Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

UM NOVO MODELO ECONÓMICO-SOCIAL – 3

 

 
 
Em resumo dos dois textos antecedentes, diria que me fixei, muito sucintamente, em duas linhas de orientação: as relações entre o investimento e o mundo do trabalho e o papel do Estado.
 
Como notam, deixei de usar o termo Capital para o substituir por Investimento. Há, pois, uma posição pessoal que quero deixar já bem clara: as minhas palavras não têm como objectivo fazer “fretes” a quem quer que seja, nomeadamente, ideologias. O pensamento económico do séc. XXI jamais será o mesmo que conhecemos nos sécs. XIX e XX. Estamos longe da economia pura de mercado e da economia colectivista. Baseio-me em tudo que pude absorver, através da leitura dos grandes gurus do pensamento económico e da Bíblia que está sempre na minha cabeceira; e umas incursões pela Tora e pelo Corão(*), e, também, da minha capacidade de observação do comportamento da minha geração do período pós II Guerra Mundial até agora, em que perfaço 61 anos e das realidades que vivo desde essa época.
 
Atravessei os consulados de Oliveira Salazar e Marcello Caetano. Vislumbrei na Primavera Marcelista um ténue assomo de claridade e remeti-me, como a maioria dos portugueses, ao silêncio da frustração. O que é que a experiência me ensinou? Que os grandes profetas da história da evolução do pensamento económico se esqueceram de que a Ciência nos ensina que aquilo que é teórico necessita de uma fase experimental e em face dessa experiência, os grandes gurus das teorias económicas, mantiveram-se, prudente e hipocritamente, longe da verdade da prática do dia a dia do ser comum, porque as grandes conclusões práticas lhes retirariam, face às teorias expendidas versus ser comum, o estatuto de estrelas da ribalta académica, sem o qual não existiriam os salões da celebridade dos prémios Nobel e o poder associados.
 
Mas mais, as grandes teorias foram-se enredando em volta de complexidades aritméticas absolutas que contrastam com a teoria simples e primitiva do “do ut des” e o cacete para defesa de interesses próprios. Dou-vos, como exemplo, na economia pública uma das várias obsessões, designadamente, a do défice, que nos atiram como “papão”, para nos manterem enclausurados em regras inventadas para sustento de alguns mentores de subserviências afectas ao interesse global, encadeados num jogo de PIBs, PNBs, dívidas externas, balanças de pagamentos e por aí fora.
 
Mas, a seu tempo, lá iremos. Em algumas aulas, no período de cinco anos, em que leccionei, como Monitor na Faculdade de Direito de Lisboa, constatava, com espanto, que os meus alunos, fruto do imenso “saber” que lhes provinha de uns comícios e de umas leituras recomendadas pelo período “revolucionário” que incluíam um livrinho fininho do Vladimir Illich Ulianov Lenine, “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico”, ficavam conhecedores, técnica e cientificamente, de toda a saga do Bem e do Mal do proletariado versus capitalismo e da revolução cultural maoísta com a leitura inclusa do livrinho vermelho; teorias que lhes eram repetidamente recitadas, acompanhadas do estudo rápido, tendencioso, enviesado e suspeito, por isso mesmo, de Marx e de Engels, em acções de formação política de várias horas; e que saber umas patacoadas sobre as leis da superstrutura e da base, os credenciava para serem
Ministros das Finanças; ignorando, com constatada falta de inteligência, de que as teorias de Marx foram escritas no período específico da Revolução Industrial que alguns ainda hoje não sabem o que foi... e que, erradamente, serviram para aplicar e adaptar a tudo quanto se mexesse em matéria de economia e debitasse teorias sobre perseguições do capital ao operariado desprotegido.
 
Karl Marx, em presença destas novas realidades, construiria outra teoria, provavelmente, totalmente diversa. É claro que houve operariado perseguido, quem nega? Assim como houve aos cristãos na Roma Antiga, aos judeus no Nazismo, aos reformistas na Revolução Cultural Maoísta e mais uma data de exemplos. Não refiro nomes, porque o meu objectivo não é condenar a juventude iluminada e imatura (também lá passei) sequiosa de liberdade, igualdade e fraternidade; o meu objectivo é ajudar a tornar compreensível o que se passa e caminhar para o pensamento económico do séc. XXI.
 
Pretensão minha? Seja, mas falo e digo o que penso, baseado no estudo teórico e confrontando-o com o dia a dia das sociedades! Assentemos, pois, que o Capitalismo, tal como o conhecemos, já teve a sua era, com defeitos e virtudes, tal como os outros sistemas económicos. Revivendo, ainda, esse período longínquo do 25 de Abril de 1974, de iluminismo político que os historiadores irão ter dificuldade em classificar de Revolução ou Golpe de Estado, recordo os meus alunos que chegaram a atingir a barbárie do conhecimento quando me confundiam Engels com Hegel, apesar de este ter deixado teoricamente a porta aberta para nos enredarmos entre o socialismo e a social-democracia, que hoje é prática política comum entender-se pela acção governativa de que não há diferenças entre uma e outra posição ideológica.
 
Deus nos valha!
 
Aos políticos que nos governam bem falta lhes fazia lerem-me Soljenitsine ou, quiçá, Camus, ou então, fazerem umas expiações culturais nos arrozais nas margens do grande rio Huang Ho, ou umas estadias, em regime de férias controladas, em qualquer gulag na Sibéria.
 
Mas estas referências são mais desabafos intelectuais e defeitos do estilo barroco do modo como me expresso escrevendo, do que o futuro que nos aguarda e sobre o qual vos pretendo falar, sugerindo.
 
AS LEIS DA ECONOMIA
 
Não, o Adam Smith e Lord Keynes, não são para aqui chamados. Pensemos por nós.
 
Se a economia funciona é porque tem de haver quem queira comprar bens, quem queira vender e quem produza. Nesta trilogia, neste contexto global, a riqueza faz parte desta soma aritmética: matéria prima para produzir o bem que alguém quer comprar e que outrem quer vender. Mas, em vez de se reduzir a esta singularidade primária, o ser humano tinha de inventar o lucro, ou seja, a diferença entre o custo da matéria-prima, acrescidos dos encargos da produção e o valor do produto final mais a usura. E as leis foram crescendo, complicando-se, para esconder o óbvio, determinando-se os valores pela dependência da oferta e da procura (que também são leis), inventando-se, mais uma vez, a escassez ou o excesso de produção, para determinar o preço. O preço? Ah! O preço pai do lucro. O grande erro dos gurus das teorias que foram determinando a evolução do pensamento económico é terem-se esquecido de um factor determinante no funcionamento dos mercados e da economia e que esteve sempre presente: o factor humano! E de lei de mercado em lei de mercado, foram-se acrescentando complexidades matemáticas a estas, com inclusão de impostos para sustentar as máquinas do Estado, cada vez maiores e mais complexas.
 
Foram crescendo cada vez mais indústrias e comércios, produzindo-se cada vez mais riqueza, acumulada em património duradouro ou bem fungível, que foram ficando retidos nas bolsas de privilegiados e as economias foram ficando saturadas de excessos de toda a ordem... A globalização trouxe-nos a compreensão de uma verdade inexorável, cada vez mais é urgente repensar melhor a distribuição da riqueza, não para diminuir os classificados de ricos, mas para equilibrar a partilha e minorar o sofrimento.
 
Não tenho qualquer dúvida de que o fosso nunca desaparecerá, não há Igualdade Absoluta; poderá é ficar menos escandalosamente evidente. Assim, não diria como
Engels e Marx, mas como cidadão da globalização: “Povos de todo o Mundo, uni-vos!” Neste conceito cabem todos e não só osproletários. Ao referirem no seu célebre chamamento só os proletários àluta de classes, Marx e Engels impuseram logo à sociedade global doisopostos: os proletários, vítimas e os outros, quando do conhecimentoactual sabemos que as vítimas mais indefesas não eram os proletários.
 
Creio que é necessário rever todas as leis da economia, tal como as aprendemos no passado e são prática no presente, atentos à influência incontornável de duas realidades absolutas: a informação que nos dá conta da verdade global e a robótica que nos organizará o futuro.
 
(continua)
(*) No final desta dissertação referirei toda a bibliografia
 
  Luís Santiago

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D