Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

AMÉRICA – II

 

TRANSPARENTES E OPACOS
 
 
Diz-se que um mercado é transparente quando qualquer pessoa, em qualquer lugar, consegue conhecer os preços nele praticados, quando esses preços se formam pelo confronto da procura e da oferta e quando o número de operadores envolvidos é de tal modo grande que existe um efectivo anonimato das ordens de compra e venda.
 
Situações de monopólio, monopsónio, oligopólio ou oligopsónio não são naturalmente transparentes, ou seja, quando o número de operadores não é suficientemente grande para que se possa garantir o anonimato das compras e das vendas bem como não esteja garantida a lisura no método de formação dos preços.
 
É para garantir a transparência dos mercados – e por maioria de razão para os que sejam tendencialmente opacos – que existem Entidades Reguladoras habitualmente nomeadas pelos Governos. Se a actuação das Entidades Reguladoras não for exemplar, então tudo pode ser posto em causa, os mercados deixam de oferecer garantias de transparência e a manipulação passa a constituir uma suspeição.
 
E quem diz Entidades Reguladoras disto e daquilo, diz Autoridades daquelas e doutras coisas… Por exemplo, à Autoridade Monetária cabe executar a política monetária e assegurar o funcionamento dos mercados financeiros.
 
E tudo isso sempre funcionou relativamente bem na América a tal ponto que foi por lá que nasceram muitas das modernas teorias económicas que há décadas vêm embevecendo o mundo e atazanando quem se perfile por doutrinas menos liberais.
 
Até que em 1987 o Presidente Reagan nomeou Alan Greenspan para a presidência do FED e o «laissez faire-laissez passer» se instalou a par das modernices financeiras mais sofisticadas (aquela de se vender antes de se comprar tem que se lhe diga…). Tão sofisticadas que depois de tudo ter dado para o torto até nos perguntamos como é que foi possível essas coisas terem acontecido. E para gáudio de quem saiu, foi depois da sua saída que a bronca estalou e é agora Bern Bernanke, o novo Presidente do FED, que tem que pegar o toiro pelos cornos. Mas não está só. O Secretário do Tesouro, Henry Paulson, já lhe garantiu ontem o contrário do que decidiu hoje de manhã e tudo isso enquanto não concluiu o despacho desta tarde… Mas entretanto a nossa Dona Branca mandou para lá uns conselheiros trabalhar com o Senhor Bernard Maadof…
 
Se não fosse dramático até dava para rir. Mas não dá vontade nenhuma de rir e os americanos – que já estavam atrapalhados com o ambiente político de duas guerras sem fim que Bush II inventou – ficaram em estado de choque com esta crise financeira que levou tanta gente da classe média ao desespero. Nada pior para um povo do que constatar que lhe traíram a confiança que ele depositava nas instituições, nomeadamente nas financeiras. Já não podia confiar nos políticos de serviço que mentiram decidindo sobre falsas questões, agora constatou que vivia no engano duma riqueza que afinal não existia.
 
Tudo conjugado em três palavras ignominiosas: fraude (financeira), abuso (da confiança) e desperdício (da juventude em duas guerras de difícil justificação).
 
Sim, em todos estes casos – políticos, económicos e financeiros – se não se é transparente é porque se é opaco; não há translúcidos.
 
Assim lhe chegou à América a mostarda ao nariz que deu uma valente punhada na mesa votando numa mudança radical chamada Barack Obama. Em busca do bem comum.
 
Foi a essa América que em 27 de Dezembro cheguei, não à da vergonha.
 
Gostei do que vi até porque nós por cá também já começámos as nossas abluções. Só nos falta dar a punhada na mesa.
 
Lisboa, Janeiro de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca
 

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D