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A bem da Nação

AS CRISES DOS OUTROS

 

 
Rever crises anteriores e alheias talvez nos ajude a compreender e enfrentar a actual crise financeira que se instalou no Ocidente. 
 
Em 1997, a região da Ásia-Pacífico foi abalada por uma crise que começou por ser cambial mas rapidamente se estendeu aos restantes ramos da economia. Então como agora, tudo começou por um short gigantesco.
 
Ao longo da década de 90, terminada a Guerra fria, os grandes decisores do sistema internacional trocaram, em relação á região Ásia-Pacífico, a lógica política pela lógica do mercado. Indiferentes a esta modificação conjuntural, os sectores financeiros das economias locais continuaram a ser geridos por critérios políticos. A contradição instalou-se e não tardaria a ser identificada. A lógica do mercado é imoral. Não recompensa de forma mais generosa os eficientes e os criativos. O prémio maior vai injustamente para quem detecta falhas no sistema e as explora. Vários factores ajudaram os propósitos de natureza especulativa, designadamente, a liquidez crescente do sistema financeiro internacional, a facilidade e rapidez das transferências e a acumulação desta liquidez nas mãos de operadores - poucos e frios. O sistema tornou-se altamente punitivo. Cedo,  os operadores detectaram a falácia do crawling peg. Os países asiáticos continuavam a absorver capital - e a pagar mais caro para o obter - apesar da queda da rendibilidade das aplicações produtivas internas. Os operadores cambiais concluíram que a cotação das respectivas moedas era artificial e entraram no mercado a vender. As moedas visadas caíram e não houve banco central capaz de o impedir.
 
O ano de 1997 terá sido o annus horribilis. A crise cambial infectou primeiro a Tailândia mas contagiou rapidamente aos restantes “tigres” asiáticos : – Malásia; Hong Kong, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan. O Japão não conheceu a crise cambial, mas a sua economia revelou imediatamente sintomas de recessão. O governo indonésio de Suharto apregoava que a economia interna era imune à crise. “A Indonésia não era a Tailândia”, afirmava-se, mas, na realidade, a economia indonésia não tinha maneira de fugir ao contágio da crise. O Japão era o seu principal mercado externo e principal fonte de financiamento. Os bancos japoneses encontravam-se em dificuldades e procediam ao repatriamento dos capitais. A vulnerabilidade indonésia resultava de que 1/5 da sua dívida externa, equivalente a 1,5 vezes o volume das reservas, estava titulada a curto prazo. A rupia indonésia resistiu mais tempo do que as outras moedas mas, na realidade, era a mais vulnerável de todas. Perante os primeiros sinais de fuga de capitais, em 14 de Agosto de 1997, o Banco Central alargou a margem de flutuação da rupia no sistema do crawling peg . Imediatamente a moeda local entrou em queda.
 
A cultura áulica prevalecente no país não permitia a quem quer que fosse dizer ao príncipe que a política estava errada. A Coreia, Hong Kong e o Taiwan neste aspecto estavam em melhor posição: contavam com governos novos, circunstância que facilitou a mudança de política com atribuição do ónus da crise ao regime anterior. No caso de Hong Kong, melhor ainda: - o regime era novo. O remédio foi drástico: - as autoridades nada fizeram para salvar as empresas e bancos que estavam em má situação; deixaram-nas falir. Os accionistas, empregados e credores destas empresas pagaram o preço da crise e esta passou. Na Indonésia, passou-se o contrário. O governo agarrava-se às paredes. O regime pretendia sobreviver a crise. Quando começou o ataque à rupia, o Banco Central queimou cerca de 500 milhões de dólares americanos na tentativa de salvar a moeda e o sistema bancário interno e não conseguiu. Esgotadas as reservas, não restou outra solução senão pedir ajuda ao FMI. Em Outubro de 1997, o governo deu carta branca ao FMI e ao Banco Mundial para intervirem na economia local, contra um empréstimo de $23 mil milhões. Pensava-se que uma gestão de cunho sistémico seria capaz de restabelecer rapidamente a confiança.
 
O sistema internacional contra-ataca.
 
O problema numero um que se põe a quem pretende sanar uma crise económica consiste em decidir quem a vai pagar. O ideal seria que a crise fosse paga por quem dela beneficiou. Na Indonésia, porém, os responsáveis continuavam no poder. A primeira medida tomada pelos interventores foi o encerramento de 16 bancos locais. A medida não distinguiu entre banqueiros e depositantes. Culpados ou não, foram todos incluídos no mesmo rol. O resultado imediato foi a criação de uma dívida interna no valor equivalente a $ 80 mil milhões, até aí praticamente inexistente. Os banqueiros teriam criado activos no exterior pelo que provavelmente terão podido amenizar, no que lhes tocava, o efeito da punição. O mesmo não acontecia com os aforradores. Estes mantinham o seu dinheiro na Indonésia, estavam activos na produção e, confiados ou desconfiados, continuavam a investir na economia local. Tratava-se pois da pequena e média burguesia, esteio vital do crescimento económico. Privada das suas poupanças, a capacidade dinamizadora do pequeno e médio empresário ficou reduzido a zero: Perto do zero   ficou também o poder aquisitivo da classe média. O mercado interno já de si exíguo encolheu correspondentemente.
 
A imposição seguinte do FMI foi a abolição do subsídio alimentar e o de combustíveis domésticos. A verba correspondente seria doravante usada para atender ao serviço da dívida externa. As segundas vítimas foram portanto os pobres e a classe trabalhadora: ficaram com menos dinheiro para comprar alimentos e combustível para os cozinhar. O FMI desfechou assim golpe fatal no mercado interno. Esta medida, desastrosas para a economia local, mostra que as o FMI se regula estritamente por critérios financeiros e de curto prazo.
 
Suharto não se opôs ao encerramento dos bancos e aceitou o cancelamento dos subsídios populares mas, quanto a estes, fê-lo com reservas mentais. Tencionava mantê-los sob outras formas. Ele sabia que a abolição dos subsídios seria o toque de finados do seu governo. De nada lhe valeram contudo os estratagemas de que lançou mão. Ao aperceber-se da manobra, o FMI suspendeu a ajuda e retirou-se da cena. Suharto teve que ceder. O serviço da dívida externa teria prioridade sobre os gastos sociais[1]. Tal era na interpretação do FMI a vontade do sistema internacional.
 
As novas regras da economia estabelecidas pelo FMI foram impiedosas para o proteccionismo: extinção do monopólio estatal da importação de cereais; redução gradual dos impostos sobre a importação; revisão da política industrial, com cancelamento das projectadas indústrias de automóveis e de aviões; definição de objectivos para as políticas macro-económicas, designadamente a obrigação de manter um saldo positivo orçamental equivalente a 1% do PIB. Como compensação, o FMI prometeu o pagamento a prazo dos débitos privados resultantes do encerramento dos 16 bancos.
A confiança não voltou. O aspecto meio-termo de algumas das medidas não ajudaram a inspirar o sentimento de que a crise estava superada. A economia continuou a afundar-se. Tornou-se necessário negociar segundo acordo, situação que o FMI aproveitou para impor condições ainda mais duras.
 
O critério financeiro
 
Em meados de 1998, o Banco Mundial reconheceu finalmente que “a Indonésia está mergulhada numa profunda crise económica”. Implícita estava a crítica ao procedimento do FMI. Mas era tarde. A economia já retrocedera 13,8%, a inflação ia na casa dos 80%; 30%  da massa laboral estava no desemprego e metade da população voltara a encontrar-se abaixo do nível de pobreza. O remoque do BM não resultou: o FMI manteve a sua política. Cerca de 60% da receita do estado continuou a ser destinada ao pagamento dos juros da dívida externa.
Nenhum país com a dimensão da Indonésia tinha sofrido até então efeito socio-económico tão dramático. O desastre atingiu todas as classes, excepto talvez o núcleo dirigente A descapitalização da pequena burguesia e a redução do poder de compra das massas populares não ajudou a recuperação. A dimensão do mercado interno, que já era diminuta antes da crise [3,5 mil milhões de dólares, sensivelmente igual à dimensão do mercado português], ficou consideravelmente reduzida, tornando-se insuficiente para apoiar o relançamento da economia. A Indonésia teve que absorver a totalidade do impacto pois não tinha como transferir para o exterior os custos da crise. A exportação de manufacturas estava sob o controlo de empresas sediadas fora do território, obedientes à sua própria lógica, e como tal indiferentes às vicissitudes da economia local. Ao contrário do que acontecia na Coreia, no Taiwan e, em menor escala, na Malásia, o tecido empresarial autóctone indonésio ainda não incluía grupos empresariais com capacidade e experiência para operar no mercado mundial. As empresas coreanas e taiwanesas dispunham de ampla rede internacional de distribuição e puderam dilatar imediatamente o volume de vendas graças à desvalorização das moedas nacionais. Quem sofreu no caso foi a concorrência externa. A Indonésia não dispunha de tais facilidades. Ali, quem pagou e continuará a pagar a crise foi e é o povo.
 
As cousas não melhoraram desde então. Em 2001, a dívida externa ascendeu a $152 mil milhões [60% do PIB][1]. O serviço da dívida continuou a absorver 70% do rendimento fiscal. Segundo testemunho posterior da Professora Anne Booth[2], da Escola de Estudos Orientais da Universidade de Londres, (“Crisis and Poverty”, Março de 2002), os efeitos sociais da crise eram então difíceis de medir. Continuam a fazer-se sentir em milhões de lares em todo o país. Os salários reais estavam longe de recuperar os níveis anteriores. O que se podia constatar é que milhões de operários regressaram à agricultura, fenómeno que torna improvável a subida do nível dos salários nos anos mais próximos. A grande maioria dos Indonésios está condenada a ter a pobreza por companheira, até onde se pode ver. Os frutos da globalização para eles pouco mais serão do que miragem.
 
General Domingos de Oliveira - A bem da Nação Luís Soares de Oliveira
1. [Números publicados pelo IHT em 26.01.03]
 
 


 
[2] Anne Both, “Crisis and Poverty”, Londres, Março de 2002

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