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A bem da Nação

A CASA DO FRIO

 

 
Sob este manto de neve, um 'hotel de charme'
 
 
Com Mirabel ao abandono e definitivamente encerrado, aterrámos em Dorval, o antigo aeroporto agora denominado Pierre ElliottTrudeau em honra desse antigo Primeiro Ministro canadiano. Ou seja, em vez de um ror de quilómetros por estradas geladas, fizemos um percurso de 20 minutos até ao centro da cidade. A propósito dos grandes pensadores da nossa praça que queriam fazer um novo aeroporto bem periférico, na Ota, ignorando a história de Mirabel, logo me lembrei de Friedrich Hölderlin (1770 - 1843), o poeta alemão que dizia que «somos originais porque não sabemos nada».
 
Chegados a Montréal pelo fim da tarde de 23 de Dezembro com uma temperatura por ali considerada moderada, -6º Centígrados, logo recordei as minhas preferências pelas latitudes meridionais a estas setentrionais. Mas também Vasco da Gama dizia que «há homens para tudo, até para andar no mar» e, portanto, mãos à obra que a hora era de missão e não de folguedo. Ao longo desta estadia acabámos por ser “prendados” com temperaturas de -25º Centígrados…
Sede de uma metrópole com cerca de 3,6 milhões de habitantes, Montréal é a segunda maior cidade da Francofonia apenas ultrapassada por Paris mas tem uma das populações mais bem educadas do mundo com a maior concentração de estudantes universitários per capita de toda a América do Norte: tem quatro universidades – duas francófonas e duas anglófonas – e 12 faculdades nelas assumindo especial relevo a medicina e a engenharia aeroespacial.
Para se ter uma ideia do que é hoje o Canadá, basta referir que se trata do maior produtor mundial de hidro-electricidade daí resultando a possibilidade de instalação no país de indústrias grande consumidoras de electricidade como é o caso da produção de alumínio cuja liderança mundial assegura. A produção de trigo e de carne assumem também especial significado.
 
E como é que tudo isto começou?
 
Depois de Portugal ter abandonado a Terra dos Corte Reais e a do Lavrador à sorte dos que por lá ficaram já miscigenados com os índios, foi o rei francês Henrique IV que em 1604 se entusiasmou com um primeiro relato sobre as riquezas da região e incentivou e ideia de ali se edificar uma colónia denominada «Nova França».
 
Nascido em França em ano obscuro mas que os historiadores assentaram como em 1575, Samuel de Champlain é actualmente considerado o «Pai da Nova França». Morreu na cidade de Quebec em 1635 depois de a ter fundado em 3 de Julho de 1608 na companhia de outros 27 franceses, homens e mulheres fartos da servidão a que eram sujeitos pelo Ancien Régime francês.
 
O negócio das peles foi o chamariz para mais franceses que inicialmente as compravam aos índios mas que progressivamente passaram a fazer as suas próprias capturas armadilhando cada vez mais para o interior das margens do rio São Lourenço. E este foi o grande eixo de penetração de que os europeus inicialmente se serviram até à região dos Grandes Lagos onde acederam por um estreito – détroit em francês a que mais tarde os anglófonos chamaram Detroit.
 
E a terra foi sendo desbravada e a água passando por baixo das pontes… até que os ingleses suplantaram os franceses e estes se confinaram à Província do Quebec. Eis como um grande número de francófonos militantes se viu integrado na Comunidade Britânica.
 
Até que em 1946 o então Primeiro Ministro, William Lyon Mackenzie King, exprimindo um sentimento já muito comum em todo o Canadá, se dirigiu ao Parlamento de um modo algo inesperado intitulando-se apátrida e do mesmo apelidando todos os presentes.  A sessão legislativa concluiu-se com a aprovação unânime da Lei da Cidadania ao abrigo da qual os canadianos deixavam, a partir do dia 1 de Janeiro de 1947, de ser súbditos de 2ª classe de Sua Majestade o Rei de Inglaterra. E se isso puder servir de sugestão para quem tem mandato em S. Bento de baixo, o legislador canadiano sempre assumiu que viver no Canadá é um privilégio e a sua cidadania uma honra. Nesta conformidade, quem não respeitar a Lei do país é despejado para a terra de origem tanto do próprio (no caso de imigrante) como da dos paizinhos que o não souberam educar (no caso dos nacionais de 1ª geração) daí resultando que os Açores já se queixam de tanto valdevino que lhes chega daquelas paragens.
 
Mas o Quebec manteve sempre uma ligação muito estreita com a Igreja Católica a tal ponto que esta passou a dominar toda a vida dos franco-canadianos: quem quisesse um emprego tinha que se fazer acompanhar de uma carta de recomendação do Prior da respectiva Paróquia e nas campanhas eleitorais estes não hesitavam em proclamar ex-cathedra que «o Céu é azul (cor do Partido Conservador) e o Inferno é vermelho (cor do Partido Liberal)».
 
Só que os leigos acabaram por se cansar da tutela clerical e pela década de 60 do século passado fizeram a secularização social no âmbito de um processo que ficou conhecido como a Revolução Tranquila. Assim nasceu o termo québécois em substituição do até então vigente franco-canadiano, a criação de um Ministério da Educação e o investimento maciço no ensino público laico.
 
E assim foi que, julgando eu que não teria problemas linguísticos em Montréal, dei por mim a preferir o inglês àquele francês que lá falam. Sim, esqueçam-se os meus Leitores dos ditongos «an», «ain» ou «en» porque eles dizem o primeiro como os patos abrindo o «a» num tom de cana rachada, dizem o segundo pronunciando separadamente o «a» e o «i» enquanto que ao terceiro aplicam uma tonalidade alentejana como nem em Évora se ouve. E como falam numa correria típica de quem julga que está na véspera do juízo final, damos por nós a preferir o inglês.
 
Conclusão: cidade muito interessante, região muito próspera, país muito rico; clima para descartar.
 
Admito que nem Miguel nem Gaspar Corte Real tenham naufragado mas apenas congelado, morrido de frio.
 
Lisboa, Janeiro de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca
 
 

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