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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 40

 

 
 
Título: D. Teresa – a primeira rainha de Portugal
Autor: Marsilio Cassotti
Tradutora: Ana Isabel Ruiz Barata
Editores: A Esfera dos Livros
Edição: 1ª, Junho de 2008
 
 
 
 
Viseu foi a capital da Galiza e um Arcebispo de Braga que foi Papa, eis duas novidades que aprendi neste livro. Mas para todos os que fizemos a instrução primária portuguesa durante o século XX, a Condessa D. Teresa não passava disso mesmo: uma Condessa. Mais nos habituámos a pensar que ela queria continuar integrada na Galiza, que se amancebou com um Conde galego e que por isso o seu filho legítimo, D. Afonso Henriques, a venceu militarmente ali pelos arrabaldes de Guimarães nos campos de S. Mamede agrilhoando-a de seguida até ao seu passamento.
 
Com dimensões aceitáveis, o livro compõe-se de 215 páginas de texto, 40 apenas com gravuras e respectivas legendas, 5 de árvores genealógicas, 22 de notas explicativas e 3 de bibliografia. Prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins com a qualidade de conteúdo e estilo a que nos habituou e que dispensa apresentações.
 
Dá para imaginar que se trata de tese académica – tal a qualidade (e quantidade) da fundamentação – que foi trazida aos circuitos comerciais por se tratar não só de tema relativamente acessível mas sobretudo porque a população portuguesa em geral o encara de forma diversa da aqui apresentada.
 
Sim, Portugal teve esta primeira Rainha mesmo antes de ser um Reino independente. Parece um contra-senso mas não é: houve um Papa que nomeou a Infanta Teresa de Rainha de Portugal sem que se visse na necessidade de reconhecer a nossa independência relativamente a Leão e Castela. É o que se chama dar uma no cravo e outra na ferradura. E como uma Rainha só poderia prestar vassalagem a um Imperador, nada mais fácil do que deixar ao Rei de Leão e Castela intitular-se Imperador. Fizesse-se-lhe a vontade se isso o enchesse de gáudio e simultaneamente resolvesse problemas típicos da hierarquia medieval.
 
Como nota aparentemente menor, registe-se que se a gravura da capa da autoria de Bernat Martorell pertencente ao Museu Nacional de Arte da Catalunha corresponde à realidade fisionómica da protagonista do livro, podemos afirmar que se tratava de mulher especialmente bela. Mesmo hoje e salvaguardadas as distâncias, não se poderia dizer que D. Teresa ofendesse os nossos conceitos de estética feminina. Isso dá para imaginar o que em vida ela terá posto de cabeças masculinas – laicas, confessas, eruditas e prosaicas – às voltas… O Conde Fernando Perez de Trava não era seguramente insensível à estética feminina, não descuraria por certo as mordomias resultantes duma ligação amorosa alternativa a um casamento de conveniência política que na juventude lhe tinha sido imposto, não haveria de menosprezar o exercício do poder que D. Teresa lhe concedeu como governador de Coimbra. Fernando Perez de Trava comportou-se como homem e ponto final na discussão. Isso de um novo Reino era coisa que não estava ainda perfeitamente clara na ideia de muitos. Na dele, por exemplo, que tinha interesses materiais do outro lado da futura fronteira.
 
E o Autor conduz-nos pelos meandros interessantíssimos do feudalismo medieval com uma sabedoria tão fundamentada que só podemos concluir pela evidência de que a vida existia por estes lugares antes da batalha de S. Mamede. É que do modo como a História nos foi contada pelas professoras primárias até parecia que antes de D. Afonso Henriques só havia celtas e cartagineses enamorados por princesas mouras encantadas…
 
E foi nessas épocas para nós algo obscuras que Viseu foi capital da Galiza, que ali morreu um Rei de Leão varado por uma seta moura e que o Conde D. Henrique chegou cá como se costuma dizer «com uma mão a trás e outra à frente». Mas deu-se ao respeito pelos méritos que foi evidenciando não só junto do sogro, esse grande monarca que foi Afonso VI de Leão, mas também perante a nobreza mais ou menos importante desde a da corte leonesa até à dos vales do Mondego, do Minho e do Douro. E foi ele o primeiro a conquistar aos mouros cidades importantes como Santarém e Lisboa entretanto perdidas por inépcia do seu cunhado o Conde Bermudo casado com Urraca, futura Rainha de Leão e Castela, meia-irmã da nossa D. Teresa.
 
E são tantas e tantas as novidades que vamos lendo ao longo do livro que dá para imaginar como a História pode ser escrita de formas diferentes sem nunca faltar acintosamente à verdade.
 
 
Sim, posso contar o final do livro: é feliz e consiste na independência de Portugal.
 
Se todas as teses académicas fossem deste modo apresentadas ao grande público, a Academia não andaria por certo tão ausente da vida corrente da nossa Nação.
 
Lisboa, Janeiro de 2009   
 
 Henrique Salles da Fonseca

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