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A bem da Nação

A REFORMA DO PALHAÇO

 

 

 

NOVO LIVRO DE JOHN WOLF

A CAMINHO DO PRELO

 
 
Preâmbulo
 
A história inventada é quase igual à verdadeira. Talvez seja melhor.
 
Lá fora não chovia nem fazia muito calor quando Ubanga pressionou o botão do dispensador de senhas da estação dos correios de Santa Comba Dão. O dedo não escorregou nem deslizou de uma forma invulgar. Não estava molhado nem suado. Se um anel decorasse um dos dedos não correria perigo de se extraviar, cair na sarjeta para ser resgatado e convertido em amuleto por um outro transeunte, crente e supersticioso. Nem aguaceiros nem ar abafado a esgueirar-se para invadir o pudor. O dia não era excepcional  para ser resgatado do calendário anual e ser considerado especial. Foi apenas mais um dia em que este evento banal aconteceu. Ou não. O dedo indicador dava a ordem e tomava a dianteira em relação aos outros dedos da mão. Era largo e grosseiro. Esse membro deveria indicar, sugerir ao de leve sem nunca impor, mas agora ordenava. Esse dedo, um filho da mão supostamente esbelto e aprazível, parecia rude no gesto e era maior que o botão do aparelho. Parecia mais um polegar, mas a verdade é que indicava o caminho. Era o guia espiritual das chapadas dadas, o desentupidor das vias nasais mas também o irmão mais próximo do polegar. Porventura o tempo passado na companhia do dedo anão terá servido para aprender maus hábitos e outros costumes. A proximidade das casas ou a boa vizinhança dos dedos terá servido para a troca efectiva de experiências e hábitos. O polegar por seu turno tinha aprendido algo com o dedo indicador, revelador do desejo de movimento e afastamento da família. Sentimos essa expressão de independência no polegar. Sem o baixote as boleias não teriam acontecido e o corpo que acompanha a mão não estaria aqui. Um divórcio entre um dedo e  um outro nunca seria possível na verdadeira acepção da palavra, de costas voltadas ou sem troca de mensagens. Mesmo com ódio teriam de conviver na mesma palma e pactuar com eventos realizados por outros. O mindinho ainda não tinha vindo à baila, mas bastará para ilustrar a impossibilidade de narcisismo, um membro que reclama os louvores do clube como se a mão não fosse uma equipa que partilha glórias, apertos ou oferece aplausos. Mas para além de tudo isto havia uma outra dimensão, um perfil traçado e explanado sem correspondência na linha da vida da mão aberta ou estendida. Um homem não se resume à explicação dada pela cigana ou pelo contador de estórias.
 
A cigana aborda o peão, uma moeda em troca da revelação, mão estendida para a cobrança coerciva. Presença sombria. O contador de estórias faz parte da empresa concorrente que trabalha pro bono.  O livro não é de graça.
 
 John Wolf

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