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A bem da Nação

AMÉRICA – I

 

O GRANDE ANÓNIMO
 
 
1ª Referência: O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, retrata a sociedade nova-iorquina e de Long Island dos eufóricos anos 20 do século passado, imoral e fútil, constituída por gente rica, remediada e sabe-Deus-o-quê. Da história não consta o passado de ninguém, só o presente conta e quanto ao futuro logo se verá…
2ª Referência: Terá acontecido algures no final do séc. XIX ou início do XX que um Lord britânico convidou o Embaixador americano em Londres para um fim-de-semana no castelo da família, uma das mais antigas da Velha Albion. Deixadas as Senhoras à mesa no final do jantar, rumaram os Cavalheiros à sala de armas para fumarem e molharem a palavra. Convidado de honra, ao Embaixador foi detalhadamente explicado pelo anfitrião e demais parentes o significado de todos e cada um dos troféus obtidos em tantas batalhas com que se construiu a Grã-bretanha. Não ficaram por explicar os estandartes bem como toda a genealogia dos figurões pendurados nas paredes em vistosas molduras. E essa árvore genealógica começava uns quantos séculos antes até ao actual titular de tanta honra herdada, membro da Câmara dos Lordes, ali presente. Fumo inebriante à mistura com álcool entusiasmante, chega o anfitrião ao fim da sua brilhante travessia familiar da História (ou da história familiar?) e pede ao Embaixador que explique aos presentes a história da sua própria genealogia. E o Embaixador, lacónico mas claramente influenciado pela antiguidade dos factos relatados, pelo fumo dos fumados e pelos vapores dos bebidos, explica: - A minha genealogia começa comigo.
3ª Referência: Em Dezembro de 1982 visitei o Museu de História em Washington DC e dei por mim a passar em frente duma colecção de manequins que exibiam os vestidos das Segundas Damas dos EUA, as mulheres dos Vice-Presidentes. Logo de seguida admirei formalmente a ferradura de uma das mãos do cavalo de George Washington (ou seria de um pé?).
4ª Referência: No seu livro “PORTUGAL TRADUZIDO” o meu Amigo John Wolf lastima-se de que por cá funcione o parentesco (a «cunha») e o mérito não seja anónimo como nos seus EUA.
- x – x -
Embora Fitzgerald idolatrasse os ricos e o glamour da época, ele não se conformava com o materialismo sem limites e com a falta de moral. Cada um valia pelo que exibia e não pelas credenciais herdadas. Idem com o Embaixador americano em Londres, nascido das salsas ervas e fundador duma dinastia cujo desenvolvimento se desconhece.
Mas país que se preze – e os EUA têm todas as razões para muito se prezarem – tem que contar a sua História e à falta de volumosos motivos agarra em temas que para quem tem quase 900 anos de História nacional parecem risíveis. Ou seja, os EUA não são especialistas em matérias relativas ao passado. Pelos vistos, tanto no do país como no das pessoas.
 
Claramente, os EUA ainda não são um país com ‘ontem’; são claramente do futuro porque neste instante não exibem um orgulho generalizado sobre os dois últimos mandatos presidenciais, estes que agora chegam ao fim, de Bush II.
 
Numa sociedade em que os filhos saem de casa dos pais quando acabam o ensino secundário, lógico é que não estejam todos os dias a telefonar para casa a pedir ao papá ou à mamã que fale com o professor disto ou daquilo a chamar a atenção para os méritos não reconhecidos do rebento. E cada um amanha-se como pode na desenfreada concorrência que o rodeia em todas as circunstâncias por que vai passando logo a partir dos bancos da Escola.
 
E afinal, como será? Ganham os melhores ou os que têm menos escrúpulos? Pois é aqui que entra uma outra característica muito importante da sociedade americana: podem não ter um volumoso passado mas têm uma Ética fortíssima que impõe regras inultrapassáveis por quem não quer ter problemas com a sociedade envolvente e, em casos mais graves, com a Polícia. Nos EUA vencem os bons anónimos.
 
Paradoxalmente, nós em Portugal temos uma História riquíssima mas derrubámos a Ética de modo a dar força a todos aqueles que não têm escrúpulos. Em Portugal vencem os espertos famosos.
 
Nestas coisas pensava eu enquanto me passeava em Nova Iorque à espera da festa de passagem do ano em Times Square.
 
Lisboa, Janeiro de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca

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