bisavô...)
 
Rio de Janeiro, 18 de Março de 2009
 Francisco Gomes de Amorim
 
 

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