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A bem da Nação

Um Natal antigo

 


 
 
                                             
No início de Dezembro começam os preparativos. Meu pai alugava um carro e ia à Estrada da Caldeira  escolher a nossa árvore de natal, num sitio ao lado da Capelinha de São João, onde se cultivava e vendia lindos pinheiros para os festejos natalinos.
 
Na modesta casa de minha avó, no centro da sala assoalhada, sobre uma mesa redonda coberta por uma linda toalha branca rendada, se erguia um presépio simples, onde uma antiga e linda imagem do Menino Jesus Coroado reinava, sozinha. Em volta, pratinhos de trigo grelado, que mais pareciam curtas e verdes cabeleiras, e arranjos de exuberantes camélias brancas e laranjas perfumadas enfeitavam com singeleza aquele altarzinho. Do teto, quatro grossos cordões circundados por uma verde e luxuriante trepadeira se abriam até o chão, em forma de pirâmide, sobre o pequeno altar. Um tapete verde, de folhagens, fazia um caminho da mesa à entrada. Na cozinha vovó fazia massa cevada, o prestigiado bolo de nozes, e as tradicionais fatias douradas. Aromas adocicados e frutados se expandiam pelo ar.
 Vez por outra, “ranchos” passavam pelas casas. Ao serem convidados entravam, homenageavam o Menino Jesus e os presentes com canções natalinas. Depois da apresentação, eram-lhes servidas guloseimas. Frutas, figos secos recheados com manteiga e nozes, bolinhos confeitados, tudo acompanhado de uns copitos de angelica, bebida licorosa à base de uvas (do Pico), para esquentar.  Eram pessoas, na maioria jovens, que agasalhadas com grossos sobretudos, boinas  e cachecóis, andavam pelas ruas frias e húmidas das freguesias, tocando e cantando músicas regionais da época.
 
Mas era na casa de meus pais que os familiares se reuniam para a ceia natalina. Um quarto era desmontado e servia de sala para o pinheiro. Alto, frondoso, ele me encantava. Ansiosa, esperava papai chegar da loja onde trabalhava para, depois do jantar, ajudá-lo a enfeitar a árvore de Natal. Os enfeites eram confeccionados com cascas de nozes recobertas por papel de prata colorida (dos chocolates que comíamos  durante o ano),  pequenos brinquedinhos, e bonequinhos artesanais de São Nicolau, feitos de papel crepom vermelho e algodão. Sobre os galhos, finos fios de papel prateado imitavam  neve.
 
 Os serões eram alegres e divertidos. Na azáfama de concluir o trabalho, não sentíamos o frio que àquela época já chegara. Quando caía granizo, em forma de pequeninas bolinhas, eu corria para a janela e, através da greta que se fazia ao levantar a hemi-folha da vidraça, recolhia em pratinhos de brinquedo, o gelo que logo se derretia. Para aquecer o ambiente, minha mãe acendia um pesado fogão de ferro inglês, comprado de um casal britânico, que trabalhou na ilha, quando da instalação dos cabos submarinos no Faial.
 
Na noite de Natal, tudo arrumado, os parentes chegavam. Eram abraços, saudações, trocas de pequenos agrados. Depois de jantar a tradicional bacalhoada, as crianças se deitavam para esperar o São Nicolau chegar. Logo dormiam, veladas pelos mais idosos.
Meus pais, tios e os jovens da família iam para igreja, a pé, em alegre algazarra, bem agasalhados, para assistir a Missa do Galo. Confraternizavam com quem encontravam. A missa era linda, cantada, durava mais de duas horas. Voltavam de madrugada, da mesma maneira, a pé e com fome. Em casa a mesa simples, mas farta, esperava-os para a ceia. Eram inhames, linguiças, carnes assadas, torresmos, batatas. No aparador as sobremesas. Massa cevada, pudim de veludo, bolo de nozes, frutas cristalizadas, figos secos recheados, amêndoas açucaradas, vinho tinto da casa, do ano passado, e licores de frutas do Pico.
 
Quando chegavam, os presentes eram colocados, em silencio, sob a árvore.
Concluída a tarefa, meus tios acordavam as crianças com grande alarde,  batendo panelas. Corram,  diziam eles,  São Nicolau está na sala,  deixando as prendas. Era uma balburdia. A criançada, ainda atordoada, se precipitava para o aposento onde estava a árvore de Natal. Com os olhos esbugalhados, olhavam a janela, propositalmente aberta, insinuando que São Nicolau fugira.  Os maiores já desconfiavam da história, mas os menorzinhos ainda acreditavam no Bom Velhinho.  Cansados de tanto procurar, voltavam as atenções para os coloridos embrulhos, que abriam com sofreguidão.  Afinal eles comportaram-se bem o ano inteiro. Agora era brincar até o dia clarear, enquanto os adultos iam para mesa, cear.
 
 Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 23/12/08

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