Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

burricadas 53

 

os passivos do nosso descontentamento - II
 
v        Com as injecções de liquidez a atingirem valores sem paralelo na história recente (qualquer que seja a medida usada como termo de comparação: PIB, passivo dos Bancos Centrais, stock das Dívidas Públicas nacionais), todos nós nos interrogamos: porque é que os Bancos Comerciais não retomaram ainda o business as usual?
v        A resposta é simples: mesmo para os Bancos Comerciais mais solventes, a liquidez não está a mais - logo, não se gasta, guarda-se. E quanta mais, melhor. Até porque o custo de oportunidade de conservá-la é muito, mas mesmo muito aceitável (na generalidade dos casos, chega a ser um proveito de oportunidade). Vejamos porquê.
v        A teoria, neste caso, ajuda-nos. Um tal comportamento, à primeira vista incompreensível, assenta em dois motivos perfeitamente racionais:
-            O motivo precaução - que, em épocas de grande incerteza (e a incerteza será tanto maior quanto pior distribuída estiver a liquidez, como hoje acontece), procura refúgio na liquidez e em aplicações financeiras sem risco (desde que não se perspective um surto inflacionista ao virar da esquina);
-            O motivo especulação – porque, em tempo de crise, as boas oportunidades oferecidas por quem soçobra não tardam a saltar como coelhos, e há que ter dinheiro na mão para aproveitá-las.
v        Mas os Bancos Centrais, inadvertidamente, também têm dado uma mãozinha: uns continuaram a remunerar as reservas excedentárias (os depósitos dos Bancos Comerciais junto do Banco Central que ultrapassem o nível das reservas obrigatórias) a taxas pouco inferiores àquelas fixadas para a cedência de liquidez; outros (como foi o caso do FED) começaram a remunerá-las, o que antes não faziam; alguns retomaram mesmo a emissão de Títulos (TBC/Títulos do Banco Central) de curto prazo para absorver (ou “esterilizar”) a liquidez excedentária; outros ainda reduziram, vá-se lá saber porquê, a diferença (spread Bid/Ask) entre as taxas directoras de absorção e de cedência de liquidez.
v        Ou seja, uma diferença entre aquelas duas taxas (para não falar na remuneração dos TBC), da ordem dos 4 a 8 pontos-base (0.04%-0.08%) por mês será sempre um custo aceitável para manter, por uns tempos, a liquidez ao abrigo de todo e qualquer risco. Não vá o mafarrico tecê-las...
v        Alguns Governos nacionais (com destaque para o Tesouro norte-americano) também têm colaborado na delicada tarefa de transformar um custo de oportunidade num proveito de oportunidade, emitindo Dívida Pública em catadupa para financiar intervenções (principalmente, sob a forma de empréstimos e subsídios) da ordem dos milhares de milhões.
v        Dívida Pública que os Bancos Comerciais mais líquidos se apressam a adquirir, por excelentes razões: (1) aplicam sem risco; (2) obtêm um retorno certo; (3) passam a dispor de activos que dão acesso imediato às linhas de redesconto do Banco Central (logo, fáceis de converter em liquidez, a qualquer momento e com um custo ínfimo); e (4) se, entretanto, revenderem esses activos, sempre cobram umas comissões (além de recuperarem prontamente a liquidez neles investida).
v        Não surpreende, pois, que os instrumentos de dívida emitidos por Bancos Centrais e Estados estejam a saturar, respectivamente, os mercados interbancários e os mercados financeiros (o conhecido efeito crowding out).
v        E nenhuma entidade causadora de riscos (riscos que uma conjuntura extremamente volátil, como a actual, não permite estimar com precisão razoável), tenha ou não natureza financeira, conseguirá captar fundos enquanto estes passivos que não oferecem risco ocuparem todo o palco e proporcionarem taxas de retorno estritamente positivas.
v        Porque é que Governos e Bancos Centrais não articularam melhor as suas intervenções, ficando estes como fornecedores de liquidez (função que lhes pertence por inteiro) e dedicando-se aqueles à recapitalização dos seus sistemas bancários mediante entradas de capital realizadas com Títulos da Dívida Pública? Perguntará o Leitor. Não sei.
v        E porque diabo os Bancos Centrais não puseram já a zero as taxas de absorção de liquidez (para não falar já de penalizações sobre as reservas excedentárias consideradas “excessivas”)? Não sei (o BIS/Banco de Pagamentos Internacionais, num relatório publicado já este ano, veio chamar a atenção para esta incoerência).
v        Como também não sei porque é que os Reguladores não suspenderam temporariamente as exigências mínimas de Capital (que têm levado tantas Instituições Financeiras à falência), enquanto injectavam liquidez em Bancos e Seguradoras que não tinham problemas imediatos de tesouraria, mas estavam a braços com menos valias em espiral descendente que lhes roíam os Capitais Próprios (dinâmica que a liquidez não consegue obviamente neutralizar).
v        É certo que acabou, por fim, a ficção dos Capitais Próprios formados com empréstimos subordinados (uma singularidade da Banca que ninguém, até hoje, ousou estender às restantes empresas).
v        Mas as garantias estatais prestadas a torto e a direito começam a criar dificuldades cada vez maiores às entidades causadoras de risco (Instituições Financeiras e não só) que se têm mantido (relativamente) sólidas e que, por isso, não são abrangidas por tais garantias.
v        Essas entidades, para se financiarem e manterem financeiramente saudáveis, são obrigadas a concorrer com as garantias prestadas pelo Estado, que estão por todo o lado (uma vez mais a perversidade do efeito “crowding out”, agora redescoberto, mas não de todo apercebido) – sem que a conjuntura económica estabilize num quadro de referência no qual os Investidores consigam medir o risco e, seguidamente, fixar-lhe um preço competitivo.
v        Resumindo. Para os Bancos Comerciais que disponham de liquidez, e queiram conservá-la, existem presentemente três alternativas, todas elas sem risco: (1) Dívida Pública nacional (com acesso ilimitado à “janela” do redesconto); (2) depósitos junto do seu Banco Central (e Títulos do Banco Central, quando os haja); (3) cedências de liquidez nos Mercados Monetários Interbancários (também eles objecto da garantia conjunta de Bancos Centrais e Governos).
v        Porquê, então, correr riscos? Na Banca Comercial, o que está a dar, por enquanto, é esperar para ver. E esperar significa manter o risco à distância.
v        E é por isso que há, presentemente, dois mercados verdadeiramente bull (sem que o facto pareça atrair a atenção dos comentaristas): o da Dívida Pública (com yields próximas de 0, é certo) e o dos depósitos bancários (estes, com taxas de retorno que nem sequer chegam a ser simbólicas). (cont.)

Fevereiro de 2009

 

 A. PALHINHA MACHADO

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D