Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 1

“O paradoxo da paz” Nota prévia: o presente “Lido com interesse” devia ter o nº 2 dado que em Julho passado esta epígrafe merecia ser aplicada ao resumo que então fiz do texto anterior do Professor Doutor Manuel Ennes Ferreira sobre a maldição que as riquezas naturais lançam sobre os países atrasados. Contudo, o mesmo vento nunca sopra duas vezes e, portanto, só agora inicio esta série com a numeração que assim lhe cabe. 

 

 

Título original: “Development and the Peace Dividend Insecurity Paradox in Angola” 

Autor: Manuel Ennes Ferreira, titular da cadeira “Economia africana” no Departamento de Economia do ISEG (UTL) 

Editor: Taylor and Francis Group –

Para mais informações, ver em http://www.tandf.co.uk/journals/titles/09578811.asp 

Edição: “The European Journal of Development Research”, Vol.17, No.3, Setembro de 2005, pp.509 – 524

 

Resumo: «No final de uma guerra civil, é frequente tomarmos como certo que haja um lucro a receber pela reorientação das despesas militares, o chamado “dividendo da paz”, permitindo mais elevadas taxas de crescimento económico e maior atenção às questões sociais. Contudo, esta possibilidade não está minimamente garantida em todas as circunstâncias. A grandeza do “dividendo da paz” depende de uma série de factores multidimensionais que a Economia Política do Desenvolvimento nos ajuda a compreender. No presente artigo, o conceito “paradoxo da insegurança do dividendo da paz” é-nos apresentado como a descrição da situação que ocorre quando o “dividendo da paz” não se materializa. Neste sentido, sublinha o autor a necessidade duma análise mais ampla ligando a segurança humana e o desenvolvimento. No caso de Angola, os “interesses pessoais” estabelecidos ao longo de mais de 25 anos de guerra civil impedem a compatibilização de segurança pessoal e desenvolvimento criando deste modo as condições para que ocorra o “paradoxo da insegurança do dividendo da paz”.»

 

Frases que retive: 

 

«(…) nunca houve unanimidade de opiniões quanto ao positivismo, negativismo ou neutralidade das despesas militares sobre o desenvolvimento» 

 

«O conceito de desenvolvimento evoluiu das estreitas dimensões económicas para a colocação da pessoa como o centro do processo. O desenvolvimento humano e a segurança ficaram intimamente ligados» 

 

«É comum a ideia de que o desarmamento e reestruturação das despesas militares podem resultar num reforço do desenvolvimento»  «Os ajustamentos necessários na recolocação de activos humanos e de capital físico têm custos no curto prazo, nomeadamente desemprego, de adaptação económica e de reconversão social, antes que ocorram os benefícios nos médio e longo prazos» 

 

«No campo político, o dividendo da paz resulta na pressão que se exerce sobre a abertura à democracia. Estará o Governo preparado para isto, garantindo os direitos a todas as partes? E se o acordo de paz resulta num duopólio político, excluindo e menosprezando as oportunidades para todos aqueles que não se sentem representados por essas duas partes, será que isto beneficia o dividendo da paz ou garante a segurança política e os direitos civis?» 

 

«Angola pode infelizmente transformar-se num “case study” nesta matéria. Os interesses pessoais – tanto económicos como políticos – que se estabeleceram ao longo de mais de 25 anos tornam difícil que nos mantenhamos optimistas no que respeita à obtenção de algum dividendo da paz. De facto, é o contrário que parece ser verdade. A insistência num modelo económico baseado no acréscimo de exportação de recursos naturais, com o petróleo à cabeça, a estruturação do sistema económico e político com base na corrupção [“rent-seeking”, no original], a “legitimação” obtida pelo fim da guerra civil e o adiamento das eleições – tudo isto pode servir de ingrediente para que a população não sinta melhoras sensíveis na situação alcançada» 

 

«(…) quem ganha com isto?» 

 

«A autonomia financeira de que Angola dispõe actualmente, se bem que insuficiente para beneficiar a população em geral, serve pelo menos para satisfazer a elite governante» É sempre com interesse que leio os trabalhos do Professor Doutor Ennes Ferreira e só espero que eles sejam lidos com redobrada atenção pelos verdadeiros destinatários, os angolanos que ainda têm o gosto do estudo. Mas deve ser um reduzido círculo dentre os poucos que em Angola ainda sabem ler.

 

Pobre país tão rico.

 

Lisboa, Outubro de 2005

 

 Henrique Salles da Fonseca

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D