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A bem da Nação

BURRICADAS 52

 

os passivos do nosso descontentamento - I
v        Alegre-se, Leitor. Por fim, duas boas notícias: esta crise não vai durar sempre, e algumas certezas em que nos compraziamos vão ficar pelo caminho, vazias e sem préstimo.
v        Eis as duas faces do momento que vivemos: a crise só terá terminado quando nada restar dessas verdades até agora intocáveis. E é justamente para isso, também, que as crises servem: ajudam-nos a redescobrir a realidade da qual nos alheáramos.
v        E que redescobertas são essas? perguntará o Leitor, com uma curiosidade displicente. Há-as para todos os gostos, da teoria à prática, além fronteiras e por cá. Vamos a elas.
v        A primeira de todas é que a liquidez (o trivial volume de dinheiro, ou massa monetária, em circulação), que a teoria tinha relegado para o sótão das coisas sem importância (O preço do dinheiro! O preço do dinheiro! Isso sim, é que era o santo e a senha de qualquer estratégia de política monetária que se prezasse), afinal interessa – e muito. Não tanto o seu volume, grandeza estática, mas o ritmo a que esse volume vai variando e, também, a sua distribuição (em cada sistema bancário, em cada economia nacional e no contexto internacional).
v        Nos tempos idos do padrão-ouro, a oferta de liquidez não dependia do querer de nenhuma Autoridade Monetária. Cada economia nacional, se não fosse afortunada ao ponto de possuir umas jazidas de ouro no seu território (ou no das suas colónias e protectorados), teria exactamente a liquidez que os fluxos do comércio internacional lá fossem deixando.
v        Não mais (e por excelentes razões que não vêm aqui ao caso). Hoje a liquidez tem, praticamente, uma única origem: os sistemas bancários. Os sistemas bancários nacionais (no plano interno), e os sistemas bancários das moedas de reserva (no plano internacional).
v        O que é dizer, os meios de pagamento, no comércio local e nas trocas comerciais transfronteiriças, nas operações financeiras simples e naquelas mais complexas, são passivo “à vista” de Bancos: uma pequena fatia, passivo dos Bancos Centrais; o grosso, passivo dos Bancos Comerciais. Nas economias mais desenvolvidas, uma relação entre 1:12 e 1:20.
v        Deste modo, o volume, a taxa de variação do volume e a distribuição dos meios de pagamento em circulação resultam das estratégias de uns (que têm por objectivo os equilíbrios “macro”) e de outros (cujo objectivo é, eufemisticamente, o maior valor para o accionista). Saber, a cada momento, quanta liquidez circula e quanta está disponível para circular não é assim uma dificuldade por aí além: basta olhar para os Balanços do Bancos (de todos eles, Bancos Centrais e Bancos Comerciais) – e esta é a segunda redescoberta.
v        São esses passivos que, hoje em dia, sustentam as economias nacionais, que fazem de algumas delas realidades pujantes – e propensas a crises: sem liquidez não há trocas monetárias; sem trocas monetárias não há modelo de mercado; e sem Bancos (Bancos Centrais e Bancos Comerciais), liquidez (os meios de pagamento) e mercados seriam completamente diferentes daquilo que hoje conhecemos como tal.
v        Passivos que, hélàs! tarde ou cedo, terão de ser pagos, pelo menos em parte: o passivo dos Bancos Centrais (a Moeda do Banco Central), por saque sobre as suas reservas em divisas convertíveis; o passivo dos Bancos Comerciais (a Moeda Escritural), para cobrir posições devedoras perante outros Bancos, ou junto do seu Banco Central.
v        Passivos que, em larga medida, têm por contrapartida a aquisição de direitos pecuniários expostos a diversos riscos. Quer dizer, liquidez e exposição dos Bancos ao risco são, nos tempos que correm, a cara e a coroa da moeda. E esse risco terá de ser adequadamente respaldado por Capitais Próprios - ou pelos contribuintes, se os Capitais Próprios falharem.
v        Tudo era, de facto, diferente sob o regime do padrão-ouro - onde a solvabilidade era medida, mais prosaicamente, a peso de ouro (o que é dizer, pelo ouro, amoedado e em barra, que cada Banco guardasse na sua cave).
v        E eis a terceira redescoberta: injectar liquidez num sistema bancário, sem cuidar do risco incremental (os riscos a que os Bancos Comerciais terão de se expor para conseguirem movimentar rapidamente esse influxo de liquidez) e as correspondentes necessidades de Capitais Próprios, é caminho seguro para o fragilizar. Mas é, precisamente, a isso que temos assistido por esse mundo fora, como se o risco fosse sempre igual ou coisa de somenos, como se as exigências de Capital fossem caturrices do Supervisor.
v        De ora em diante, a exposição dos Bancos ao risco, o risco incremental, as necessidades de Capitais Próprios e a distribuição da liquidez nos mercados interbancários terão de ser, de par com as reservas excedentárias dos Bancos Comerciais e as taxas directoras dos Bancos Centrais, variáveis a ter em conta na construção de uma qualquer estratégia de política monetária - seja ela de estímulo ou de “esteriilização”.
v        A quarta redescoberta envolve duas evidências há muito esquecidas: que o dinheiro só é dinheiro quando está na posse de alguém; e que o dinheiro, quando está a mais, não se esfuma, nem se estraga, nem se põe de lado - gasta-se (ou seja, muda de mãos).
v        Então, para onde terá ido toda a liquidez que os Bancos Centrais não se cansam de injectar nos seus sistemas bancários para relançar o crédito e expandir os meios de pagamento na posse das Entidades Não Financeiras (Famílias, Empresas, etc.)? [Não me refiro só à liquidez cedida por prazos muito curtos (entre 1 e 15 dias), mas renováveis; refiro-me também àquela que tem sido mutuada por prazos superiores a 1 ano, no âmbito da Term Auction Facility, nos EUA, e de linhas semelhantes, noutras partes do mundo].
v        Para debaixo dos colchões, por enquanto, não terá ido. Mudar de país, nomeadamente para se acolher à protecção de um paraíso fiscal, tão-pouco – porque a crise é verdadeiramente global, e a confiança nas instituições financeiras anda pelas ruas da amargura.
v        Foi, sim....para os Bancos Comerciais. Têm sido eles (uns mais, outros menos, alguns nada) a ficar com a parte de leão nas operações de mercado (as tais injecções de liquidez) conduzidas pelos Bancos Centrais. E é nos depósitos bancários, garantidos pelos contribuintes, que o dinheiro retirado dos Fundos de Tesouraria tem procurado abrigo.
v        Assim sendo, porque é que os Bancos Comerciais teimam em não retomar a sua actividade creditícia usual?
v        Em termos agregados, não será, certamente, porque a liquidez sumiu - como por aí se diz. Será porquê, então? (cont.)
Fevereiro de 2009
 A. PALHINHA MACHADO

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