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A bem da Nação

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«Os Portugueses no Faroeste – Terra a perder de vista», de Donald Warrin e Geoffrey Gomer

À primeira vista, os nomes John Vey, John Phillips ou John Enos não serão uma referência para nenhum emigrante português. Mas quando se sabe que estes «americanos» nasceram João da Cunha Veiga, Manuel Filipe Cardoso e João Ignácio d’Oliveira, a impressão já é outra… Em comum têm o local e século em que nasceram - os Açores, na primeira metade do século XIX - o facto de terem emigrado para os Estados Unidos, onde os nomes foram «americanizados», e ainda de estarem entre os primeiros portugueses a conquistar o Faroeste americano. A saga destes pioneiros foi reunida num livro lançado em Portugal.


EUA: Os heróis açorianos do faroeste
Mais de século e meio depois, as histórias destes e de outros pioneiros – maioritariamente nascidos no arquipélago dos Açores – foram reunidas numa obra que pretende registar e homenagear homens (e também algumas mulheres) inovadores e destemidos que se destacaram numa região dos Estados Unidos em tudo diferente da terra onde nasceram e à qual, muitos, nunca mais voltaram.

O livro «Os Portugueses no Faroeste - Terra a perder de vista», de Donald Warrin e Geoffrey Gomer, acaba de ser lançado em Portugal, e fala de portugueses que ultrapassaram os seus limites e obtiveram resultados surpreendentes em áreas que nada tinham a ver com as tradicionais actividades que muitos exerciam em Portugal, como a exploração de ouro, o comércio de peles, a exploração mineira, a construção civil ou a criação de grande número de cabeças de gado e de ovinos.
“Espantaram-me. Foram inovadores, valentes, individualistas, homens de destaque a nível unitário, estadual e regional. Era gente esperta e destemida, e é-me muito difícil resumir as suas características em algumas palavras”, revelou o historiador americano Donald Warrin a O Emigrante/Mundo Português.

Dez anos de investigações

O livro resulta de uma investigação extensiva e rigorosa, e reúne 50 fotografias e biografias pormenorizadas de figuras de destaque e de outras menos famosas, mas igualmente importantes. Os historiadores Donald Warrin e Geoffrey Gomes começam por oferecer um panorama geral da história de Portugal, com destaque para a emigração e o papel de relevo desempenhado pela caça à baleia, na ida de portugueses para a Nova Inglaterra e mais tarde para a Califórnia.
Explicam ainda as condições geográficas, sociais e históricas encontradas por esses colonos portugueses numa determinada região, para depois contarem as muitas e bem sucedidas histórias de que foram protagonistas.
Donald Warrin explica que foram precisos dez anos para concluir a obra, porque as investigações eram realizadas nos tempos livres. “O Geoffrey não viajava, gostava de ficar nos arquivos. Eu, sempre que tinha possibilidades, durante os verões quando não leccionava, passava semanas a viajar pela grande expansão do oeste americano, em estados como o Novo México e Wyoming, a descobrir comunidades de interesse e informações escondidas em arquivos”, recordou.
A história da parceria entre os dois historiadores - um americano sem raízes portuguesas e um luso-descendente - surgiu numa conversa informa. “Moro na área da baía de São Francisco, estou a par da presença portuguesa por aqui e nos estados vizinhos e interessei-me pelo assunto”, começa por explicar. Professor de Literatura Portuguesa e Brasileira durante muitos anos, Donald Warrin começou a interessar-se pela comunidade açoriana que reside na Califórnia e a escrever artigos sobre a literatura produzida por membros dessa comunidade. Não foi preciso muito tempo para começar a escrever sobre a história da sua emigração…
Em 1986, publicou duas colectâneas de poesia de açorianos radicados na Califórnia. Ao investigar em jornais em língua portuguesa naquele estado, acabou por descobrir tantos autores, que decidiu publicar, juntamente com o professor Eduardo Bayonne Dias, da Universidade da Califórnia, um livro intitulado «Cem Anos de Poesia Portuguesa na Califórnia». Um dos retratados era Alfred Lewis, natural da Ilha das Flores, autor de livros de poesia. “Foi na altura do lançamento de um livro de Alfred Lewis, em Angra do Heroísmo, que alguém se aproximou de mim, disse-me que tinha sido nomeado sócio correspondente do Instituto Histórico da Ilha Terceira e pediu-me para voltar no ano seguinte para fazer uma comunicação. Aceitei e disse que iria falar sobre os portugueses nos estados de Nevada e Oregon”, recorda.
Entretanto, o trabalho de investigação levou-o a descobrir “tantas histórias interessantes” em Nevada, que o trabalho incidiu apenas em histórias de portugueses naquele estado. “Fiz várias viagens e entrevistas, publiquei alguns artigos e depois continuei por Oregon. Ficava cada vez mais surpreendido com as minhas descobertas”, sublinha.
Foi nessa altura que, ao conversar com o amigo Geoffrey Gomes, soube que o historiador luso-descendente tinha «descoberto» dois portugueses - Peter Joseph e António Monteiro - negociantes de peles no interior do Faroeste e ainda Manuel Brazil, um criador de gado bovino do estado do Novo México e natural da Ilha de São Jorge, que ficou célebre por ter ajudado o xerife Pat Garret a prender o célebre pistoleiro Billy the Kid.
“Decidimos então escrever o livro. O Geoffrey escreveu sobre esses homens e eu escrevi o resto do livro, mas ele ajudou-me a editá-lo”.

Comunidades longínquas…

«Os Portugueses no Faroeste» reúne histórias que percorrem um período de cem anos, entre 1830 até 1930, desde a chegada dos primeiros pioneiros até ao declínio da emigração portuguesa em estados do interior, como o Wyoming, Novo México ou Oregon. Mais tarde, foi a Califórnia a atrair a emigração portuguesa, proveniente principalmente dos Açores. “Não chegaram muitos açorianos depois da corrida ao ouro, a grande emigração de portugueses para o Faroeste foi por volta de 1880”, revela o historiador que percorreu muitas pequenas cidades do interior desses estados para descobrir histórias, muitas delas em locais onde, a princípio, não acreditava que as pudesse encontrar.
Das viagens - que afirma ter sido a parte do trabalho que mais lhe agradou – recorda a passagem por uma pequena cidade no estado do Wyoming. “Entrei na biblioteca, expliquei que andava à procura de histórias da presença portuguesa. E a senhora surpreendeu-me ao dizer que tinham uma colectânea de informações. Mostraram-me vários documentos relacionados com a antiga presença de açorianos na região. Telefonei ao Geoffrey quase imediatamente a dizer-lhe que ali, tão longe, conheciam bem os portugueses. Foi uma surpresa”, contou. A cidade em questão, chama-se «Buffalo».
Donald Warrin não tem dúvidas de que as viagens “foram enriquecedoras” e sublinha que, do que mais gostou ao longo dos dez anos de pesquisa, foi ter podido travar conhecimento “com muitos indivíduos, famílias e comunidades ligadas aos portugueses”. E perceber que estes preservam com orgulho as histórias dos seus antepassados.
“Recolhi muitas histórias orais e percebi que a memória desses pioneiros mantém-se muito «viva» nos seus descendentes”, afirmou, recordando a surpresa que teve, mais do que uma vez, ao chegar a uma cidade para entrevistar uma ou duas pessoas, “geralmente muito idosas”, e encontrar metade da comunidade reunida a assistir à entrevista. “Têm realmente muito orgulho do seu passado, às vezes as suas recordações não estavam cem por cento de acordo com os documentos, mas de modo geral, ajudaram-me a dar um toque mais vital à obra e a dar-me ideias para prosseguir na investigação”.

Chrys CHRYSTELLO 
 

 http://www.mundoportugues.org/content/1/2966/eua-herois-acorianos-faroeste

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