Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

RUY COELHO – 2

 

 
Chegou a Berlim em 1910. Aí começou por ser aluno de Max Bruch, considerado o principal representante do classicismo alemão, na Hochschule. Foi admitido como aluno de composição de Engelbert Humperdinck, o famoso compositor da ópera "Hansel und Gretel", discípulo de Wagner, e que este escolhera para professor do seu filho. Também este mestre lhe terá reconhecido talento pois deu-lhe aulas gratuitamente quando tinha o tempo todo tomado com alunos a quem cobrava caro. Continuou os estudos de piano com Einsenberg e sempre defendeu ser decisivo para um compositor dominar esse instrumento. Posteriormente teve aulas com Arnold Schönberg, criador do Dodecafonismo, que procurou após ter assistido à primeira audição de "Pierrot Lunaire", interrompida por pateadas, e onde encontrou Raul Lino (que mais tarde viria a fazer a cenografia e figurinos para pelo menos um dos seus bailados).
 
Passados uns meses escreveu ao seu mecenas explicando que poderia obter melhores resultados nos estudos se, ao invés de receber a pensão mensalmente, durante os três anos que estava previsto ficar em Berlim, a recebesse toda de uma só vez. Pois constatou que a mesada não lhe chegava para comprar as pautas de que necessitava nem para assistir a concertos. Em resposta, deixou de receber qualquer apoio e viu-se de repente em Berlim, sem meios de sobrevivência. Desesperado, escreve a Teófilo Braga (que não conhecia), dizendo-lhe que se o Português mais ilustre do seu tempo, o não pudesse ajudar, não valia a pena recorrer a mais ninguém. O velho Presidente da República, considerado um dos homens mais cultos do seu tempo, deve ter achado graça, pois terá pedido ao "Monteiro dos Milhões" (o milionário que mandou construir a Regaleira) para contribuir. E lá chegou uma nova bolsa. Acontece que, por essa altura, um músico brasileiro seu amigo em Berlim, voltou para o Brasil, e tendo conhecido um rico emigrante português no Pará, o alertou para o imperativo de ajudar o jovem talentoso Ruy Coelho, à mingua na capital da música. Alerta que veio a resultar na chegada de uma pensão suplementar. Qual não terá sido o seu espanto quando começa a receber de novo o apoio de Herold, o seu primeiro mecenas, ficando assim com três pensões. Ainda se questionou, se deveria informar os mecenas do sucedido e devolver uma parte, mas foi convencido a nada fazer. Foram tempos de intenso progresso pois pôde concentrar-se nos estudos, com os melhores mestres. Foi até a única época da sua vida em que teve bons pianos, pois o seu aluguer era barato. Teve ainda aulas com Paul Vidal em Paris, onde terá conhecido Amadeu de Souza-Cardoso. E escreveu então as suas primeiras obras: o primeiro Lied português; a "Sonata nº 1" para piano e violino (primeira obra de câmara portuguesa com escrita harmónica moderna); o primeiro bailado português; a Suite "Bouquet" para piano (dedicada a Humperdink, que a aprovou); "Largo" para duas violas e dois violoncelos, e a "Sinfonia Camoneana nº1" (a primeira obra portuguesa dodecafónica, politonal, e em que foi empregue a atonalidade).
 
Uma vez terminada a edição da Sinfonia teve, segundo ele, a má ideia de voltar a Lisboa, onde em 10 de Junho de 1913, com apenas 24 anos, assistiria à estreia da mesma, numa récita de gala no S. Carlos, com quinhentos executantes, o maior conjunto coral sinfónico reunido até esse momento em Portugal, precedida de conferência do então ex-Presidente Teófilo Braga.
 
Uns dias depois visita Teófilo Braga, ficando impressionado com a frugalidade em que vivia, sozinho, e confessa-lhe desejar escrever uma ópera mas não ter libreto. Este lê-lhe o "Serão da Infanta" que viria a ser a primeira ópera portuguesa cantada em português na estreia. Fazendo parte das comemorações do 1 de Dezembro de 1913, no S. Carlos e na presença das mais altas individualidades como Manuel de Arriaga e Afonso Costa. O que poderia parecer um início de carreira triunfal, quase é o seu fim. O que aconteceu, e que viria a ser discutido no parlamento e nos jornais, foi que o Ministro dos Negócios Estrangeiros lhe tinha assegurado a bilheteira para oferecer ao corpo diplomático e, à última da hora, o obrigou a oferecer os bilhetes, sob pena de lhe retirar o Teatro. Como tinha montado o espectáculo por sua conta e risco, e fizeram questão de lhe cobrar todos os custos, "mesmo os que não cobravam às companhias estrangeiras", já estava totalmente endividado e não podia recuar. Quando se preparava para iniciar o espectáculo é confrontado pelos músicos: que não tocariam sem receber os honorários. Com o Teatro cheio, dirige-se ao camarote presidencial para relatar o sucedido, sendo recebido por um alto funcionário que se prontifica a resolver a questão, dando-lhe um cartão pessoal como penhor. Mostra o cartão aos músicos que, acreditando estar garantido o pagamento, acedem em tocar. No fim do espectáculo, sem bilheteira nem apoios, vê-se só e com um enorme prejuízo. É acusado de caloteiro e tem de ir ao Governo Civil justificar-se. Não foi preso, pois ao tempo, como lhe explicaram, "em Portugal não se ia preso por dívidas". Chegou a haver uma subscrição pública de apoio, em que surgem à cabeça os seus amigos Mário de Sá-Carneiro e José Pacheco, ambos com 500 Reis.
 
(CONTINUA)
 
5 de Fevereiro de 2009
 
 Rui Ramos Pinto Coelho

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D