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A bem da Nação

ROUSSEAU E RAMEAU

 

 
 
 Rousseau (Jean-Jacques, 1712-1778) achava que seria necessário italianizar o francês para que então a língua passasse a ser «cantabile». Toda a música vocal francesa lhe soava mal e, portanto, os compositores franceses não prestavam. Simultaneamente, considerava que qualquer adulteração da sua língua seria um flagelo pelo que mais valia que os franceses não entrassem na música vocal. Contudo, ele próprio compôs uma ópera, Le Devin du Village, estreada em Fontainebleau em 1752.
 
 Sem dúvida, um raciocínio bastante discutível com Rameau (Jean-Philippe, 1682-1764) a ser dispensado de entrar na galeria dos ilustres da nossa civilização. Se Rameau entrou para a História da música com pleno reconhecimento dos contemporâneos e seus descendentes, então é o silogismo de Rousseau que claudica algures.
 
Mas adivinho duas razões para que Rousseau não gostasse de Rameau:
- Os cantores já então pronunciavam todas e cada uma das sílabas do libreto (o que frequentemente soa mal a quem tenha essa como língua materna) em vez de se concentrarem na melodia;
- Rousseau queria todas as atenções viradas para si sem dividir a glória cultural em França com mais ninguém.
 
Vaidade? Inveja? Vaidade invejosa? Inveja vaidosa? Talvez tudo misturado em quantidades enigmáticas e por certo também alguma razão.
 
De qualquer modo, Rousseau entrou para a História como filósofo e Rameau como músico sem interferências mútuas de significado maior.
 
Relativamente à dicção, os poetas que me perdoem mas a Amália Rodrigues marcou a Cultura Portuguesa esboçando apenas muitas das palavras que cantava e desdenhando a técnica tão ensinada nos Conservatórios da pronúncia meticulosa de todas as sílabas. Esta técnica produz resultados de esmero completamente ridículo, pretensioso, artificial e que, para além de se tornar agreste para o ouvido e de secundarizar a música, incita os homofóbicos à chalaça. Admito que fosse contra esta ridicularia que Rousseau blasfemava, obviamente não contra a língua francesa.
 
A outra hipótese que coloco - a da não repartição da glória - parece-me tão plausível como a anterior e vejo-a como resultado da inveja provocada pela vaidade.
Vaidade é o desejo de atrair a admiração do próximo exibindo com extravagância os pontos que o próprio considera positivos e ocultando os negativos; inveja é o desgosto pelo bem dos outros e o desejo violento de possuir esse bem alheio.
A ordem dos factores não é arbitrária e o mais provável é que Rousseau não quisesse que Rameau se tornasse famoso para que este não o ensombrasse. Como o mérito do músico era amplamente reconhecido, tornava-se necessário dizer mal dele. Mas para que o feitiço não se virasse contra o feiticeiro, vá de teorizar a crítica em vez de a centrar no «alvo a abater».
Todos reconhecemos na cena política casos mais ou menos doentios de vaidade, de inveja, de vaidade invejosa e de inveja vaidosa e devíamos ter um cuidado especial impedindo que esse tipo de sindromas se arvorasse na característica perene do regime político em que vivemos.
 
De acordo com Karl Popper, não deixemos que a discussão sobre o supérfluo significado das palavras nos distraia das discussões sobre as teorias e hipóteses, sobre os problemas que estas levantam, sobre os que resolvem e sobre os que deixam em aberto.
 
Isso, sim, deveria ser urbi et orbi o âmago da cena política.
 
Observemos, meditemos, excluamos o supérfluo e optemos por quem falar sobre assuntos sérios. Sobretudo, excluamos da cena quem mereça desconfiança e optemos por quem nos garanta uma atitude ética assumindo inequívoco Sentido de Estado.
 
 
Fevereiro de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca
 
 

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