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A bem da Nação

Crise de conjuntura ou crise de estrutura

 

 
Umas notícias dizem “a crise abalou o sistema bancário”, outras dizem “a crise com origem nos Estados Unidos envolve todo o mundo”, outras ainda…iniciada em Setembro? ….
 
Por quase tudo o que se lê e se ouve poderá parecer que estamos em plena crise de conjuntura e para ajudar as medidas apresentadas pelos vários governos para a combater parecem ser de facto meramente conjunturais.
E será assim apenas conjuntural?
 
E como se poderá explicar que tantos economistas e financeiros brilhantes em cargos de grande responsabilidade nestas matérias não detectaram a tempo as mudanças em curso de forma a evitar a derrocada actual?
 
Não perceberam ou perceberam e não quiseram actuar por medo ou interesse ou ainda por outra razão qualquer?
 
E no caso particular de Portugal seria que estávamos a fazer tudo o que deveria ter sido feito nas duas últimas décadas, isto é, desde que entrámos na Comunidade Europeia e agora apenas somos vítimas de erros alheios?
 
Observemos entretanto alguns factos ocorridos nestas duas décadas:
 
1-O crescimento demográfico da humanidade: de 1bilião em 1900 para cerca de 7biliões agora
 
2-Aumento das disparidades entre ricos e pobres
 
3-O aumento da poluição
 
4-A quebra contínua da biodiversidade e as limitações à utilização de terrenos para a produção alimentar porque é necessário aumentar a área florestal e não a diminuir mais
 
5-Os empréstimos bancários internacionais cresceram na década de 80 cerca de 5 vezes
 
6-O volume mundial de transacções de acções através de fronteiras cresceu cerca de 12 vezes neste mesmo período e continuaram a crescer.
 
7-Verificaram-se neste período várias fraudes gigantescas que mostraram a fragilidade dos meios de auditoria e regulação utilizados
 
8-Verificaram-se inúmeros ataques de especuladores a moedas de vários países causando prejuízos de grande monta às populações atingidas
 
9-Verificou-se enorme desenvolvimento das tecnologias digitais e de telecomunicações que permitiram a movimentação de verbas praticamente em tempo real quase instantâneo
 
10-Verificou-se um abrandamento no esforço de regulação por parte das entidades que nos vários países tinham essa incumbência ou talvez mesmo isto, em vez de ser uma causa desta crise tenha antes sido uma consequência das suas causas mais profundas.
 
11-Verificou-se enorme incremento de actividades em sistema de “off shore” e em anonimato, ou seja sem responsáveis directos por elas
 
12-Verificou-se que em Portugal e alguns outros países se praticavam políticas imediatistas incentivando as populações a consumirem mais, mesmo quando produziam pouco, fatalmente endividando-se, aliás como os próprios governos também o faziam de forma a poderem ter muitas inaugurações antes das eleições, outros gastos supérfluos e ainda investimentos sem a racionalidade indispensável exigida a quem tem pouca capacidade financeira.
 
13-E verificou-se também que em Portugal se descurou a sua competitividade como é normal acontecer quando se obtêm ganhos fáceis e rápidos com jogos financeiros.
No caso de Portugal a competitividade foi particularmente mal tratada porque há cerca de vinte anos quando começámos a ter acesso às ajudas da CEuropeia não cuidámos de garantir custos de vida suficientemente baixos de forma a permitir a competitividade da nossa população com pouca preparação tecnológica, durante o tempo necessário para se preparar, além das dificuldades criadas às actividades produtivas como a pesca e a agricultura em favor dos intermediários e da existência de variados custos parasitas por deficiente organização ou pressões corporativas.
 
14-Verificou-se também em Portugal um sobre-custo na habitação em particular na que dos que menos ganham por causa da cara gestão autárquica e do deficiente ordenamento do território e respectivos sobre-custos alem da forte contribuição para a chamada bolha do imobiliário que não foi importada do estrangeiro.
 
15-Verificou-se também em Portugal haver uma gestão deficiente nas áreas das águas e da energia pois não se tem cuidado em construir barragens e outras infra-estruturas indispensáveis para garantir o seu fornecimento dentro do período natural da pluviosidade, onde a produção de energia deverá ser apenas um subproduto, nem se optou por produção de energia de forma competitiva embora a nossa empresa nacional e monopolista ande a investir no estrangeiro.
 
16-Verificou-se ter havido em Portugal total descuido com a segurança dos abastecimentos essenciais ao País pois a Marinha Mercante foi deliberadamente destruída causando também a perda de inúmeros postos de trabalho enquanto se deu excessivo incremento ao transporte rodoviário que, sendo importante, é o que mais energia gasta e mais poluição produz.
 
17-Verificou-se idêntico desinteresse pela Marinha de Recreio que tem provocado a perda de milhares de postos de trabalho directos e indirectos, além de não incentivar as actividades marítimas embora, simultânea e paradoxalmente, se gaste dinheiro em querer aumentar a nossa área de influência no oceano atlântico como se fosse possível vir a tirar proveito disto sem ter uma Marinha com a capacidade devida.
 
18-Verificou-se existir um enorme equívoco na educação nacional com reflexos muito negativos na nossa competitividade e em que a actual fractura provocada pela avaliação é apenas a ponta dum icebergue maior e mais profundo.
 
19-Verificou-se existir um sistema judicial pouco eficiente, que felizmente já está a melhorar, e que tem fortemente beneficiado os infractores com a agravante de incentivar as infracções prejudicando tanto o desenvolvimento como o rendimento económico e o moral da população.
 
Assim se pode verificar que esta crise começou de facto a tomar forma há cerca de vinte anos mas na verdade as suas raízes são bem mais antigas do ponto de vista geral e mais profundas do ponto de vista nacional.
 
Na verdade a vida económica e financeira da maioria dos países desde o século XIX tem vindo a ser regida por princípios baseados no paradigma do crescimento obrigatório correspondente à fase de expansão territorial típico dessa época, acrescido da fé no capitalismo mais ou menos liberal que após o fracasso do marxismo que serviu para sustentar várias ditaduras ainda mais duras que a nós tivemos durante quase meio século, se tornou demasiadamente desregulado e quase totalmente dominado pela ganância e pelo imediatismo.
 
Ora o Mundo e o País precisa que alguém o trate como gestor e não como um simples director financeiro com elevada participação nos lucros anuais da organização e sem preocupações com o médio e com o longo prazo.
 
Como gestor deveria seguir, pelo menos, os três seguintes princípios fundamentais da gestão eficiente a começar pelo que determina que sempre é preciso distinguir o essencial do acessório, passando pelo de ter que haver sempre responsáveis e nunca se deixar dominar por preconceitos.
 
Daqui  resulta que nas circunstâncias em que actualmente vivemos deixou de ser verdade o objectivo oitocentista do crescimento obrigatório em quantidade que tem vindo a orientar todo o mundo moderno e cujos resultados estão a aparecer, para se mudar para o objectivo essencial de sobreviver que implica uma mudança radical que tem que começar por algumas medidas globais tão simples de enunciar como possivelmente tão difíceis de serem tomadas e que são as seguintes:
 
-acabar imediatamente com todos os off-shores
 
-acabar imediatamente com tudo o que seja anónimo, isto é, todos os capitais e todas as transacções têm que ter uma cara, um nome, uma morada, aquilo que foi chamado de residencialismo e que não é mais que significar que tudo tem que ter um responsável
 
-reorganizar as bolsas de valores de forma a eliminar ou pelo menos dificultar a especulação indesejada
 
-caminhar rapidamente para uma moeda única a nível global
 
-reorganizar o sistema bancário global dotando-o da transparência necessária que permita evitar as anomalias verificadas
 
Além de outras que entretanto se verifique serem necessárias para o objectivo final
 
E tudo isto sem cair no erro já cometido de se eliminar a liberdade individual necessária e suficiente para preservar a dignidade e a felicidade das populações.
 
Para Portugal ainda há que corrigir desde já as deficiências estruturais atrás indicadas nos itens 12 a 19 porque nós não temos apenas que combater a crise geral mas ainda recuperar o atraso que aquelas deficiências têm vindo a provocar.
 
Lisboa, 15 de Janeiro de 2009.
 
 José Carlos Gonçalves Viana
(Antigo Secretário de Estado da Marinha Mercante e das Pescas).
 
 

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