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A bem da Nação

BURRICADAS 55

 

os passivos do nosso descontentamento - IV
 
v        Redescobre-se, agora, que as tarefas dos Supervisores estão muito longe de se resumirem a carimbar uns papéis e ter à mão uma calculadora para verificar se o débito é igual ao crédito.
v        Têm de ter ideias próprias em matéria de risco: seja o perfil do risco a que as Instituições supervisionadas se encontram expostas, seja o risco incremental que as espera.
v        Como têm de se pronunciar sobre a suficiência dos Capitais Próprios – equacionando não só a exposição actual ao risco (incluindo o risco de reputação), mas também o risco incremental implícito na estratégia que cada Banco estiver a prosseguir (sem esquecer as entidades que giram em seu redor e podem provocar-lhe substanciais perdas de reputação).
v        E têm de revelar essas ideias com meridiana clareza também - para respeitarem a disciplina do mercado , justificarem o dinheiro que gastam e merecerem o estatuto de que gozam. Descansarem na opinião das Agências de Rating (como fizeram durante os anos que precederam esta crise), e desculparem-se com elas (como fizeram quando a crise rebentou), não mais poderá ser tolerado.
v        Os Bancos Centrais, por seu turno, reféns ainda da teoria main stream (e da estratégia Greenspan), insistem em baixar o preço do dinheiro para colocar (ou manter?) as suas economias em ineficiência dinâmica – continuando a premiar todos aqueles que estiverem na disposição de contrair dívidas, cada vez mais dívidas.
v        Ora, se foi o endividamento excessivo de uns (nas economias mais desenvolvidas) a causa da presente crise (como já tinha sido a causa da crise japonesa e, antes dela, da crise dos Tigres Asiáticos e por aí fora); se Bancos Centrais e Estados estão a endividar-se sem proporção para combater esta crise; estimular o endividamento generalizado não pressagia nada de bom. Além de, à primeira vista, não primar pela coerência.
v        Os mercados imobiliários estavam sobreaquecidos pelo excessivo endividamento das Famílias? As casas, em muitos locais, tinham atingido preços considerados absurdos? Os Bancos Centrais falavam com preocupação de “bolha especulativa”? Que saída para a crise têm eles agora em mente?
v        Uma queda abrupta dos preços das casas (é o que está a acontecer nos EUA, com o índice geral a cair 17% até à data, mas as perdas em certas áreas residenciais na Florida e na Califórnia chegam aos 40%) que repusesse a “normalidade” dos preços relativos desembocaria num cenário para o qual nenhum país está verdadeiramente preparado: (1) tribunais entupidos por um sem número de execuções de hipotecas (os EUA, mais desembaraçados, lançaram mão de julgamentos rocket docket); (2) pessoas em deslocação permanente à procura, simultaneamente, de casa e de trabalho; (3) orçamentos de prestações sociais em ruptura; e (4) Bancos com prejuízos que absorveriam por inteiro os seus Capitais Próprios actuais.
v        Mas, para sustentar os preços do imobiliário (mesmo aos níveis de agora e, não, aos de há dois anos atrás) e acomodar o endividamento que eles reflectem, só um surto inflacionista muito rápido (um processo expedito de realinhamento dos preços relativos) – o que também deixaria marcas profundas no sistema financeiro e na esfera real da economia. Será esta a racionalidade que inspira a política do “dinheiro barato”?
v        Se for, é porque se aposta tudo nas intenções de investimento produtivo (por oposição aos investimentos financeiros, ou “de carteira”). Se os empreendedores responderem afirmativamente a taxas de juro anormalmente baixas e à perspectiva de substanciais “prémios de inflação” (os ganhos nominais que o deslizar dos preços pode acrescentar à rentabilidade do investimento), espera-nos inflação e crescimento – sempre que nenhuma grande economia ceda à tentação do proteccionismo. Se não, redescobriremos todos a stagflação dos anos ’70.
v        Ora as intenções de investimento só têm bases sólidas quando possuam valor temporal (trocado por miúdos, quando as perspectivas de sucesso do investimento, apesar do risco, sobrelevam, quer a possibilidade de ele vir a dar para o torto, quer as alternativas financeiras de menor risco). E, ao nível “macro”, o valor temporal só existe quando se conjugam duas expectativas: crescimento e inflação (da ordem de um dígito, não mais).
v        A procura agregada terá, então, de dar sinais de vitalidade, apesar da inflação, para que as intenções de investimento prosperem – o que aponta para uma inflação alimentada pelos salários e/ou prestações sociais. Caso contrário, muitos investimentos não serão mais que simples intermezzos que se desmoronam mal as economias reentrem em eficiência dinâmica - e o endividamento tenha, de novo, um custo efectivo.
v        Sob este ângulo, o dilema com que os Bancos Centrais hoje se debatem é mais fácil de enunciar que de resolver: como estimular a procura sem aumentar ainda mais o endividamento dos já endividados, nem os empurrar para a insolvência. Dito de outro modo: suster, ou não, a queda dos preços das casas.
v        Um simples olhar pelo mundo revela três coisas: (1) que a actividade económica assenta fundamentalmente no passivo dos Bancos Comerciais (de longe, a maior fatia da liquidez que circula); (2) que é principalmente no activo dos Bancos Comerciais que se conciliam as tesourarias díspares dos agentes económicos (uns, a quererem pagar mais tarde; outros, desejosos de receber mais cedo); (3) que os Fundos Abertos (ou Fundos de Tesouraria), enquanto veículos especializados no financiamento dos ciclos de tesouraria (através dos mercados de Papel Comercial), tardarão a recuperar a importância que tinham antes da crise eclodir - salvo se ficarem definitivamente abrangidos por um qualquer esquema de garantia pública.
v        É, pois, nos, e sobre os Bancos Comerciais que importa agir: (1) capitalizando-os na proporção do esforço financeiro que deles se espera e dos riscos a que vão ficar expostos; (2) limitando-lhes, por razões prudenciais, o desequilíbrio temporal (ou mismatch) tolerável entre Activo e Passivo; (3) redescobrindo as virtudes do modelo tradicional - no qual os Bancos assumem prioritariamente o papel de facilitadores das transacções comerciais entre Empresas; (4) arredando tudo o que possa prejudicar a actuação da disciplina do mercado (designadamente, fazendo coincidir, para efeitos de supervisão prudencial e divulgação, os “perímetros de consolidação” com os “perímetros de reputação”).
v        Como fazer? Dando plena execução a três regras simples de enunciar (as duas primeiras inspiram já o Novo Acordo, ainda que o Comité de Basileia nunca se tenha dado ao trabalho de as pôr em letra de forma):
-            Em qualquer posição do Balanço, a taxa de retorno que tiver sido convencionada deve incluir (ou cobrir) a perda esperada (a regra do pricing ou da “cobertura horizontal”);
-            Os Capitais Próprios devem superar não só as perdas não esperadas (a diferença entre a perda máxima provável e a perda esperada), mas também eventuais insuficiências no pricing (a regra da adequação dos Capitais Próprios);
-            O acesso aos Mercados Interbancários Secundários (aqueles mercados onde os Bancos trocam liquidez e transaccionam títulos redescontáveis junto do Banco Central) para tomada de fundos deve ser reservado aos Bancos que integram o sistema de pagamentos (a regra da protecção do sistema de pagamentos).
v        E percebendo sempre que o desequilíbrio persistente da BTC é, antes do mais, um fenómeno monetário. (cont.)
Fevereiro de 2009
 A. PALHINHA MACHADO
 

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